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Crise em Hong Kong é o fracasso de Xi Jinping

Revolta no território levanta dúvidas sobre projeto do presidente chinês

Gideon Rachman
Financial Times

A situação em Hong Kong é um pesadelo para Xi Jinping. 

O presidente chinês fez da recuperação do poder e dignidade de seu país o tema central de sua Presidência. Mas parte do território soberano da China mergulhou em uma situação de anarquia violenta.

Universidades foram convertidas em campos de batalha. Manifestantes atiram coquetéis molotov contra a polícia, mas parecem conservar uma forte dose de apoio da população. 

Tropas chinesas apareceram nas ruas –mas até agora apenas para ajudar a retirar destroços. Se essas tropas forem usadas contra os manifestantes, o risco é que Hong Kong mergulhe em uma insurreição prolongada, semelhante ao que ocorreu em Belfast na década de 1970 ou Argel nos anos 1950.

Parede com imagens do dirigente chinês, Xi Jinping, e a chefe-executiva de Hong Kong, Carrie Lam, em evento comemorando os 30 anos da queda do Muro de Berlim, em Hong Kong
Parede com imagens do dirigente chinês, Xi Jinping, e a chefe-executiva de Hong Kong, Carrie Lam, em evento comemorando os 30 anos da queda do Muro de Berlim, em Hong Kong - Dale De La Rey - 17.nov.19/AFP

​Xi Jinping poderia argumentar plausivelmente que a crise imediata não é sua culpa. O estopim das primeiras manifestações, em junho, foi a apresentação de um projeto de lei que permitiria que criminosos suspeitos fossem extraditados de Hong Kong para a China continental

Segundo a maioria dos relatos, a ideia teria sido proposta pela chefe-executiva de Hong Kong, Carrie Lam. Quando Pequim viu as dimensões da oposição à proposta, tentou reagir com sensatez, suspendendo o projeto de lei.

Mas o movimento de protesto já havia ampliado seus objetivos e adquirido um ímpeto irresistível.

Xi Jinping tem uma responsabilidade mais ampla. Nos sete anos passados desde sua chegada ao poder, o autoritarismo do Estado chinês cresceu significativamente, preparando o terreno em Hong Kong para uma reação contra o governo de Pequim.

Uma campanha contra a corrupção levou ao desaparecimento de figuras destacadas da vida pública na China continental e a uma onda de suicídios entre funcionários do Partido Comunista. 

Mais de 1 milhão de pessoas foram detidas em campos de reeducação na província de Xinjiang. O tratamento dado à população de Xinjiang é citado frequentemente por manifestantes em Hong Kong como sinal do quão longe Pequim se dispõe a ir para sufocar a diversidade cultural e regional.

O sistema legal cada vez mais kafkiano da China continental forma um contraste marcante com a tradição de Hong Kong de respeito às leis. Mas, durante o período de Xi no poder, a intolerância da China continental com a livre expressão e sua atitude brutal em relação à lei infiltraram Hong Kong também. 

O caso de alguns livreiros de Hong Kong que foram sequestrados e depois encarcerados na China continental transmitiu uma mensagem assustadora, assim como a decisão de impedir legisladores eleitos de atuar na Assembleia de Hong Kong por terem confundido palavras nos juramentos de lealdade à China.

Destacados ativistas políticos anti-Pequim, como Joshua Wong e Edward Leung, foram encarcerados. Wong agora está fora da prisão. O slogan do ainda encarcerado Leung, “libertem Hong Kong, revolução agora”, é gritado nas ruas.

Sempre houve tensões inerentes à fórmula intranquila “um país, dois sistemas”. Em 2003, houve grandes manifestações públicas contra uma lei de segurança nacional proposta por Pequim para Hong Kong. 

Mas, nos 15 anos entre a devolução de Hong Kong à China pelo Reino Unido, em 1997, e a chegada de Xi Jinping ao poder, em 2012, essas tensões foram administráveis. 

Os cidadãos de Hong Kong tinham razões para esperar que, até a integração plena de Hong Kong com a China, marcada para 2047, a China continental pudesse evoluir e se converter numa sociedade mais liberal e regida pelas leis.

Contudo, a China retrocedeu politicamente desde que Xi chegou ao poder. Slogans da era maoísta foram recuperados, e o chamado “pensamento de Xi Jinping” foi inscrito na Constituição chinesa. Restrições ainda maiores foram impostas à liberdade de expressão. 

Advogados de direitos civis foram detidos e organizações não governamentais foram fechadas.

Não chega a surpreender que Hong Kong agora encarre com horror a perspectiva de integração plena com a China continental. E a data de 2047 já não parece tão distante assim. 

Muitos dos manifestantes mais radicais são adolescentes ou têm pouco mais de 20 anos. Estarão no auge da vida quando a segunda transferência de Hong Kong ocorrer, em 2047. 

Assim, sua alegação de que estão lutando por sua liberdade não pode ser descontada como mera hipérbole, mesmo que suas táticas possam ser contestadas.

A revolta atual impõe o questionamento não apenas do modo como Xi vem lidando com Hong Kong, mas de seu projeto inteiro. O mantra do presidente é “o grande rejuvenescimento do povo chinês”, e um de seus elementos centrais é a restauração da integridade do território nacional. 

A ideia é que o próximo passo, depois de Hong Kong, seja recuperar Taiwan.

O governo chinês já ameaçou várias vezes invadir Taiwan se a ilha autônoma declarar sua independência formal algum dia. Mas se Pequim não consegue controlar as ruas de Hong Kong, a ideia de a China continental conquistar Taiwan parece inacreditável.

Fato igualmente perturbador para a visão de Xi, a rebelião em Hong Kong desmente um dos pilares da educação patriótica promovida pelo Partido Comunista: que existe apenas “uma China” e que todos os chineses anseiam sobretudo pela unificação. 

Está claro agora que, para milhões de honcongueses, a solidariedade étnica não fala mais alto que suas desconfianças políticas em relação à China continental. 

Pelo contrário –cada vez mais eles afirmam uma identidade separada de Hong Kong, identidade essa muitas vezes marcada pelo preconceito contra os chineses continentais.

Acompanhar o desenrolar dos acontecimentos em Hong Kong inspira o medo de uma tragédia iminente.

Mas para encontrar uma saída pacífica seria preciso que Xi Jinping demonstrasse humildade, uma mente aberta e tolerância a pontos de vista contrários que parecem ser totalmente estranhos a ele e ao sistema que ele criou.

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