Descrição de chapéu The New York Times

'Nossa paciência acabou': por que os iraquianos estão protestando

Moradores da periferia de Bagdá falam sobre a onda de manifestações no país

Alissa J. Rubin
Sadr City (Iraque) | The New York Times

O pai de quatro filhos usou vestes tribais longas quando recebeu visitantes em seu jardim durante a manhã, mas no início da tarde estava de jeans, com o celular em uma mão e na cabeça uma lista de tarefas a cumprir.

Ele tinha meia dúzia de paradas a fazer antes de chegar à praça Tahrir, em Bagdá, o ponto zero dos protestos que estão sacudindo o Iraque.

Bassim al-Kaabi, 41, é uma das dezenas de pessoas que estão organizando os protestos a partir de Sadr City, um distrito grande e pobre de Bagdá que tem um histórico de contestação do governo.

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Militante leal a Muqtada al-Sadr em cima de tanque americano incendiado em Sadr City - João Silva/The New York Times

“Sejamos francos: somos pessoas pobres de Sadr City e muitas coisas nos fazem falta: escolas, postos de saúde, empregos”, disse Kaabi, que sustenta a família como taxista.

“Infelizmente, acreditamos nos políticos que disseram ‘votem em nós e faremos tudo que pudermos por vocês’”, prosseguiu. “Mas descobrimos que eles são mentirosos. Por isso agora estamos dizendo ‘basta’.”

Nas últimas cinco semanas mais de 200 mil iraquianos em todo o país vêm se reunindo todos os dias em protestos contra o governo. De acordo com o escritório das Nações Unidas no Iraque, as forças de segurança já mataram pelo menos 320 manifestantes e deixaram cerca de 15 mil feridos.

Os manifestantes estão revoltados com a corrupção, o desemprego e a influência do Irã sobre o país. Muitos são jovens, idealistas e com alto nível de instrução, em sua maioria seculares e urbanos.

Mas a maioria dos manifestantes é da classe trabalhadora e é muçulmana xiita, vinda do sul do país ou tendo origens no sul.

Esses iraquianos sofreram décadas de privações econômicas e opressão governamental exercida por muçulmanos sunitas, que controlaram o governo durante o regime ditatorial de Saddam Hussein. E eles têm um histórico de resistência violenta.

Eles estão frustrados porque, depois de terem suportado o domínio de Saddam Hussein, a guerra civil que se seguiu à derrubada dele e depois a invasão do Estado Islâmico, suas vidas pouco melhoraram.

A maioria dos moradores de Sadr City descende de migrantes vindos do sul do Iraque, que conservam vínculos rurais e tribais nessa região. Assim, o distrito oferece uma visão das queixas que motivam os protestos atuais e suas raízes na tradição contestatária do sul do Iraque.

Com mais de 3 milhões de habitantes, Sadr City é densamente povoada e cheia de lixo. Suas avenidas maiores dão lugar a ruas menores não pavimentadas e vielas esburacadas.

Os banhos públicos são muito frequentados; são locais de convívio social masculino e uma fonte rara de água quente abundante.

Como ocorre em boa parte de Bagdá, raramente há eletricidade por mais de metade do dia, mas dificilmente qualquer família pode comprar seu próprio gerador.

Assim, grandes redes de fiação irregular se espalham a partir de alguns geradores compartilhados em cada bairro.

Devido ao calor do verão, a vida acontece nas ruas, em quintais improvisados e terrenos baldios. Para escapar do calor sufocante dentro de casa, as pessoas dormem em cima de seus telhados.

Apesar da pobreza, Sadr City é um lugar cheio de energia intensa, de onde saíram alguns dos melhores músicos, poetas, pintores e escultores do país.

“Sadr City sempre foi como uma pedreira cheia de argila. Quando você escava fundo, acaba encontrando pedras preciosas”, disse o poeta e conhecido escritor iraquiano Wagih Abbas, que cresceu na cidade.

Conhecido por sua família e por outros organizadores dos protestos como Abu Tiba, Kaabi vive com sua esposa e filhos numa casa modesta construída por seu pai.

Uma faixa longitudinal de terra divide sua rua ao meio. Como seus vizinhos, Kaabi converteu a parte da faixa diante de sua casa em um pequeno jardim.

Como muitas pessoas em Sadr City, Abu Tiba tem parentes no sul do país. Seu primo foi executado por Saddam Hussein, e ele suportou as humilhações impostas por um sistema corrupto, pagando para conseguir um cargo público mas então tendo o cargo negado.

“Sadr City é um lugar tribal. A ética da tribo dita que, se alguma coisa acontece com uma pessoa, todo o mundo começa a ajudá-la da maneira que puder”, disse Abu Tiba, explicando a facilidade em mobilizar seu bairro.

Como muitas pessoas no sul do Iraque, a maioria de Sadr City é formada por seguidores de Muqtada al-Sadr, clérigo e líder xiita nacionalista e populista cuja família resistiu por muito tempo ao partido Baath, de Saddam Hussein.

A Organização Sadr, da qual Abu Tiba é membro e que tem vínculos com a milícia de Al Sadr, está ajudando a coordenar os protestos que se espalham a partir de Sadr City. Seus membros participam em grande número dos protestos, controlando posições estratégicas.

No meio da tarde Abu Tiba se reuniu com líderes de sua subtribo, a Al Bunda. Havia cerca de 20 homens trajando vestes tribais, seus filhos e algumas filhas, vestidas com muito asseio, como se estivessem arrumadas para o primeiro dia de aula. Eles embarcaram em vans, táxis, uma picape e um jipe.

Quando partiram, a impressão era que Sadr City inteira os estava acompanhando. Numa rotatória na rua, um pai e sua filha subiram na picape. Todos agitavam bandeiras e tocavam suas buzinas.

O grupo de Abu Tiba estacionou a mais de 1,5 km dos protestos e desenrolou sua bandeira tribal. Alguns dos homens traziam instrumentos musicais –um tambor grande e a flauta de bambu que é tradicional do sul do país.

O grupo percorreu o último quilômetro do caminho caminhando e dançando, entoando as palavras “shala kala, kulhom haramiya” (“arranque-os pelas raízes, todos são ladrões”).

Uma mulher que trouxera seus cinco filhos, todos com bandeiras tribais enroladas no corpo, contou que viera de Sadr City “para dar apoio a nossos irmãos”.

“Quero que as coisas mudem”, explicou Najla Latif, 42. “Nossa paciência se esgotou. Esperamos 16 anos depois de Saddam e ainda não temos nada.”

Tradução de Clara Allain

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