Descrição de chapéu Brexit

Após derrota, Partido Trabalhista deve passar por expurgo interno

Perspectiva é que Corbyn, atual líder da legenda, deixe o cargo em 2020

Londres

Principal derrotado desta eleição, o líder do Partido Trabalhista, Jeremy Corbyn, deve ser ainda o pivô de uma luta interna, deflagrada desde que uma mudança nas regras levou o político radical ao poder, à revelia da ala mais moderada.

Os trabalhistas perderam 59 assentos, fazendo desmoronar o chamado muro de tijolos vermelhos —o cinturão de cidades industriais do centro-norte inglês que costumavam eleger trabalhistas nas últimas muitas décadas.

Com seu slogan simples e direto —“Let’s brexit done” (vamos resolver o brexit de uma vez)—, a campanha de Boris Johnson se aproveitou da insatisfação entre os eleitores mais velhos dessa região. O primeiro-ministro se empenhou pessoalmente, visitando os distritos na reta final desta eleição.

O resultado foi que conservadores foram eleitos pela primeira vez na história em locais como o distrito leste de West Bromwich ou a cidade de Workington.

Após a divulgação dos resultados, Corbyn declarou estar “muito triste”, mas não renunciou à liderança do partido. Afirmou apenas que não liderará mais os trabalhistas em próximas eleições.

As perspectivas são de que ele deixe o cargo no começo do próximo ano, quando o partido já tiver avançado em sua lavagem de roupa suja.

Analistas apontam ao menos quatro causas para a derrocada trabalhista, além da queda do muro vermelho.

Uma é a plataforma de campanha, vista como radical e impraticável. Havia promessas de universidade gratuita para todos, compensação integral para mulheres que tiveram idade de aposentadoria adiada, 150 mil casas populares, cuidado gratuito para idosos, entre outras.

O financiamento viria de mais impostos para os mais ricos. Ele também prometia elevar para todos os salário mínimo e voltar a nacionalizar empresas de energia, transporte, correios.

O segundo motivo é o próprio Corbyn, que, segundo as pesquisas, tinha o mais baixo índice de popularidade de um líder de oposição desde os anos 1970. A imagem foi agravada por acusações de antissemitismo e pelo que foi visto como recusa de se desculpar por erros do Partido Trabalhista e de tomar providências a respeito.

A ala corbynista atribui a derrocada ao brexit, mas, mesmo aqui, pode ser creditada responsabilidade ao líder. Críticos de Corbyn dizem que ele não foi suficientemente claro sobre sua posição em relação à saída da União Europeia e mostrou hesitação sobre que acordo gostaria de negociar e em quanto tempo seria capaz de fazer isso.

Também é apontado erro na estratégia de campanha, ou na falta dela. Houve visitas a distritos já assegurados, enquanto outros que estavam em risco foram negligenciados.

O Partido Trabalhista se encontra hoje dividido em três correntes: a dos políticos tradicionais mais moderados, que se opõem a Corbyn, a dos políticos mais à esquerda, como o próprio líder, que defendem um ideário socialista, e um grupo grande de jovens de esquerda, mais ou menos organizados como um movimento, mas que não atuam na máquina do partido.

Foi esse terceiro grupo que permitiu a Corbyn assumir a liderança do partido —uma mudança nas regras deu a todos os membros da legenda a possibilidade de votar na escolha do líder.

Uma pesquisa do instituto YouGov divulgada nesta sexta mostra que para 51% dos entrevistados o que aconteceu na quinta foi uma derrota dos trabalhadores. Outros 37% deram mais importância à vitória de Boris Johnson.

Para 56% dos britânicos, Corbyn deveria deixar imediatamente a liderança do partido. Mesmo entre os eleitores trabalhistas, a porcentagem é alta: 43% acham que ele deveria sair já, contra 50% que opinam que ele deveria ficar por mais um tempo.

Outra grande derrotada dessas eleições foi a ex-líder dos liberais democratas, Jo Swimson, que caiu depois de um voo de galinha.

Os libdems perderam 1 das 12 cadeiras no Parlamento, mas a principal derrota foi a da própria Jo no distrito de Dunbartonshire Leste. A líder teve que ceder a vaga para uma candidata novata, por uma pequena vantagem.

Jo, primeira mulher a chefiar o partido, renunciou na manhã desta sexta, e a liderança foi ocupada interinamente por dois deputados.

Assim como o Partido Trabalhista, o Liberal Democrata deve passar por uma temporada de revisão interna e de rediscussão de sua parceria com outros partidos britânicos de oposição.

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