Piñera pede que Exército volte às ruas apesar de alegações de abuso

Projeto de presidente prevê que militares protejam infraestrutura para poder garantir serviços básicos

Santiago | AFP

O presidente do Chile, Sebastián Piñera, pediu nesta terça-feira (26) que os parlamentares permitam que as tropas voltem às ruas para defender a infraestrutura do país, apesar de grupos de direitos humanos terem relatado abusos graves do Exército ao longo de cinco semanas de protestos muitas vezes violentos.

As manifestações contínuas no país contra a desigualdade e a escassez de alguns serviços sociais já deixaram ao menos 26 mortos e milhares de feridos.

Também prejudicaram o sistema de transporte público da capital, Santiago —antes motivo de inveja na América Latina—, e causaram bilhões de dólares em perdas ao setor privado.

Piñera enviou um projeto de lei ao Congresso na manhã desta terça para permitir que os militares protejam linhas de transmissão de energia, usinas elétricas, aeroportos, hospitais e outros elementos da infraestrutura para poder garantir serviços básicos.

Membro das forças de segurança dispara spray de pimenta durante protesto em Valparaiso, no Chile - Rodrigo Garrido/Reuters

Ele disse que a medida "liberará a força policial para proteger a segurança de nossos cidadãos".

O governo já havia decretado estado de emergência logo após o começo dos protestos, em meados de outubro, possibilitando que o Exército fosse às ruas pela primeira vez desde o fim da ditadura de Augusto Pinochet, em 1990. A medida ficou em vigor por dez dias, e então foi suspensa.

O anúncio de Piñera veio pouco depois de o grupo de direitos humanos internacional Human Rights Watch dizer em um relatório que a polícia espancou manifestantes brutalmente, alvejou-os diretamente com cilindros de gás lacrimogêneo e atropelou alguns com veículos oficiais ou motos.

"Há centenas de relatos preocupantes de força excessiva nas ruas e de abuso de detidos", disse José Miguel Vivanco, diretor da divisão das Américas da Human Rights Watch, depois de se encontrar com Piñera nesta terça-feira.

As conclusões do grupo se alinham a um relatório da semana passada da Anistia Internacional, que destacou a gravidade das violações de direitos humanos contra os ativistas.

Mais de 200 chilenos sofreram ferimentos sérios nos olhos em confrontos nos quais a polícia usou balas de borracha.

Tanto a Human Rights Watch quanto a Anistia Internacional recomendaram uma reformulação imediata dos protocolos policiais e medidas de responsabilização para tratar das alegações de abuso.

Autoridades policiais e militares disseram que os excessos estão sendo investigados por tribunais civis, e os promotores informaram que estudam 2.670 denúncias de abuso por parte das forças de segurança (2.052 delas atribuídas à polícia). 

Ainda nesta terça-feira, bloqueios nas ruas de Santiago dificultaram o trânsito, e manifestantes montaram barricadas e as incendiaram em ruas e rodovias ao redor da cidade.

No centro da capital, foram registrados confrontos entre manifestantes mascarados e policiais. Ao anoitecer, surgiram focos de incêndio e saques atribuídos a grupos de vândalos.

Desde o início dos protestos em 18 de outubro, shoppings, locais muito frequentados pelos chilenos, fecham mais cedo devido a problemas de transporte público.

Em Santiago, onde vivem cerca de 7 milhões de habitantes, o metrô não voltou a operar plenamente ainda —diversas estações foram destruídas por manifestantes.

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