Morre jovem manifestante que virou símbolo dos protestos na Colômbia

Dilan Cruz foi atingido na cabeça durante ato no sábado; morte gerou mais protestos

Bogotá | AFP e Reuters

Dilan Cruz, um jovem manifestante ferido por agentes da Colômbia durante um protesto, morreu nesta segunda-feira (25), em Bogotá.

A morte do jovem é a quarta devido às manifestações realizadas no país desde quinta-feira (21). Houve também 500 feridos, entre civis e militares, 172 presos e 61 estrangeiros expulsos do país, sob acusação de vandalismo. A maioria dos deportados é venezuelana.

Manifestantes em vigília por Dilan Cruz, jovem ativista morto após ser ferido na cabeça em protesto por um membros das forças de segurança da Colômbia
Manifestantes em vigília por Dilan Cruz, jovem ativista morto após ser ferido na cabeça em protesto por um membros das forças de segurança da Colômbia - Raul Arboleda/AFP

Aluno de uma escola pública, Dilan foi atingido na cabeça por um artefato não identificado, lançado por um membro do esquadrão antidistúrbios, durante um protesto no centro da capital, de acordo com registros em vídeo.

Depois de sua morte, houve panelaços e passeatas em diversos bairros da cidade.

Centenas de estudantes, em diferentes grupos, marcharam com cartazes e fizeram vigílias na porta do hospital e no local onde o jovem foi ferido.

No fim do dia, houve confronto entre pessoas encapuzadas e a tropa de choque na Universidade Nacional. Centenas de pessoas se reuniram nas passarelas próximas para assistir ao embate —agentes também usaram as estruturas para lançar bombas de gás lacrimogêneo e de efeito moral no campus para dispersar o grupo.

Em um vídeo divulgado pelas redes sociais, Denis Cruz, irmã de Dilan, disse que o jovem era “um homem de paz” e pediu o fim dos confrontos. “A melhor homenagem que podemos fazer ao Dilan é que não haja mais distúrbios nem violência”.

Ela afirmou que sua geração quer “paz, não mais ataques, não mais violência, não mais crueldade, não mais atropelos contra o outro”. “O diálogo e o amor serão sempre nossas melhores armas”, completou.
Numa manifestação nesta terça, um policial de 43 anos foi ferido por um artefato explosivo em Neiva, no sul do país, e está em estado grave, segundo o jornal El Tiempo.

O presidente Iván Duque disse lamentar profundamente a morte de Cruz e enviou condolências à família. 

Ele se reuniu com lideranças dos protestos, de vários setores do país, que estão organizados no chamado Comitê Nacional de Greve. 

As centrais sindicais rejeitam possíveis iniciativas do governo, não oficializadas, para reduzir direitos trabalhistas e aposentadorias; os estudantes pedem mais recursos para a educação; e os indígenas, mais proteção, pois dezenas deles foram assassinados desde o início do mandato de Duque, em 2018.

Os manifestantes também questionam a intenção do presidente de rever o acordo de paz com as Farc (Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia), que desarmou a guerrilha e transformou o grupo em um partido político.

"A impaciência cidadã é grande, as queixas são grandes (...), mas também é muito importante entender que os governos não podem fazer promessas nem têm varinhas mágicas para produzir soluções milagrosas e imediatas", disse Duque. 

As negociações do governo com as entidades que representam os manifestantes estão previstas para acontecer até 15 de março, tanto em nível nacional e quanto regional. A pauta inclui o combate à corrupção, desemprego, "crescimento econômico com equidade", educação, fortalecimento de instituições, paz e ambiente.

Segundo o coordenador nacional do diálogo, Andrés Molano, a proposta é chegar a um pacote legislativo, com iniciativas de políticas públicas incluídas nos planos de desenvolvimento dos prefeitos que assumem em janeiro.

Sem acordo por ora, as entidades convocaram uma nova greve para quarta-feira (27). "Todas as ações de mobilização acordadas estão mantidas", disse Diógenes Orjuela, da Central Única dos Trabalhadores (CUT), um dos sindicatos mais poderosos do país. 

Duque enfrenta um descontentamento que vem se consolidando há anos. A Colômbia é o país mais desigual entre os 36 parceiros da Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), tem um desemprego de 10,1% e a informalidade atinge quase 50% dos trabalhadores.

Na segunda (25), a CUT e o sindicato dos professores públicos lideraram uma grande passeata, por ocasião do Dia Internacional da Eliminação da Violência contra a Mulher.

Milhares saíram às ruas em várias cidades. Em Bogotá e em Medellín, mulheres caminharam por avenidas importantes vestidas com roupas roxas e protestaram contra o feminicídio e em favor de mais direitos.


POR QUE OS COLOMBIANOS MARCHAM?

A lista de reclamações e demandas nos protestos que tomaram a Colômbia nos últimos dias é diversificada e inclui:

Rejeição a reformas para flexibilizar o mercado de trabalho e o sistema de aposentadorias; o governo de Iván Duque, no entanto, nega que haja propostas de reformas nesse sentido

Questionamento da política de segurança, que é focada no combate ao narcotráfico

Proteção aos indígenas após o assassinato de 134 deles desde o início da gestão, há 15 meses

Aumento de recursos para a educação pública

Rejeição ao assassinato de 170 ex-combatentes das Farc, que assinaram o acordo de paz em 2016; nos últimos meses, guerrilheiros dissidentes anunciaram o retorno à luta armada, acusando o governo de violar seus compromissos no tratado de paz

Fim da violência contra líderes sociais, que deixou 486 mortos entre 1º de janeiro de 2016 e 17 de maio de 2019, de acordo com levantamento divulgado pela Defensoria Pública

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