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Para bilionários, Trump é uma vergonha, mas Warren é pior ainda

Pré-candidata democrata defende taxação de grandes fortunas

Edward Luce
Financial Times

Na semana passada estive numa conhecida conferência do setor financeiro na Flórida. Voltei de lá me sentindo altamente ambivalente quanto ao futuro do mundo.

A maioria das pessoas, incluindo Lloyd Blankfein, o ex-chefe do Goldman Sachs que entrevistei no palco, concordou que Donald Trump é um tumor maligno, um constrangimento, uma vergonha para o país e assim por diante.

No entanto, elas acrescentaram sem pestanejar que ele é melhor que as alternativas, especialmente Elizabeth Warren.

Elizabeth Warren, pré-candidata democrata, durante evento em Des Moines, Iowa - Scott Olson - 25.nov.2019/AFP

Perguntei a Blankfein, democrata vitalício cujo pai foi funcionário dos serviço postal, quem ele escolheria na privacidade da cabine eleitoral: Warren ou Trump?

Ele se recusou a dizer, mas acrescentou: “Pelo menos Trump tem sido positivo para a economia”.

Entre a turma de Wall Street ou da Bolsa de Mercadorias de Chicago, a conclusão final é que Trump é uma vergonha, mas Warren é extremista.

Joe Biden gera opiniões mais igualmente divididas –até que se mencionam sua idade e sua acuidade mental supostamente em declínio.

A maioria das pessoas descartou as chances de Michael Bloomberg conseguir comprar um lugar na disputa presidencial. Para elas, Bloomberg, 77, está fora de sintonia com o rumo da base liberal.

Blankfein mencionou a política de “parar e revistar” pessoas na rua que Bloomberg promoveu quando foi prefeito.

O pedido de desculpas atrasado que ele fez numa igreja afro-americana na semana passada provavelmente não foi o bastante.

E isso sem mencionar seu histórico de comentários humilhantes sobre mulheres. “Não esqueça que Nova York é o ponto zero da política liberal conscientizada”, disse Blankfein.

O que seria preciso para os bilionários da América se voltarem contra Trump? Na hipótese improvável de Bloomberg tornar-se o candidato presidencial democrata, talvez isso já seria o bastante.

Por enquanto, porém, os bilionários veem Trump como um refúgio onde eles podem se abrigar dos furacões populistas que fustigam suas fortunas.

Pouco antes da conferência, Warren lançou um vídeo de campanha em que ironizou bilionários que se opõem à taxação que ela propõe sobre as fortunas deles.

Warren destacou o administrador de hedge fund Leon Cooperman (fortuna líquida de US$ 3,2 bilhões), o investidor Peter Thiel (US$ 2,2 bilhões), Joe Rickets, fundador da TD Ameritrade (US$ 2,7 bilhões) e Blankfein (US$ 1,3 bilhão).

Blankfein postou uma resposta no Twitter: “Vilipendiar pessoas por serem membros de um grupo pode ser bom para a campanha dela, mas não para o país”, escreveu. “Talvez o tribalismo faça parte de seu DNA.”

Essa última frase foi uma alfinetada não muito sutil, aludindo ao modo como Warren exagerou sua ascendência indígena americana, algo que ainda pode voltar à tona futuramente e prejudicá-la.

Mas Blankfein falou a sério quando deixou entender que os bilionários formam uma minoria em risco.

Perguntei se ele não está caindo na armadilha de Warren quando se mostra tão sensível a críticas. A campanha de Warren está vendendo canecas com os dizeres “lágrimas de bilionário”.

A resposta espirituosa “ok, bilionário” já entrou para o léxico popular (uma variação do “ok, boomer” muito usado por millenials).

Clipes de Leon Cooperman na CNBC outro dia, quando ele chegou a quase chorar, serão veiculados em anúncios futuros de Warren (e vale a pena vê-los).

“Vocês não estão virando um bando de sensíveis demais?”, perguntei. Blankfein se desviou da pergunta.

Mas ficou claro que ele enxerga Warren como ameaça não apenas aos superricos, mas ao capitalismo à moda americana.

Como já escrevi antes, sou agnóstico quanto às virtudes do imposto sobre a riqueza. Me parece que isso geraria muitas bicadas para poucas penas, para aludir à frase célebre de Jean-Baptiste Colbert.

E acho preocupante o tom adotado por Warren, dando a entender que os ricos americanos não merecem seu sucesso.

Entendo que ela esteja reagindo contra a ideia de que eles devem suas fortunas unicamente ao talento.

Isso pode chegar perto da verdade em alguns casos, como o de Steve Jobs. Em outros, especialmente no setor financeiro, pode ser menos verdadeiro.

Seja como for, Warren poderia facilmente promover a mesma agenda de elevação de impostos sem vilipendiar toda uma categoria de pessoas. Isso me parece uma tática negativa.

Digo isso como alguém que está profundamente alarmado com a oligarquização da América.

Os ricos deveriam pagar impostos muito maiores. Mas compará-los a “barões ladrões” não deve ser a melhor maneira de conquistar adeptos. Rana, me corrija por favor se você acha que estou errado.
 
Rana Foroohar, colunista de negócios do Financial Times, responde:

"Ed, acho seu comentário iluminador e também profundamente deprimente. Em minha experiência, os bilionários (e já conheci vários) estão entre as pessoas que se ofendem mais facilmente no mundo.

Acho que isso ocorre porque eles vivem em um casulo, protegidos da realidade.

Quando todos os atritos –econômicos, políticos, sociais, práticos— podem ser eliminados com dinheiro, os músculos da empatia que na realidade sustentam um ego mais robusto acabam se atrofiando.

Concordo com você que o tom do discurso de Warren é errado. Sou altamente a favor de muitas políticas que ela propõe, mas meter o pau em bilionários não é o jeito de chegar lá.

Na realidade, acho que todos nós passamos tempo demais pensando e falando nos bilionários. Não são eles a questão em pauta. O que está em pauta aqui é salvar a República.

Depois das últimas duas semanas de depoimentos no impeachment, acho que qualquer pessoa que ainda queira votar no presidente não tem núcleo moral."

Tradução de Clara Allain

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