Descrição de chapéu The Washington Post

Turistas tiram selfies em Veneza inundada, entre moradores às lágrimas

Maré de mais de dois metros de altura subiu do mar Adriático e cobriu 85% da cidade

Veneza | Washington Post

Mesmo pelos padrões de normalidade de uma cidade construída numa lagoa rasa, a água estava em todo lugar onde não deveria na quinta-feira (14) em Veneza.

Quase na altura do joelho, as águas de enchente se espalhavam pela praça principal da cidade, convertendo-a num imenso lago cheio de gaivotas.

Mesmo após um dia passado bombeando água para fora, ainda restavam alguns centímetros de água na cripta da basílica milenar ao lado da praça.

Espalhada pelas partes mais movimentadas da cidade, a água cobria o piso de cafés e lojas de cristais de Murano e penetrava nos saguões de hotéis, deixando um cheiro de esgoto no ar.

À primeira vista, Veneza é capaz de recuperar-se rapidamente de enchentes desastrosas. Os turistas não chegaram a abandonar a cidade nesta semana; uma turista posou para fotos com lama manchando seu vestido de noiva.

Mas os moradores de Veneza dizem que os custos das inundações repetidas estão se acumulando.

São medidos não apenas nos prejuízos de empresas e danos causados a preciosidades artísticas e arquitetônicas, mas também e sobretudo na impressão crescente de que a vida em uma das cidades mais improváveis e fascinantes do mundo está se tornando inviável.

“Nossa reação é chorar”, disse Flavia Feletti, 77, que vive em Veneza há seis décadas. “Acho que não há solução, infelizmente. Quando saí no dia após a enchente, dei de cara com uma espécie de funeral na cidade.”

Veneza prosperou e cresceu desde o século 5, amansando as águas que a cercam.

Nas últimas décadas, apesar de a terra estar afundando ao mesmo tempo em que o nível do mar se eleva, muitos venezianos achavam que a cidade encontraria uma maneira de evoluir e seguir adiante.

Mas a sequência de enchentes está pondo essa confiança à prova, e um grande projeto de engenharia civil para proteger a cidade ainda está inacabado.

Escândalos de corrupção provocaram atrasos nas obras, e é possível que o projeto já esteja obsoleto.

Veneza corre perigo –não apenas como destino turístico, mas como o local onde vivem seus 50 mil habitantes, que conhecem as águas tão bem que conseguem descrever em detalhes como elas estão mudando e tornando-se mais ameaçadoras.

Nesta semana, em um evento conhecido como “acqua alta”, uma maré de mais de dois metros de altura subiu do mar Adriático e em pouco tempo cobriu 85% da cidade.

A inundação foi a pior dos últimos 50 anos. Mas inundações semelhantes, mesmo que menos drásticas, estão se tornando comuns. Alguns especialistas avisam que em menos de um século Veneza pode ser submersa.

“É uma cidade plena de história”, disse Vladimiro Cavagnis, que faz parte da quarta geração de uma família de gondoleiros venezianos que transportam turistas nas embarcações que são a marca registrada da cidade.

“Uma história que pouco a pouco vai acabar, como a de Atlântida. As pessoas estão arrasadas, angustiadas, tristes. Elas veem uma cidade que está desaparecendo.”

Estar em Veneza nesta semana, pelo menos em algumas das áreas mais frequentadas por turistas, foi assistir à vida diária seguir adiante mesmo quando a natureza a dificulta sobremaneira.

Empreendedores vendiam botas de chuva baratas por 10 euros, e a prefeitura construiu passarelas elevadas pelas quais os visitantes podiam atravessar áreas alagadas, em filas estreitas.

Policiais repreendiam pessoas que paravam sobre as passarelas para fazer selfies na área inundada.

Em outras partes da cidade, porém, os venezianos estavam ocupados tentando fazer sua cidade voltar ao que era alguns dias antes.

Funcionários tiravam a água de lojas com rodos e faziam um inventário dos prejuízos. Na basílica de São Marcos, fechada aos visitantes devido à enchente, trabalhadores inspecionavam o piso antigo e ornamentado, encontrando pedaços de mármore danificados quando a água do mar recuou.

“O que eu faço com este pedaço?”, perguntou um operário, mostrando um triângulo de mármore vermelho escuro ao diretor de restauração, Mario Piana.

“Coloque ali ao lado do altar”, disse Piana. Uma dúzia de outros pedaços já estavam empilhados ali.

Piana disse que no auge da enchente, na noite de terça-feira (12), parte da basílica ficou debaixo de 30 centímetros de água. Os dias seguintes foram “um caos”.

Ele descreveu a basílica como uma preciosidade frágil, coberta quase do teto ao chão com um mosaico de ouro e mármore.

Partes do piso, irregular como uma onda, datam de 1094. Mesmo antes desta semana já havia obras em curso para retirar o sal dos pilares de mármore. “Estou preocupado com a basílica”, disse Piana.

“A ‘acqua alta’ não cria danos imediatos, evidentes. Não se vê nada imediatamente, por fora. Mas é algo que pode ser comparado ao dano provocado pela radiação. Em uma semana, você perde os cabelos. Dentro de um ano, pode estar morto.”

Ao longo dos anos Veneza desviou rios para proteger a lagoa e estender as ilhas de barreira. Mas agora o nível do mar está subindo vários milímetros por ano.

No mar, nas enseadas entre aquelas ilhas de barreira, uma obra maciça conhecida como MOSE tem o potencial de aumentar a proteção de Veneza com uma série de comportas que poderiam ser erguidas contra o mar durante as marés altas, fechando o acesso do mar à lagoa.

A obra foi iniciada em 2003, e a previsão inicial era que fosse concluída em 2011. Depois, em 2014. Agora as projeções são que fique pronta em 2022.

Alguns especialistas dizem que se o nível do mar subir tanto quanto é previsto, as comportas terão que ficar elevadas permanentemente, criando um problema igualmente sério: Veneza pode se converter numa placa de Petri aquática contida e enfrentar problemas com esgotos, crescimento de algas e poluição microbiológica.

Os venezianos mais velhos tendem a se lembrar da inundação recorde de 1966, uma época em que um evento desse tipo era um fato mais isolado.

A inundação desta semana ficou apenas sete centímetros abaixo daquele recorde. Veneza também enfrentou uma inundação séria em 2018.

“Psicologicamente falando, a inundação nos bateu em cheio”, comentou o veneziano de nascimento Maurizio Calligaro, 65 anos, diretor de proteção civil da cidade por duas décadas, até 2014.

Calligaro disse que para pessoas na casa dos 60 anos a enchente recorde foi “um trauma compartilhado muito forte, não muito diferente da memória da guerra”.

Desta vez, contudo, “foram apenas cinco horas para provocar a mesma destruição causada em 12 horas em 1966". "Essa violência é intrínseca da mudança climática.”

Ele disse que alguns venezianos ainda resistem a encarar a realidade climática e direcionam sua revolta contra os problemas com o MOSE, o projeto que já custou 6 bilhões de euros.

Moradores dizem que a mudança climática não é a única ameaça e que Veneza também luta para dar conta do turismo crescente.

Segundo algumas contagens, a cidade recebe 30 milhões de visitantes por ano. Os turistas elevam os custos para os habitantes da cidade, obrigando venezianos a converter seus apartamentos em Airbnbs e alimentando uma economia com empregos em grande medida baseados no turismo.

“Há turistas demais para cada cidadão”, disse Aline Cendon, 52, autora de vários livros sobre Veneza.

Tradução de Clara Allain

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