Descrição de chapéu Governo Trump

Primeira sessão pública do impeachment marca estratégia democrata em narrativa contra Trump

Em depoimento, diplomata diz que Trump se preocupa mais com investigação contra Biden do que com Ucrânia

Washington

Matthew Underwood chegou ao prédio de comissões do Congresso americano pouco depois da meia-noite desta quarta-feira (13).

O escritor de 30 anos queria garantir um bom lugar na primeira audiência pública do processo de impeachment contra Donald Trump, marcada para dali a dez horas. 

Deparou-se com um corredor vazio, então voltou para a casa e retornou às 6h30, quando se juntou aos primeiros da fila de cerca de cem pessoas que tentavam acompanhar de perto o evento histórico para a política dos EUA.

Embaixador Bill Taylor, encarregado de negócios na embaixada americana na Ucrânia, na sala de comitê do Congresso, em Washington
Embaixador Bill Taylor, encarregado de negócios na embaixada americana na Ucrânia, na sala de comitê do Congresso, em Washington - Erin Scott/Reuters

"É importante ser público e televisionado, porque ouvimos vários parlamentares dizerem que não estão cientes dos fatos, já que não têm tempo de ler as transcrições dos depoimentos que foram dados a portas fechadas", afirma Underwood. 

"Ter uma sessão aberta tira da frente essa desculpa e mostra se há mesmo provas concretas."

Sob os olhos atentos do escritor, os diplomatas William Taylor e George Kent falaram à Comissão de Inteligência da Câmara como testemunhas-chave para os democratas.

Nesta nova etapa do processo, a oposição quer angariar apoio à narrativa de que Trump atuou de forma irregular ao pressionar o presidente da Ucrânia, Volodimir Zelenski, a investigar Joe Biden, adversário político do republicano, e o filho dele, Hunter, que trabalhava em uma empresa de gás daquele país.

E os diplomatas não decepcionaram. Em uma sala cheia de jornalistas, parlamentares e curiosos, Taylor, embaixador dos EUA na Ucrânia, confirmou o que já havia dito em depoimento privado no Congresso no fim de outubro: Trump condicionava ajuda militar ao país europeu a apurações contra Biden.

Também afirmou que o presidente se preocupava mais com essas investigações do que com a Ucrânia e adicionou à trama detalhes novos, que diz ter tido conhecimento somente na semana passada.

Em sua fala de abertura, Taylor contou que um integrante de sua equipe ouviu um telefonema entre Trump e Gordon Sondland, embaixador dos EUA para a União Europeia, no qual o presidente perguntava sobre o status "das investigações" logo depois de Sondland ter se encontrado com um alto oficial ucraniano, em Kiev.

Segundo ele, o embaixador na UE disse que Trump "se importava mais" com as apurações do que com a Ucrânia.

A conversa entre Trump e seu auxiliar, diz Taylor, aconteceu em 26 de julho, um dia após o americano pedir a Zelenski, também por telefone, para investigar os Bidens. 

À época, o governo dos EUA retinha uma ajuda militar à Ucrânia que, segundo Sondland, só seria liberada caso o país europeu fizesse uma declaração pública sobre as investigações contra o democrata e seu filho.

Taylor confirmou que o foco de Trump era Biden e ponderou acreditar ser "loucura" reter uma ajuda militar "por causa de campanha política."

Conforme interrogavam os diplomatas, os deputados exibiam em um telão trechos da transcrição da ligação entre Trump e o presidente ucraniano.

Nela, Zelenski devolvia os comentários do líder americano dizendo que a Ucrânia estava trabalhando nas investigações e agradecia por um suposto convite para ir a Washington.

Questionados se uma coisa estava condicionada à outra, Taylor e Kent responderam "sim".

A contrapartida é um dos principais pilares da oposição para mostrar o desvio de conduta e abuso de poder de Trump em suas relações com a Ucrânia.

Os democratas tentam aprovar o processo na Câmara, de maioria oposicionista. Depois disso, o impeachment ainda precisa passar pelo Senado, de maioria republicana.

A oposição sabe portanto que é preciso convencer independentes e possíveis dissidentes republicanos a abandonar o presidente caso haja mais pressão popular, por exemplo.

Como é habitual, Trump estava ativo em seu Twitter desde cedo. Ele nega qualquer irregularidade no imbróglio com a Ucrânia e diz que os democratas, mais uma vez, tentam fazer uma "caça às bruxas" contra seu governo para desgastar sua imagem e tentar impedir sua reeleição em 2020. 

Mais tarde, em entrevista coletiva na Casa Branca, iniciada somente após o fim da audiência no Congresso, Trump disse que não tem conhecimento dos fatos expostos pelas testemunhas nesta quarta, que não se lembra da conversa com Sondland e que não houve "quid pro quo" —troca de favores— no episódio da Ucrânia.

"Não me lembro de nada. Ele só falou comigo rapidamente, não houve quid pro quo nessas circunstâncias. Não tem quid pro quo e ponto. É simples."

O presidente disse que assistiu "apenas por um minuto" à audiência, porque estava recebendo o presidente da Turquia, Recep Tayyip Erdogan, compromisso, segundo ele, "muito mais importante", e chegou a pedir que somente "repórteres-amigos da Turquia" fossem escolhidos para fazer perguntas.

Essa é a quarta vez que os EUA discutem um processo de impeachment no Congresso —a terceira delas televisionada. 

Os bares e restaurantes em Washington, inclusive, abriram mais cedo nesta terça para que os interessados pudessem assistir à sessão enquanto experimentavam coquetéis temáticos.

Como mostrou a Folha, estabelecimentos da capital americana aproveitaram o clima de polarização do país para abrirem suas portas e menus a eventos bem-humorados, relacionados ao processo contra Trump.

Ainda esta semana haverá outra sessão aberta, com a ex-embaixadora dos EUA na Ucrânia Marie Yovanovitch.

Na próxima semana, seguem os depoimentos com o testemunho de Jennifer Williams, assessora do vice-presidente Mike Pence, entre outros.

Os democratas dizem que querem votar o impeachment na Câmara até o fim deste ano.

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