Descrição de chapéu The New York Times

Soldados do Taleban são prisioneiros ou desertores?

Em lugares remotos do Afeganistão, trocar de lado entre Taleban e forças de segurança é frequente

David Zucchino
Faizabad (Afeganistão) | The New York Times

Eles andavam de um lado a outro dentro de um pátio vigiado por guardas, evitando pisar sobre suas aparas de barba e unhas espalhadas pelo chão. Eram 98 combatentes do Taleban ao todo.

O mais jovem tinha 16 anos, e o mais velho era um veterano de 65, com barba branca.

Todos haviam deposto suas armas e jurado lealdade ao governo afegão. Mas as razões que os motivaram dependem de quem está contando a história –e lançam luz sobre um pouco da complexidade de uma guerra em que as trocas de lado são comuns.

soldados escoltam presos
Oficiais afegãos fazem escolta de militantes do Taleban e do Estado Islâmico, em outubro - AFP

As Forças Armadas afegãs dizem que esses combatentes abandonaram o Taleban para salvar suas vidas quando as forças afegãs retomaram três distritos antes controlados pela organização em batalhas ferrenhas travadas em setembro na província de Badakhshan, no nordeste do país.

O diretor provincial da agência de inteligência nacional disse aos combatentes que eles poderiam voltar livremente à vida civil se renunciassem ao Taleban.

Mas ali, no pátio do complexo vigiado, alguns dos homens disseram que já estavam planejando fazer isso antes de serem detidos.

Alguns contaram que tinham conspirado com amigos e familiares que estão do lado do governo para abandonar o Taleban, ainda enquanto as batalhas pelo controle dos distritos estavam em curso.

Outros disseram que não tiveram outra escolha senão se render sob a mira de armas e depois se sujeitar a ter seus cabelos e barbas longas, o estilo típico do Taleban, aparados por um barbeiro.

Mas eles não estavam falando livremente. Eles relataram suas histórias a jornalistas do New York Times na presença de um nervoso oficial do Diretório Nacional de Segurança que os interrompeu várias vezes para corrigir ou para repreendê-los por falarem com franqueza excessiva.

O que se viu no pátio teve toda a aparência de uma performance ensaiada, com os combatentes concordando educadamente com o oficial de inteligência.

Mas, sempre que ele se afastava, os homens expressavam opiniões mais francas.

Especialmente em lugares remotos como Badakhshan, onde o governo central em Cabul não passa de uma ideia distante, trocar de lado entre o Taleban, outros grupos insurgentes e as forças de segurança é uma ocorrência frequente.

Rivalidades locais antigas se opõem a novas alianças. A presença de minas de ouro e lápis-lazúli, sem falar no tráfico de drogas, torna a situação ainda mais complexa.

Vários dos homens contaram que ingressaram no Taleban a contragosto apenas depois de seus distritos terem passado para o controle dos militantes até quatro anos atrás.

Todos estavam unidos no repúdio aos jihadistas estrangeiros –do Paquistão, da China, Tadjiquistão e Turcomenistão— que requisitaram suas casas e exigiram ser alimentados.

O general Mohammad Hanif Nuristani, comandante de inteligência do governo em Badakhshan, disse que havia pelo menos 400 combatentes estrangeiros na província que ingressaram no Taleban, na Al Qaeda ou no Estado Islâmico.

“Eles não falam nossa língua, mas dividíamos nossa comida com eles”, disse o sultão Mohammad, 46, que teria comandado 15 combatentes do Taleban. “Não tivemos escolha. Para proteger nossas famílias, demos apoio a eles.”

Dizendo que antes de o Taleban tomar conta de sua região ele era professor escolar e apoiava o governo, Mohammed afirmou que manteve contato telefônico com líderes governamentais locais antes e durante as batalhas de setembro.

Perguntado se ele e seus homens se renderam ou foram capturados, ele respondeu: “Não fomos capturados. Apoiamos o governo, inshallah.”

Nizamuddin, 19, que usa apenas um nome, disse que entrou para o Taleban neste ano por vontade própria, porque estava interessado no que chamou de “a ideologia” da organização.

Mas quando os militares afegãos atacaram, seu irmão mais velho, oficial de inteligência do governo, lhe telefonou e o persuadiu a desertar. ​

Nizamuddin disse que trocou de lado devido aos jihadistas estrangeiros, cuja presença atrairia ataques aéreos americanos. “Não os queríamos no nosso país, mas não tivemos escolha”, explicou.

O oficial de inteligência, que usava terno azul brilhante e se negou a informar seu nome, disse que o governo providenciou alimentação, chuveiros e alojamentos para os combatentes. A pedido deles, disse o oficial, um barbeiro foi chamado para aparar seus cabelos longos e barbas desgrenhadas.

“Queremos ficar com a aparência de pessoas do lado do governo”, explicou um combatente. Seus companheiros gargalharam.

O oficial de inteligência disse que os combatentes, que puderam conservar seus telefones celulares para poderem falar com seus familiares, seriam autorizados a voltar para casa em breve.

Ele disse que os homens estavam livres para deixar o complexo, mas o local estava cercado por soldados armados da agência de inteligência, que bloqueavam a entrada.

Os combatentes foram levados recentemente para assistir a uma cerimônia em Faizabad, a capital provincial, com o assessor de segurança nacional Hamdullah Mohib.

Em um post no Twitter, Mohib disse que os homens renunciaram à violência. Ele os elogiou por terem “optado pelo caminho certo” e “endossado” a legitimidade do governo.

Abdullah Naji Nazari, um membro do conselho provincial, disse que os combatentes “não gostam mais do Taleban” e agora confiam nas forças do governo para ajudá-los a garantir a segurança em seus povoados.

Nuristani disse que os combatentes forneceram informações valiosas. “Talvez os mandemos de volta para serem nossos espiões”, disse.

Tradução de Clara Allain 

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