Pesquisa indica disputa apertada entre candidatos à Presidência do Uruguai

País fará segundo turno no domingo (24); ex-presidente José 'Pepe' Mujica fala em 'oposição construtiva'

Montevidéu

“Se tivermos de ir para a oposição, vamos", disse o ex-presidente uruguaio José “Pepe” Mujica, da coalizão governista de centro-esquerda Frente Ampla, depois da divulgação de nova pesquisa que confirma o favoritismo, embora apertado, da oposição na eleição do próximo domingo (24).

Os números, de uma das consultoras mais confiáveis do Uruguai, a Cifra, apontam uma diferença estreita entre o líder, o centro-direitista Luis Lacalle Pou (Partido Nacional), com 47% das intenções de voto, e o candidato do governo, o centro-esquerdista Daniel Martínez (Frente Ampla), que soma 42%. A margem de erro do levantamento é de dois pontos percentuais.

Mujica disse que poderá fazer parte de uma "oposição construtiva", mas insistiu que ainda crê numa virada. “Sou um lutador. Se não der certo desta vez, que fique claro que lutei.” 

Os candidatos Daniel Martínez (esq.) e Luis Lacalle Pou, durante debate na TV - Andres Cuenca Olaondo - 1.out.2019/Reuters

Uma pesquisa anterior, divulgada em 5 de novembro, mostrou os mesmos números: Lacalle Pou com 47% e Martínez com 42%. No entanto, ela havia sido feita por um instituto diferente, o Equipos.

No primeiro turno, Martínez teve 39% dos votos, e Lacalle Pou, 28%. 

Enquanto Martínez, um engenheiro de 62 anos, propõe a continuidade das políticas da Frente Ampla, que governa desde 2005 e busca o quarto mandato, Lacalle Pou, um advogado de 46, sugere mudanças em gastos públicos, comércio e política externa.

É sobre os indecisos que ambos os candidatos estão focando suas esperanças —eles somaram 6% na pesquisa mais recente.

Porém, como a Cifra indica, esse voto concentra-se mais na parte rural do que em áreas urbanas. Com isso, o partido Nacional leva vantagem, porque é no campo que costuma ser mais popular, enquanto o Frente Ampla tem suas bases eleitorais nas cidades.

Na quinta-feira (21), data-limite para a divulgação de pesquisas, os principais institutos lançarão novas sondagens, com a possibilidade de haver menos indefinidos.

Entre os seguidores de Lacalle Pou, o clima é de já ganhou. Assim se comportam seus apoiadores nos comícios, apresentando-o como o próximo presidente do Uruguai. O candidato, porém, pede cautela.

“Não podemos dizer que tudo está terminado. Sabemos que ganhar leva muito tempo, mas para perder basta um instante”, disse, em um ato em Soriano.

E acrescentou que gostaria de ver, em seu encerramento de campanha, bandeiras distintas entre o público. “Não quero só bandeiras do Uruguai e do meu partido, quero a dos colorados (Partido Colorado), as das organizações sociais e as de todos os uruguaios”.

Para o cientista político Antonio Cardarello, apesar de a vantagem de Lacalle Pou, neste momento, ser bastante clara, a aposta de Martínez de dialogar diretamente com eleitores colorados e do partido de direita Cabildo Aberto pode render resultados. 

“Por mais que ideologicamente esses partidos sejam diferentes da Frente Ampla, sempre houve votantes dessas agrupações que no fim preferiram votar na Frente Ampla."

Apesar do foco voltado a esses nichos de eleitores, Martínez tem tido um discurso democrático supra-resultado.

“Emociona-me que as pessoas participem, isso é o que vale mais do que tudo. Ocorra o que ocorra.”

Outro cientista político, Daniel Chasquetti, diz que o Uruguai é dos poucos países do mundo que demonstraram que tem a ganhar com a alternância. “Se Lacalle Pou vencer, não será por conta de uma vontade de castigar ou de se vingar da Frente Ampla. E tampouco o partido Nacional irá realizar uma política persecutória a seus antecessores. Isso não ocorre aqui”, afirma.

Já a candidata a vice-presidente de Daniel Martínez, Graciela Villar, diz que a pesquisa do instituto Cifra revela “uma grande incerteza”, e que a disputa agora entra em “sua etapa mais competitiva”. 

Ela reforçou que “não há uma transferência automática de votos”, referindo-se ao apoio dos dois candidatos que ficaram de fora da disputa, o colorado Ernesto Talvi, e o direitista Manini Ríos, que pediram a seus eleitores que entreguem seus votos a Lacalle Pou. “Não há evidência de que isso seja automático. Portanto ainda se pode conquistar seus eleitores.”

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