É doloroso Bolsonaro elogiar príncipe saudita, diz noiva de jornalista assassinado

Para Hatice Cengiz, silêncio de UE e EUA sobre morte de Jamal Khashoggi é uma prova pesada

São Paulo

Na tarde de 2 de outubro de 2018, o jornalista saudita Jamal Khashoggi entrou no consulado da Arábia Saudita em Istambul para protocolar documentos de seu casamento com a turca Hatice Cengiz.

Eles estavam juntos havia seis meses, depois de terem se conhecido em uma conferência naquela cidade. “Parecia o encontro de duas pessoas que enxergam o mundo do mesmo ângulo”, conta Cengiz, 37, à Folha, em entrevista por email, em turco.

À época estudante de doutorado, Cengiz esperou cerca de três horas do lado de fora do consulado, mas seu noivo, um dos principais críticos da monarquia absolutista saudita e colunista do jornal The Washington Post, não retornou.

Hatice Cengiz, noiva do jornalista saudita Jamal Khashoggi, que foi assassinado - Ozan Kose - 08.fev.2019/AFP

​Khashoggi foi assassinado por agentes do governo saudita. Ele teria recebido injeção letal antes de ter corpo esquartejado e os restos mortais —nunca encontrados— retirados do local em sacos de lixo.

Dias depois, a CIA, agência americana de inteligência, afirmou ter obtido um áudio no qual se ouvia o jornalista de 59 anos sendo torturado. Segundo o órgão, o crime foi ordenado pelo príncipe herdeiro Mohammed bin Salman (MBS) para calar o jornalista.

Em visita recente à Arábia Saudita, Jair Bolsonaro disse ter “afinidades” com MBS. Afirmou ainda que todo mundo gostaria de passar uma tarde com um príncipe, principalmente as mulheres.

“É doloroso ouvir um líder que se diz defensor de certos valores no seu próprio país elogiar o líder de um outro país desta forma”, diz Cengiz.


Hatice Cengiz, 37

Nascida na Turquia, tem bacharelado em estudos religiosos e mestrado em estudos do Oriente Médio e é pesquisadora da cultura do Omã. Meses depois da morte de Kashoggi, mudou-se para Londres para aperfeiçoar o inglês


O que a sra. sentiu enquanto esperava seu noivo do lado de fora do consulado?

A primeira coisa que sentia é que aquele dia era muito importante, era o último passo para o nosso casamento.

Minha família e meus amigos sabiam que eu estava lá: eu esperava impacientemente a saída de Jamal para dar as boas notícias a eles. Enquanto esperava, refleti sobre as coisas que planejamos naquele dia.

Se ele conseguisse sair antes das 17h, planejávamos ir à prefeitura para agendar a data do casamento. Depois eu queria fazer uma refeição com nossos conhecidos e ver móveis.

Queríamos fazer tudo rapidamente, não tínhamos motivo para esperar mais. Nunca pensei que ele não sairia, nem que eu esperaria a saída dele com milhares de pessoas.

 

O príncipe MBS disse recentemente que assumia “responsabilidade total” pelo assassinato, mas que não o ordenou. Como a sra. recebeu a declaração?

Não basta pensarmos o quanto esta declaração feita quase um ano depois do ocorrido é verídica e crível. É uma declaração política, não tem como aceitar com bom senso.

Todo mundo ficou chocado. Diz que, sendo governante, é o responsável pelo ocorrido, mas que não sabia. Tem como acontecer algo tão importante, tão escandaloso, sem um governante saber? 

Se é que isso é verdade, quem tem de comprovar esta afirmação com o maior número de detalhes possível é ele. Por que [Jamal] foi assassinado de modo tão bárbaro? Onde está o corpo dele?

Em uma entrevista à rede britânica Channel 4, a sra. pediu à União Europeia que impusesse sanções contra a Arábia Saudita como forma de o país pagar pelo crime. Como a senhora vê a resposta da UE e dos EUA à morte?

Fiquei chocada e ainda estou com o fato de que o mundo consegue ficar em silêncio diante das provas apresentadas pela Turquia. Existem valores humanos adotados principalmente pelos EUA e países europeus. Eles foram defensores da democracia, dos diretos humanos e da liberdade de expressão.

Para instalar e fortalecer estes valores, lutaram seriamente por anos: houve guerras e derramamento de sangue. Ficar em silêncio diante do assassinato de um civil é uma prova incrivelmente pesada.

Querendo ou não temos que perguntar o seguinte: isto é hipocrisia? Na Europa, a Alemanha teve parcialmente uma reação [deixou de vender armas para a Arábia Saudita], mas fora isso não houve nenhuma declaração séria. Isso é uma tristeza imensa. Devia ter havido alguma reação investigativa.

Qual sua opinião a respeito das afirmações de Bolsonaro sobre MBS?

São palavras demasiadamente ousadas por parte de um presidente que está no poder há menos de um ano. Hoje em dia temos líderes interessantes. Antigamente conseguíamos ver muitos líderes com postura e ideal. 

É doloroso ouvir um líder, que se diz defensor de certos valores no seu próprio país, elogiar o líder de um outro país desta forma. O assassinato não tem relação com o país dele, mas mesmo assim ele deveria ter postura mais séria como presidente e indivíduo. 

Ele, talvez, acredite que o príncipe herdeiro não tenha responsabilidade, mas por que não pergunta o que aconteceu com ele [Khashoggi]? Não era preciso que solicitasse que justiça fosse feita? Ou então investigação internacional?

​​​Como a sra. vê medidas recentes tomadas pelo príncipe em relação às mulheres, como a permissão para que sauditas possam dirigir e viajar ao exterior sem a permissão de um homem?

É errado apresentar essas medidas à mídia como uma revolução internacional —afinal, são resoluções relacionadas ao próprio país dele.

Quem sofria com essas proibições e quem vai se beneficiar também é somente o povo daquele país. Pessoalmente, não acho nada além da correção de um erro. Mesmo que atrasado, é bom ver esses problemas serem resolvidos. 

Jamal também defendia os mesmos valores, ele queria que os problemas fossem resolvidos dialogando com a opinião pública.

Por quanto tempo a sra. e Khashoggi ficaram juntos? Onde e como se encontraram?

Nós nos conhecemos em uma conferência em Istambul. Foi uma convivência de seis meses, aproximadamente. Quando ele voltou para Istambul depois de nos conhecermos, nós nos encontramos de novo e foi assim que começou. 

Pouco tempo depois recebi o pedido de casamento. Parecia o encontro de duas pessoas que veem o mundo do mesmo ângulo. Ficamos amigos bem próximos. Tanto ele quanto eu precisávamos de algo mais do que uma amizade, por isso o casamento era uma boa opção.

Como a sra. se sente hoje, um ano após o assassinato?

Mesmo que os dias em que eu me sentia muito triste e sem vontade de viver já tenham passado, ainda não estou animada em relação à vida. Antigamente eu achava que a vida tinha muitos significados.

Procuramos muita coisa para nos fazer felizes, mas não é preciso tanto. Eu já era uma pessoa forte no aspecto emocional e espiritual. Com a morte dele, esses meus lados se fortaleceram ainda mais. 

O que se pode falar em um mundo onde não coube o corpo de Jamal? Vamos nos reencontrar na vida após a morte. Às vezes, pensar na morte faz bem para o ser humano. Acredito que devemos utilizar bem esse pouco tempo que viveremos aqui. Sinto saudades de Jamal cada vez mais.

Tradução da entrevista: Atilla Kus

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