Descrição de chapéu The Washington Post

Putin troca peito nu por fotos com líderes mundiais em calendário 2020

Imagens do presidente russo praticando esportes perdem força em favor de registros que valorizem ações de política externa

Isabelle Khurshudyan
The Washington Post

Acabaram-se as fotos do presidente Vladimir Putin de peito nu.

Agora o líder russo é retratado de terno, mostrando o polegar erguido para o presidente americano, Donald Trump, e para a chanceler alemã, Angela Merkel, em fevereiro. 

Ele leva o presidente egípcio, Abdel Fatah al-Sissi, em sua limusine no mês de outubro e depois sorri ao lado do príncipe herdeiro saudita, Mohammed bin Salman, em novembro.

O calendário de Putin, aprovado pelo Kremlin, é um artigo de consumo popular, e na versão 2020 o ar de estadista internacional do presidente marca um distanciamento dos anos anteriores.

 

Para o calendário de 2019, Putin foi fotografado jogando hóquei, pescando sem camisa na Sibéria e acariciando animais. A intenção era que ele se apresentasse como um homem saudável, apreciador de espaços naturais, forte, mas amistoso.

Os calendários são uma pequena parte de uma campanha mais ampla de criação de imagem patrocinada pelo Estado russo, e a mais recente apresenta o presidente Putin não apenas como o líder dos russos, mas um gerador de políticas para o mundo, com uma política externa cada vez mais agressiva.

"Acho que esse tem sido quase um tema recorrente na narrativa russa —que a Rússia é uma grande potência, um dos centros globais de poder", disse Eugene Rumer, diretor do programa Rússia e Eurásia na Fundação Carnegie.

Putin é mostrado sem terno e na natureza em apenas um mês de 2020, agosto, quando posa examinando uma pequena planta na floresta.

Fotos de Putin ao lado do presidente francês, Emmanuel Macron, de Trump e Merkel, que acabaram de fazer parceria com o russo em um lucrativo acordo comercial com o gasoduto Nord Stream 2, adornam os meses de fevereiro e setembro.

Novembro exibe o príncipe saudita, que visitou a Rússia quatro vezes desde junho de 2015, antes de receber Putin em Riade no mês passado. 

A Rússia pressionou a Arábia Saudita para comprar seu sistema de defesa antimísseis S-400, e os dois países coordenam suas atividades no mercado mundial de petróleo. 

Enquanto isso, o Egito assinou um acordo de US$ 2 bilhões com a Rússia no início deste ano para comprar mais de 20 caças Su-35, um acordo que os Estados Unidos tentam impedir.

Putin ampliou a influência da Rússia no Oriente Médio no mês passado, ao mediar a ofensiva militar da Turquia no norte da Síria, alcançando um acordo com o presidente turco, Recep Tayyip Erdogan, para um cessar-fogo completo.

O presidente russo, Vladimir Putin, e a chanceler alemã, Angela Merkel, durante encontro do G20 em Hamburgo
O presidente russo, Vladimir Putin, e a chanceler alemã, Angela Merkel, durante encontro do G20 em Hamburgo - John Macdougall - 7.jul.17/AFP

Turquia e Rússia agora controlam em conjunto uma larga faixa de território ao sul da fronteira turca, antes ocupada por combatentes curdos sírios aliados aos Estados Unidos. 

O mais importante para Putin foi que isso fortaleceu o líder sírio, Bashar al-Assad, um importante aliado, permitindo-lhe recuperar o controle de mais território sírio. (Erdogan e Assad, entretanto, não figuram nos calendários Putin 2020.)

Existem seis calendários de parede de Putin aprovados pelo Kremlin, além de uma versão para mesa, com pequenas variações. Um deles é dedicado apenas a fotos de Putin com animais. 

A segunda e terceira edições incluem fotos do presidente com o primeiro-ministro japonês, Shinzo Abe.

A Rússia "conseguiu se inserir em várias situações importantes para outras grandes potências, e elas não têm escolha a não ser conversar com a Rússia", disse Rumer. "O Oriente Médio é um lugar onde a Rússia se tornou um ator importante."

Um dia depois de seu acordo com a Turquia, Putin sediou a primeira cúpula Rússia-África, um evento marcante de dois dias, com a presença de líderes de 43 dos 54 países africanos. 

Acredita-se que mercenários ligados ao Kremlin estejam lutando na guerra civil da Líbia e trabalhando em nome do comandante renegado líbio Khalifa Hifter, pois Moscou tenta estender sua influência a Trípoli.

"Eles enviam uma mensagem muito clara a alguns governos autoritários de que estamos dispostos a olhar para o outro lado e não nos incomodamos com suas transgressões, enquanto os Estados Unidos e a Europa tendem a criticá-los por seu deficit de democracia", disse Rumer. 

"Os russos não parecem se importunar com isso."

Enfatizar a personalidade internacional de Putin é uma aposta segura para o Kremlin.

As iniciativas de política externa do presidente são amplamente populares entre os russos --apesar de ele ter perdido terreno em seu país atormentado pela desigualdade de renda e uma economia que sofreu sanções ocidentais.

Mas, apropriadamente, os calendários parecem ser ainda mais populares no exterior. A agência de mídia japonesa SoraNews24 informou em dezembro passado que os calendários Putin de 2019 estavam inicialmente superando em vendas os de celebridades japonesas nas lojas locais.

Tradução de Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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