Lutadoras bolivianas voltam ao ringue após protestos

Cholitas retomam lutas após suspensão por duas semanas devido aos bloqueios em El Alto

El Alto | AFP

​Com sua saia típica verde-limão, a lutadora Lidia Flores se lança da segunda corda do ringue e cai com toda a força sobre seu oponente.

Ela faz parte do grupo Lutadoras Cholitas —como são conhecidas mulheres indígenas da Bolívia, de origem aimará e quechua— que voltou ao quadrilátero do clube Tubarões do Ringue após a suspensão do espetáculo por duas semanas devido aos protestos e bloqueios em El Alto, cidade vizinha a La Paz.

Uma multidão de idosos, mulheres jovens e pais com crianças grita e usa impropérios enquanto as cholitas lutam. Vestidas com “polleras”, saias tradicionais de várias camadas, e longas tranças, elas giram, chutam, batem e puxam o cabelo em um espetáculo caótico que, com frequência, acaba fora do quadrilátero.

Flores, conhecida como “Dina, a rainha do ringue”, conta que a luta livre é um alívio contra a pressão do seu trabalho como cozinheira em um restaurante. “A luta me desestressa”, diz ela. 

Depois de uma pausa de 15 dias, ela, que pratica a atividade há 12 anos, estava muito ansiosa para voltar ao ringue. “Com tantos bloqueios, não havia nada para comer, foi muito estressante”, afirma. 

Os protestos que seguiram as eleições presidenciais de 20 de outubro, impulsionados pela oposição que acusa Evo Morales de ter fraudado sua reeleição, puseram em risco a vida dos habitantes de El Alto, bastião do agora ex-presidente.

O bloqueio a uma fábrica de combustível causou a morte de oito pessoas, quando as forças de segurança dispararam contra manifestantes. 

“Foi a primeira vez [em oito anos] que tivemos que parar por um conflito”, conta a organizadora do espetáculo, Marie Peñaranda, enquanto vende entradas pelo equivalente a cerca de R$ 12.

As tensões diminuíram no último fim de semana, após a aprovação de uma lei para convocar novas eleições e negociações entre o governo provisório e manifestantes.

A enfermeira geriátrica Ana Luisa Yujra, mais conhecida como “Jhenifer duas caras”, diz que o espetáculo é uma terapia acessível para as pessoas depois de tanta violência. “Gosto de mostrar a habilidade, a agilidade e a capacidade que uma mulher pode ter.”

Na luta, Flores, que usa um um chale da mesma cor de sua saia, sobe ao ringue e lança seu chapéu no chão. Na preparação para o combate de pares mistos contra Yujra, ela faz saltos mortais que deixam à mostra as camadas se sua “pollera”.

Após uma disputa cheia de referências à crise política do país, Yujra e seu companheiro, que usa calça vermelha brilhante e camiseta combinando, são declarados vencedores.


No final, visivelmente exausta, Flores manda beijos para os seus fãs antes de deixar o ringue em direção ao vestiário improvisado. 

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