Descrição de chapéu The Washington Post

Por desespero, refugiados no México enviam filhos sozinhos para a fronteira

Pais apelam para a tática na tentativa de tirar crianças de acampamento improvisado

Kevin Sieff
Matamoros (México) | The Washington Post

No meio do maior campo de refugiados da fronteira do México com os EUA —tão perto do Texas que os migrantes podem ver uma bandeira americana tremulando do outro lado do rio Grande —os filhos de Marili adoeceram.

Josue tinha cinco anos. Madeline, três. A pequena família estava reunida em uma barraca de náilon com dois cobertores na última semana, quando a temperatura desabou para quase 3ºC.

As crianças começaram a tossir, disse Marili, e os dedos das mãos e dos pés ficaram vermelhos. Casos de queimaduras provocadas pelo frio foram identificados pelo médico do acampamento. 

Como a maioria dos cerca de 1.600 refugiados que solicitaram asilo no acampamento informal, Marili e seus filhos haviam atravessado a fronteira para os Estados Unidos no verão do hemisfério Norte, apenas para serem enviados de volta ao México para aguardar o julgamento de seus casos de asilo —parte de uma política americana implantada há um ano, chamada Protocolos de Proteção a Migrantes.

Nas últimas semanas, dezenas de pais viram seus filhos, dormindo ao ar livre sob o frio, ficarem doentes ou abatidos.

Imigrantes em acampamento em Matamoros, no México, ao fim do Gateway International Bridge
Imigrantes em acampamento em Matamoros, no México, ao fim do Gateway International Bridge - Henry Romero - 14.set.19/Reuters

Muitos decidiram ajudá-los da única maneira que sabiam —enviá-los através da fronteira sozinhos. Quando Josue e Madeline ficaram mais doentes, foi a vez de Marili tomar uma decisão.

Esses casos ilustram o custo humano da política do governo Trump e sugerem que os Estados Unidos, o México e as Nações Unidas não estavam preparados para lidar com muitas das consequências inesperadas.

Marili, fugindo da violência das gangues em Honduras, sabia que crianças desacompanhadas eram acolhidas nos Estados Unidos sem ter que enfrentar a burocracia dos Protocolos de Proteção a Migrantes e a espera de meses.

A mãe de 29 anos —que, como outras pessoas, pediu para não ser identificada pelo sobrenome, por temer que isso pudesse afetar seu pedido de asilo— afirmava acreditar que voltar para casa seria suicídio.

Então, ela agasalhou seus filhos com todas as roupas de inverno que lhe foram doadas e rabiscou uma carta para as autoridades de imigração dos EUA em um pedaço de papel rasgado.

"Meus filhos estão muito doentes e expostos a muitos riscos no México", escreveu ela. "Não tenho outra maneira de colocá-los em segurança."

Ela espremeu a carta na mão de Josue, disse ela, e indicou para as crianças três agentes alfandegários e de proteção de fronteiras dos EUA no meio da Gateway International Bridge, a ponte que se estende sobre o rio Grande, ligando Matamoros a Brownsville, no Texas.

"Josue me disse: 'Por favor, deixe-nos ficar'", disse Marili, chorando com a lembrança. "Mas como mãe, eu sabia que essa era a melhor decisão para eles.”

Então ela correu para a parte inferior da ponte e observou através da cerca os filhos entrarem, chorando e imaginando quando os veria novamente, na esperança de que eles encontrem seu marido.

Ele havia entrado nos Estados Unidos e solicitado asilo antes da implementação dos Protocolos de Proteção a Migrantes e recebeu autorização para ficar.

Nas últimas três semanas, de acordo com migrantes e trabalhadores humanitários, pelo menos 50 crianças fizeram a mesma travessia.

O Washington Post entrevistou os pais de 20 delas. Na terça-feira de manhã, mais três crianças foram enviadas através da fronteira. Na quarta-feira, outras três.

Em cada barraca, as famílias agora falam abertamente sobre se e quando enviarão seus filhos.

Mais de 47 mil migrantes foram enviados de volta ao México desde o início dos Protocolos de Proteção a Migrantes, em janeiro.

Até setembro, 9.974 casos foram concluídos; apenas 11 migrantes, ou 0,1%, receberam asilo, de acordo com o Transactional Records Access Clearinghouse, ou Trac, um centro de pesquisa da Universidade de Syracuse.

