Descrição de chapéu The Washington Post

Ex-funcionários do Twitter são acusados de espionar contas de críticos do regime saudita

Caso levanta preocupação sobre a capacidade de proteger informações de dissidentes

Ellen Nakashima Greg Bensinger
Washington | The Washington Post

O Departamento de Justiça americano acusou dois ex-funcionários do Twitter de espionar para a Arábia Saudita. O caso levanta preocupações quanto à capacidade do Vale do Silício de proteger informações privadas de dissidentes e outros usuários do Twitter em países com governos repressores.

As acusações foram anunciadas em San Francisco na quarta-feira (6), um dia após a prisão de um ex-funcionário do Twitter, o americano Ahmad Abouammo, que, trabalhando para o governo de Riad, teria espionado as contas de três usuários.

Ex-funcionários do Twitter foram acusados de espionar contas de usuários - Alastair Pike/AFP

Abouammo também é acusado de falsificar uma fatura para obstruir uma investigação do FBI.

O outro ex-funcionário do Twitter, o saudita Ali Alzabarah, foi acusado de acessar as informações pessoais de mais de 6.000 contas do Twitter em 2015, a serviço da Arábia Saudita.

Uma dessas contas pertencia a um dissidente conhecido, Omar Abdulaziz, que mais tarde ficou amigo de Jamal Khashoggi, colunista do Washington Post assassinado no ano passado por agentes do governo saudita.

Promotores disseram que um terceiro indivíduo, o também saudita Ahmed Almutairi atuou como intermediário entre autoridades do país e os funcionários do Twitter. Assim como os outros, Almutairi foi acusado de espionagem. Acredita-se que Alzabarah e Almutairi estejam na Arábia Saudita.

Analistas dizem que é a primeira vez que promotores federais americanos acusam sauditas publicamente de cometer espionagem nos Estados Unidos.

O caso chama a atenção por envolver um país do Oriente Médio aliado estratégico dos Estados Unidos e cujo líder, o príncipe herdeiro Mohammed bin Salman, foi vinculado pela CIA ao assassinato de Khashoggi no consulado saudita em Istambul, em outubro de 2018.

“A denúncia divulgada hoje alega que agentes sauditas garimparam os sistemas internos do Twitter para extrair informações pessoais sobre conhecidos críticos do regime saudita e milhares de outros usuários do Twitter”, disse o promotor federal David Anderson.

“Não vamos permitir que empresas ou tecnologia americanas virem ferramentas de repressão de outros países, violando as leis americanas.”

O Twitter restringe o acesso a dados sensíveis sobre contas a “um grupo limitado de funcionários treinados e verificados”, disse um porta-voz da empresa. 

Os três homens foram acusados de trabalhar para um funcionário do governo saudita que comanda uma organização beneficente pertencente a Mohammed.

Com base na descrição feita pela entidade, o funcionário seria Bader Al Asaker. A organização beneficente de Asaker, MiSK, pertence a Mohammed bin Salman.

O caso é “incrivelmente importante”, disse Adam Coogle, pesquisador da Human Rights Watch. “O Twitter é o espaço público ‘de facto’ da Arábia Saudita, o lugar onde cidadãos sauditas vão para discutir questões diversas.”

De acordo com a denúncia, Asaker começou a cultivar relações com funcionários do Twitter em 2014 em um esforço para colher informações sobre usuários que o governo saudita não conseguia obter de outras fontes.

O príncipe herdeiro da Arábia Saudita, Mohammed bin Salman - Charly Triballeau - 27.jun.2019/AFP

Abouammo, que foi preso em Seattle, trabalhou para o Twitter como gerente de parcerias de mídia. Ele conheceu Asaker em Londres no final de 2014.

Em uma semana ele começou a acessar dados ilicitamente para os sauditas. Um de seus alvos foi descrito na denúncia como “Usuário do Twitter número 1”, que seria “crítico destacado” do reino e da família real saudita e teria mais de 1 milhão de seguidores.

A descrição corresponde à conta de @Mujtahidd, o nome de Twitter de um indivíduo anônimo cujas revelações sobre corrupção entre a liderança saudita provocaram a cólera das autoridades locais. 

Asaker pagou pelo menos US$ 300 mil a Abouammo por seus esforços e também lhe deu um relógio no valor de US$ 20 mil, segundo a denúncia. Em maio de 2015, Abouammo pediu demissão do Twitter e foi viver em Seattle.

Alzabarah foi contratado pela empresa em agosto de 2013 como engenheiro de verificação do site. Seu trabalho como agente saudita teve início em maio de 2015, segundo a denúncia.

Naquela época, Asaker era funcionário da corte real saudita e se tornara diretor do gabinete particular de Mohammed.

Em maio de 2015, Alzabarah viajou a Washington, onde tinha planos de se reunir com Asaker. Almutairi também estava em Washington na época, assim como Mohammed, que fez uma visita à Casa Branca.

Uma semana depois de voltar a San Francisco, Alzabarah teria começado a vasculhar os dados particulares de um número enorme de usuários do Twitter.

Como Abouammo havia feito, Alzabarah examinou a conta de @Mujtahidd. Ele também examinou a conta de um “influente e conhecido crítico” do governo que vive como asilado no Canadá –uma descrição que corresponde a Abdulaziz, cuja identidade no caso foi confirmada por uma pessoa familiarizada com a questão.

No mês passado, Abdulaziz moveu uma ação contra o Twitter, alegando que a empresa não o informou que sua conta tinha sido invadida por Alzabarah apesar de, segundo a ação, o Twitter ter razões para acreditar que isso acontecera.

Abdulaziz, cujos dois irmãos foram detidos pelo governo saudita, ficou amigo de Khashoggi em 2017. Nos meses que antecederam o assassinato do jornalista, os dois estavam organizando um projeto na Arábia Saudita para combater trolls pró-governo no Twitter.

Tradução de Clara Allain

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