Descrição de chapéu The New York Times

Impulsionadas pelo #metoo, nigerianas denunciam abusos e enfrentam reação feroz

Mulheres relatam ofensas à sua reputação e acusações de que mentiram sobre as agressões

Julie Turkewitz
Lagos (Nigéria) | The New York Times

Era um segredo que, segundo ela, a queimava tanto por dentro que não conseguia mais guardá-lo. Então, aos 34, Busola Dakolo, uma conhecida fotógrafa nigeriana, foi à televisão e finalmente falou.

Ela disse que foi estuprada duas vezes quando adolescente por seu ex-pastor, Biodun Fatoyinbo, líder religioso cujos cultos atraem milhares de fãs, os quais, admirando seu estilo de vida vistoso, passaram a chamá-lo de "pastor Gucci". Ele negou as acusações.

Busola Dakolo de pé com as mãos no queixo de frente para um espelho num ambiente escuro
A fotógrafa nigeriana Busola Dakolo, que denunciou ter sido estuprada por seu ex-pastor e está sendo investigada num caso de conspiração criminosa - KC Nwakalor/The New York Times

Depois de anos em que o silêncio em torno de estupro e assédio sexual tem sido a norma, a África Ocidental está vendo uma onda de proclamações do movimento antiassédio #MeToo.

As acusações vieram de uma miss da Gâmbia que disse que o ex-presidente a estuprou; de uma ex-conselheira presidencial em Serra Leoa que disse ter sido agredida sexualmente por um líder religioso; e uma jornalista nigeriana da BBC que captou imagens com câmeras ocultas de professores universitários pedindo sexo em troca de admissão e notas.

Mas muitas mulheres que se manifestaram nos últimos meses também sofreram uma reação feroz, incluindo ataques à sua reputação e acusações de que mentiram sobre as agressões.

Enquanto seus críticos disseram que estão apenas aplicando o devido ceticismo a afirmações não comprovadas, seus apoiadores disseram que a reação hostil revela o quanto é difícil para as mulheres da região falarem sobre abuso.

A resposta atingiu mulheres em muitos países, incluindo a Europa e os Estados Unidos. Mas as sobreviventes na África Ocidental disseram que sentem um medo especialmente intenso —de envergonhar suas famílias, de assustar potenciais maridos, de atacar as instituições mais poderosas da região.

"Tudo", disse Dakolo, "ainda gira em torno da proteção a esses homens".

Omuwumi Ogunrotimi em frente a uma porta do gurpo de apoio
Omuwumi Ogunrotimi, que dirige um grupo que oferece apoio profissional a mulheres vítimas de assédio sexual e estupro - KC Nwakalor/The New York Times

A denúncia de Dakolo contra o pastor provocou uma visita da polícia nigeriana, que lhe disse que está sendo investigada em um caso de conspiração criminosa. Algumas semanas depois, o pastor retornou ao púlpito, em meio a aplausos de sua congregação e com o apoio de um grupo que se denomina Liga da Justiça Social.

Fatoyinbo disse no Instagram que muitas pessoas usaram acusações semelhantes para tentar extorquir a ele e ao ministério. "Nunca na minha vida estuprei alguém, nem mesmo uma descrente."

Em sua casa em Lagos, Dakolo disse que se manifestou depois que ela e o marido, um conhecido astro pop, souberam que o pastor continuava agredindo outras congregantes.

Mas o custo pessoal, acrescentou ela, foi alto e incluiu ameaças por telefone, assédio na internet e uma discussão extremamente difícil sobre estupro com seus três filhos.

"Você começa a se perguntar", disse ela, "eu fiz a coisa certa?".

A religião é uma força avassaladora na Nigéria, país de quase 200 milhões de habitantes dividido igualmente entre cristãos e muçulmanos.

Outdoors de pastores famosos pontilham as rodovias, um acampamento de redenção anual atrai milhões de pessoas e alguns pregadores têm mais visibilidade do que líderes políticos.

Nos últimos anos, Fatoyinbo transformou seu ministério, a Assembleia da Comunidade de Sião, em uma força de cinco cidades entre as muitas megaigrejas pentecostais do país.

Jovem e conhecedor de tecnologia, ele prega uma teologia cada vez mais popular chamada "evangelho da prosperidade", que postula que o sucesso pode ser alcançado por meio da fé e de doações à igreja.