"Está ficando claro para nós que tudo isso é mentira", disse Reyna, 38, que enviou sua filha de 15 anos, Yoisie, pela fronteira na semana passada. "Eles nos dizem para esperar, esperar e esperar, mas ninguém aqui recebe asilo.”

O Departamento de Segurança Interna dos Estados Unidos não retornou as ligações para comentários.

Os refugiados passaram a dormir no campo arborizado na base da ponte internacional em agosto. Eles não recebem assistência dos Estados Unidos ou das Nações Unidas.

Em vez disso, eles contam com barracas, roupas e alimentos doados por um grupo de aposentados americanos e atendimento médico de um grupo sem fins lucrativos cujo único médico atende sob uma lona azul.

Autoridades da ONU dizem ter sido informadas há meses que os migrantes seriam levados pelo governo mexicano para um local com melhores condições, mas isso não aconteceu.

"Ficamos sabendo da situação, mas não tínhamos capacidade suficiente para ajudar", disse Dora Giusti, chefe de proteção infantil da Unicef no México. "E o governo mexicano continuou dizendo que [os migrantes] seriam retirados do estado, então ficamos esperando para ver se poderíamos ajudar lá."

A agência de refugiados da ONU diz que as cidades fronteiriças do estado de Tamaulipas, onde está localizada Matamoros, "estão entre as mais precárias e perigosas do país, o que limita nossas ações na área".

O governo municipal abriu um abrigo em uma quadra de basquete coberta no mês passado. Com capacidade para 300 pessoas, ele já está lotado.

O abrigo também fica a quilômetros da ponte, dificultando aos migrantes chegar à fronteira nas datas dos julgamentos ou se encontrar com advogados voluntários.

Todos os dias, o governo dos EUA envia dezenas de migrantes para Matamoros no âmbito dos Protocolos de Proteção a Migrantes. Eles são levados diretamente para o acampamento e costumam dormir do lado de fora até encontrar uma barraca.

O acampamento é formado por centenas de barracas agrupadas em uma estreita calçada e um trecho de matagal ao longo do rio Grande.

Existem poucos chuveiros, muitas pessoas tomam banho e lavam suas roupas no rio. Uma vez, uma vaca morta passou flutuando e ficou presa ao lado do acampamento. Outra vez, um cadáver de um homem sem cabeça foi arrastado pela água até a margem.

Uma frente fria se instalou por três dias na semana passada. Imediatamente, as crianças começaram a ficar doentes.

Gabrielle, 15 —de San Pedro Sula, em Honduras—, começou a tossir. Sarai, 12 —de Santa Rosa de Copan, também em Honduras—, estava vomitando. Valéria, 5 —da capital hondurenha, Tegucigalpa—, estava com febre e abatida.

A Global Response Management, uma organização sem fins lucrativos da Flórida que administra a pequena clínica médica sob a lona azul, viu um aumento no número de pacientes, a maioria crianças.

Os casos mais comuns foram doenças respiratórias, disse Megan Algeo, a médica de plantão no momento.

Em um caso, Algeo disse, ela convenceu os agentes de imigração dos EUA a aceitar uma criança para atendimento emergencial.

Pais em diferentes partes do acampamento decidiram que não era justo manter seus filhos aqui. Alguns se juntaram a um grupo no Facebook chamado Mães em Busca de Asilo para discutir suas opções e o que aconteceria se seus filhos cruzassem a fronteira sozinhos.

"Fiquei pensando, minha filha vai morrer aqui", disse Blanca, mãe de Valéria.

Todos eles tinham parentes nos Estados Unidos. A ideia deles era enviar os filhos para morar com cônjuges, irmãos, primos enquanto esperavam em Matamoros para concluir o processo de asilo.

Eles estavam preocupados com outra frente fria ou outra enchente (houve uma em setembro) ou sequestros patrocinados por cartéis.

Gabrielle atravessou a ponte sozinha, carregando uma sacola plástica com seus documentos de asilo.

Sarai foi com um amigo. Valéria e sua irmã, Anahi, 7, cruzaram a fronteira de mãos dadas.

