Garoto mórmon caminhou por 22 km para obter ajuda após atentado no México

Trump fala em guerra aos cartéis; presidente mexicano rejeita a ideia

São Paulo

Um dos garotos da família de mórmons vítima de um massacre no México caminhou durante seis horas até conseguir ajuda.

O menino de 13 anos, que saiu ileso, andou cerca de 22 km depois de esconder seis irmãos feridos em arbustos e cobri-los com galhos para se protegerem, de acordo com Kendra Lee Miller, parente da família. Ao chegar à comunidade onde vive, em La Mora, o garoto foi o primeiro a dar notícias do crime.

Cinco das seis crianças que o garoto escondeu foram levadas para um hospital local e então transferidas para outro em Tucson, no Arizona. A sexta, a irmã de nove anos do garoto, desapareceu depois de ter fugido dos arbustos para buscar ajuda, mas foi encontrada cerca de duas horas depois por soldados mexicanos.

Miller publicou em uma rede social uma descrição do ocorrido e divulgou os nomes dos nove membros da família mortos no ataque.

Carro incendiado com pessoas dentro em Bavispe, nas montanhas do estado de Sonora, no México - AFP

Três mulheres e seis crianças de uma comunidade mórmon americana instalada no norte do México há mais de um século foram assassinados na segunda-feira (4) por um grupo de homens armados. As vítimas eram membros da pequena comunidade de La Mora, no estado de Sonora, próxima à fronteira com os Estados Unidos.

Além das vítimas fatais, uma das crianças, uma bebê de três meses, foi encontrada com vida no colo de sua mãe, morta no ataque.

Nesta quarta (5), autoridades mexicanas prenderam um suspeito. Identificado apenas como Pablo, o atirador foi detido na cidade de Agua Prieta, na fronteira com o estado norte-americano do Arizona, mantendo dois reféns amordaçados e amarrados dentro de um veículo —estas pessoas não estariam relacionadas ao atentado de segunda.

Ele tinha diversos rifles e uma grande quantidade de munição.

Segundo os investigadores, Pablo poderia ter confundido o comboio dos mórmons com veículos de uma gangue rival. Ao ser preso, ele disse aos investigadores que é membro do La Linea, braço armado do cartel de drogas Juarez, que disputa o território do atentado com o cartel de Sinaloa.

"Por 11 horas, familiares em Sonora, Chihuahua e no Meio-Oeste dos EUA esperaram com medo e horror por qualquer notícia sobre possíveis sobreviventes", escreveu Miller.

"O primeiro veículo foi encontrado cheio de buracos de bala e completamente em chamas. Rhonita e quatro de seus sete filhos que ela levara na viagem foram queimados. Restaram apenas alguns ossos carbonizados para identificar todos os cinco que estavam dentro [do carro]."

Julián Lebarón, líder mórmon e ativista, afirma que seus familiares foram mortos por criminosos. Ele também afirmou não saber quem está por trás dos ataques.

Há evidências que apontam para a teoria de que a família foi alvo deliberado do ataque, segundo uma autoridade dos EUA. A ideia é baseada na natureza do atentado, que se desenrolou como uma emboscada que continuou mesmo após mulheres e crianças fugirem dos carros. Houve também queima de evidências.

A autoridade informou ainda que a família era conhecida pelos cartéis da região, o que tornava possível que os criminosos soubessem que eles estavam viajando e conhecessem o modelo do carro que usavam. 

Em 2009, um membro da família LeBarón que vive no estado de Chihuahua foi sequestrado mas devolvido ileso uma semana depois. Seu irmão, Benjamin LeBarón, tornou-se um ativista anticrime  —meses mais tarde, ele e seu cunhado foram mortos.

Mas o clima estava calmo nos últimos anos, e parecia haver uma trégua, disse ao New York Times Ruth Wariner, tia de Rhonita LeBarón.

O líder mórmon Julian LeBarón disse que a família não recebeu nenhuma ameaça, além de avisos genéricos para não viajar para Chihuahua, onde costumavam comprar mantimentos e combustível.

De acordo com o governo mexicano, a organização criminosa Los Jaguares opera na região do ataque. Ele é um subgrupo do cartel de Sinaloa, que disputa o controle do território com outros grupos como La Línea e Jalisco Nueva Generación.

O caso gerou reações no México, que registrou aumento nos casos de violência nas últimas semanas, e amplia a pressão para que o governo de Andrés Manuel López Obrador dê uma resposta mais efetiva na área da segurança. 

Após o ataque aos carros dos mórmons, o governo mexicano enviou militares para a região, e o presidente americano, Donald Trump, que disse querer partir para o confronto, também ofereceu ajuda. 

"Este é o momento para que o México, com ajuda dos EUA, declare guerra aos cartéis de droga e os apague da face da Terra. Esperamos apenas uma chamada de seu grande novo presidente", tuitou Trump.

Obrador, no entanto, discordou. "Nisso, não concordamos, mas se respeita os que pensam assim. O pior que pode haver é uma guerra. Guerra é sinônimo de irracionalidade", disse, em entrevista coletiva. 

O líder mexicano apontou que 75% das armas de alto calibre no México vêm dos EUA e pediu uma cooperação para reduzir esse fluxo de armamentos.

Qual a ligação da família com os cartéis?

  • As vítimas moravam em uma região marcada por conflitos violentos entre grupos armados ligados ao tráfico de drogas
  • Em 2009, dois integrantes da família foram sequestrados e assassinados. Os principais suspeitos faziam parte das quadrilhas
  • No mesmo ano, um membro da família que morava no estado vizinho, Chihuahua, e criticava os
  • grupos armados também foi sequestrado —e libertado sem ferimentos em seguida
  • Parentes das vítimas afirmam que nos últimos anos parecia haver uma trégua entre as famílias de mórmons que vivem na região e as quadrilhas

Com Reuters

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