Os congregantes entram em seu santuário sobre um tapete vermelho e seguem suas aventuras —sua festa de aniversário em um iate em Dubai, por exemplo— nos noticiários.

Mas Dakolo o conheceu há quase duas décadas, na cidade de porte médio de Ilorin, na Nigéria, quando ele era um astro promissor e ela ainda era uma adolescente.

Ele logo se tornou seu mentor espiritual, elogiando sua voz ao cantar e visitando sua casa para aconselhá-la. Quando Dakolo tinha 17 anos, o pastor a estuprou, disse ela, uma vez em sua casa e outra em uma estrada deserta. Devastada, Dakolo disse que logo contou à irmã e ao irmão e depois confrontou Fatoyinbo.

Ele lhe pediu desculpas, segundo ela, atribuindo seu próprio comportamento ao diabo.

A entrevista em vídeo de Dakolo em junho, na qual ela acusou Fatoyinbo pela primeira vez, foi vista pelo menos meio milhão de vezes no YouTube. Suas denúncias inspiraram um protesto diante da igreja e forçaram o pastor a tirar uma licença temporária.

Carros e pessoas na frente do prédio da igreja
A Assembleia da Comunidade de Sião, em Abuja, na Nigéria - KC Nwakalor/NYT

Desconhecidas logo inundaram suas redes sociais com suas próprias histórias de ataques, e uma segunda mulher apareceu e disse que o pastor a estuprara enquanto ela cuidava dos filhos dele. 

Esther Uzoma, advogada de direitos humanos em Abuja, disse que Dakolo rapidamente se tornou um "ícone" da "dor secreta" de toda mulher.

Mas Dakolo logo se viu sob forte suspeita.

Jornais locais publicaram uma declaração da Liga da Justiça Social acusando-a de ser um instrumento de líderes enciumados da igreja que pretendiam difamar Fatoyinbo.

Quando Dakolo o processou por sofrimento emocional, a equipe de advogados do pastor respondeu exigindo que ela lhe pagasse 50 milhões de nairas em danos, cerca de US$ 140 mil, com base no fato de que seu caso constitui um abuso do processo judicial. O caso está pendente.

A Irmandade Pentecostal da Nigéria prometeu uma investigação completa do assunto, mas a encerrou quando o pastor não compareceu a um interrogatório.

Um representante do grupo, Simbo Olorunfemi, disse que "não tolera e não tolerará" agressão sexual, mas que a falta de cooperação de Fatoyinbo havia deixado o grupo sem nada que pudesse fazer.

Muitas pessoas situam a origem do movimento #MeToo na Nigéria em fevereiro, quando uma jovem farmacêutica no norte conservador do país foi ao Twitter para descrever um encontro em que ela disse que seu namorado quase a matou.

Histórias de abusos logo voaram pela internet, muitas delas com a tag #ArewaMeToo. Arewa refere-se ao norte do país em Hausa. Dakolo se pronunciou alguns meses depois.

Então, em outubro, a rede britânica BBC divulgou um relatório expondo assédio sexual de professores em universidades importantes da Nigéria e de Gana.

Um professor foi mostrado em vídeo comprometendo-se a ajudar uma jovem a ser admitida na Universidade de Lagos, sem saber que era uma repórter disfarçada.

Ele então trancou a porta do escritório, apagou as luzes e a agarrou. Também disse a ela que as estudantes estão acostumadas a "pagar por isso" com seus corpos.

As filmagens provocaram indignação nas redes sociais e uma rápida reação política. Em poucos dias, o Legislativo nigeriano havia apresentado um projeto de lei que proíbe os avanços sexuais de professores, e o presidente prometeu seu apoio.

Dakolo disse que estava feliz por ver a investigação da BBC receber tanta atenção. Mas ficou frustrada porque as pessoas pareciam precisar ver um homem gravado em vídeo para levar a sério uma denúncia.

A maioria das mulheres não tem esse tipo de prova, disse ela.

A pastora Busola Olotu, líder de um ministério de mulheres em Ilorin que já foi mentora de Fatoyinbo, disse que conversara com outras três mulheres que lhe disseram que foram agredidas sexualmente por Fatoyinbo.

Nenhuma falou publicamente; todas recusaram pedidos de entrevistas.

Tradução de Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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