Todos agora estão em abrigos em diferentes partes dos Estados Unidos. Segundo a política dos EUA, crianças que entram no país desacompanhadas são levadas sob custódia do governo até que as autoridades possam encontrar seus parentes para quem poderão ser liberadas.

Glady Cañas, que dirige o programa Helping Them Triumph (ajudando-os a vencer), uma das poucas organizações humanitárias no acampamento, tenta convencer os pais a não mandarem seus filhos sozinhos.

"Por que você mandou sua filha?", perguntou ela a Israel, o pai de Gabrielle. Israel, 40, olhou para o chão. Eles estavam em pé na frente de sua barraca azul.

"Ela estava doente", disse ele. "Estávamos desesperados. Uma criança não pode esperar desta forma, aqui, por um ano." Cañas o abraçou.

"Eu pessoalmente não concordo com o que eles estão fazendo", disse ela depois. "Uma criança precisa dos pais. Mas quando você olha a situação aqui, entende o desespero.”

Para muitas famílias no acampamento, as crianças —e as ameaças contra elas— foram a razão pela qual fugiram de seus países em primeiro lugar.

Victor, 28, deixou El Salvador com sua filha Arleth, agora com 10 anos, depois que ela foi sexualmente agredida por um homem afiliado a uma gangue local. Victor deu queixa.

Ele carrega os documentos judiciais e registros hospitalares que comprovam o caso com detalhes alarmantes. O homem foi condenado a 12 anos de prisão por "agressão sexual de menor", diz uma transcrição do tribunal.

Assim que ele foi condenado, disse Victor, membros de gangues vieram atrás da família. Em agosto, eles fugiram.

Victor e Arleth foram enviados de volta a Matamoros em 28 de agosto, antes que as barracas estivessem disponíveis. Eles passaram 15 dias dormindo ao relento.

Por fim, ele encontrou um emprego em um restaurante chinês, recebendo US$ 7 (R$ 29) por dia. Ele economizou e comprou uma barraca.

Mas depois de dois meses, Arleth ficou doente, vomitando o tempo todo. A barraca deles havia sido inundada duas vezes na chuva.

Desde o abuso, Arleth tem dificuldade para manter a calma em meio a grandes grupos de pessoas e odiava atravessar o acampamento para usar um dos banheiros químicos.

Victor a levou várias vezes à enfermeira dos Médicos Sem Fronteiras, que vinha ao acampamento duas vezes por semana. Mas ela nunca melhorou.

No final de setembro, no aniversário de 10 anos de Arleth, Victor comprou um bolo e cinco velas para ela. Ele pediu a alguém em uma barraca vizinha para tirar uma foto deles sorrindo.

Como sua saúde não melhorou, Victor perguntou o que ela achava de atravessar a fronteira sozinha.

"Ela me disse: 'Pai, eu só quero sair deste lugar. Eu quero estar nos Estados Unidos'", disse ele.

Os advogados que trabalham no acampamento tomaram conhecimento recentemente dos muitos pais que optam por mandar seus filhos sozinhos.

"Esses pais foram forçados a considerar uma escolha impensável —salvar seus filhos enviando-os para os EUA sozinhos ou mantê-los no norte do México, onde serão expostos a doenças graves, sequestros, torturas e estupros", disse Rochelle Garza da União Americana de Liberdades Civis do Texas.

Na última semana de outubro, Victor caminhou com Arleth até a beira da ponte internacional e a observou se aproximar dos agentes de imigração dos EUA.

"Nunca nos separamos", disse ele depois, chorando. "Durante toda a sua vida, sempre estivemos juntos.”

"As pessoas podem ouvir sobre o que eu fiz e achar seu sou um pai ruim. Mas é o contrário. Fiz isso pela minha filha porque não tínhamos outra opção para salvá-la."

Durante uma semana ele não teve notícias dela. Então, ela ligou para a mãe dele em El Salvador. Ela estava em um abrigo do governo em algum lugar do Texas. Os detalhes eram vagos.

A mãe de Victor gravou uma mensagem da filha para ele.

"Não se preocupe, pai. Eu estou bem", disse ela. "Espero que em breve você esteja comigo."
Ele tocou a mensagem repetidamente e chorou.

"A verdade é que não tenho muita confiança de que meu caso vai dar certo", disse ele. "Estou lutando por ela. Mas não sei."

Tradução de AGFox

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