O que imprensa mostra de Hong Kong está longe da verdade, diz executivo chinês

Presidente do Grupo de Mídia da China afirma que cobertura no Ocidente não retrata realidade

São Paulo

O presidente do Grupo de Mídia da China, considerado o maior conglomerado de comunicação do mundo, estatal formada no ano passado a partir da rede CCTV, disse em São Paulo que vê hoje o quadro em Hong Kong como de terrorismo, não simples protestos.

Falando à Folha, com tradutor, Shen Haixiong criticou a cobertura no Ocidente de maneira geral, por não retratar o que diz ser a realidade do território chinês.

“A mídia no mundo ocidental, especialmente dos EUA, ela só pega um pedaço de um cenário, e isso é muito longe da verdade”, afirmou Shen, citando que “até seu presidente, Donald Trump, não acredita em alguns relatos da imprensa americana”.

Shen Haixiong, presidente do Grupo de Mídia da China
Shen Haixiong, presidente do Grupo de Mídia da China - Mikhail Metzel - 5.jun.19/Tass/Getty Images

“Nomeadamente, eu gostaria de mencionar o que acontece em Hong Kong, onde os casos já são de terroristas”, acrescentou. No fim de semana, um manifestante foi baleado por um policial e, por outro lado, um homem, ao discutir com um manifestante, teve seu corpo coberto por gasolina e queimado.

Dizendo-se orgulhoso de ser jornalista, ele que começou como repórter na agência Xinhua e depois trabalhou no jornal japonês Asahi Shimbun e na rede pública de TV da Coreia do Sul, afirmou que “alguns veículos da imprensa norte-americanos estão longe do profissionalismo, porque primeiramente têm que respeitar a verdade”.

À pergunta sobre censura em seu próprio país, ele insistiu que “os internautas chineses não questionam que não têm acesso a algum site, e sim se queixam que as reportagens que viram na internet, sobre a China, não são verdadeiras, que não é o que está acontecendo”.

O executivo veio ao Brasil para acompanhar o dirigente Xi Jinping, que estará nesta quarta (13) em Brasília para a cúpula dos Brics e para nova reunião com o presidente brasileiro, Jair Bolsonaro, que esteve na China no último mês.

Shen passou por São Paulo para assinar um acordo do GMC com a Rede Bandeirantes, voltado ao compartilhamento de conteúdo, inclusive produção conjunta de um programa diário.

Segundo ele, não há no momento o propósito de ir além da parceira ou de buscar novo negócio em mídia no país. “Por enquanto ainda não estamos dispostos a investir em veículo de imprensa no Brasil”, disse.

Mas lembrou que, há três semanas, ao receber em Pequim o ministro da Cidadania, Osmar Terra, ouviu dele a sugestão de que o Brasil tenha um canal na TV paga chinesa, para divulgação de “programas, telenovelas e filmes”, e a China tenha um no Brasil.

Questionado se o canal a trazer para o Brasil seria o CGTN, canal internacional de notícias do GMC, em inglês, respondeu que seria uma opção “muito boa” e, mais que isso, “factível”, mas não detalhou.

Sublinhou que chegou a vários consensos com Terra, inclusive de “intercâmbio de tecnologias”.

O contrato do GMC com a Bandeirantes é marcado pela entrada no ar, em diferentes canais da rede brasileira, de três programas —o diário Mundo China, com cinco a dez minutos noticiosos, com um apresentador da Band e outro da CCTV, os 24 episódios do documentário O Caminho da Nova China e a série Frases Clássicas Citadas pelo Presidente Xi Jinping.

O acordo e os programas representam, segundo Shen, “um novo ponto de partida” para os dois grupos. “Ainda vamos promover nossa cooperação em todas as raias, em todos os níveis”, acrescentou, sem detalhar outros planos.

Após apontar o que descreve como aprofundamento da “parceria estratégica” entre os dois países, na viagem de Bolsonaro a Pequim, três semanas atrás, ele afirmou, sobre GMC e Band: “Nossa parceria também está no momento mais oportuno”.

O executivo afirma que, de maneira geral, o objetivo do GMC “é construir uma instituição de comunicação de nível internacional”, com atenção para a adoção de novas tecnologias em vídeo, citando 8K, 5G e inteligência artificial, e a atuação em plataformas de mídia social.

Durante a assinatura, o presidente do Grupo Bandeirantes, João Carlos Saad, saudou a parceria dizendo ter ficado “muito impressionado”, em especial, com o programa Frases Clássicas Citadas pelo Presidente Xi Jinping. “É uma aula de filosofia, uma aula de democracia”, afirmou.

Também presente à assinatura, o governador de São Paulo, João Dória, declarou já ter lido dois livros de Xi Jinping e que volta no ano que vem à China, encabeçando duas comitivas, uma de governadores do Sul e Sudeste, outra de empresários paulistas.

Adiantou que “o primeiro investimento chinês em São Paulo será no setor metroviário”, onde deverá “ajudar no programa de desestatização” do governo estadual.

Para a edição em português, o programa Frases Clássicas conta com comentários do ex-ministro do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior, embaixador Sérgio Amaral, que disse que a parceria em televisão cobre uma demanda que ele sempre ouviu, de empresários brasileiros, de “maior conhecimento entre as culturas”.

A presença da China “é hoje uma realidade mundial”, não apenas como principal parceiro comercial do Brasil e de boa parte da América Latina. “Tem potencial para crescer bastante em áreas novas, inclusive investimentos”, acrescentou o diplomata.

Amaral acredita nem ser necessário usar a marca Iniciativa do Cinturão e Rota. “O nome é como os chineses chamam a cooperação na área de investimento. Não precisamos chamar assim. Em poucos anos, o investimento já se expandiu para US$ 70 bilhões de investimento no Brasil. E tende a crescer.”

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