Descrição de chapéu

Após vitória de Lacalle Pou, América Latina precisa de radiografia urgente

Descontentamento em protestos imensos na região pode ser fagulha que esquerda requer para reativar suas bases

Álvaro Zapatel
Latino América 21

Depois da apertadíssima vitória de Luis Lacalle Pou no Uruguai, é pertinente submeter a América Latina a uma radiografia urgente. Assim, poderemos ver com maior clareza o cenário ideológico e geopolítico que acaba de ser desenhado no período final de 2019, o que pode ser útil para tentar prognósticos quanto ao que pode acontecer em 2020.

Com invejável tranquilidade, em contraste com o restante da região, o candidato direitista Luis Lacalle Pou conseguiu uma vitória apertada que pôs fim a 15 anos de progressismo em Montevidéu, ainda que sem a folga prevista nas pesquisas. Esse cenário o obrigará a uma busca de consenso com uma esquerda que soube se conduzir no poder, no Uruguai, e lutará por mantê-lo.

Não obstante, a promessa de ordem e segurança, unida a uma agenda econômica de austeridade fiscal e maior participação do setor privado, formaram a receita bem-sucedida que confere margem de manobra ao presidente eleito. Com isso, Lacalle se une a Jair Bolsonaro, o presidente do Brasil, e a Jeanine Áñez, presidente interina da Bolívia, para inclinar para o lado oposto a balança política e econômica em três países que foram governados pela esquerda por boa parte do século 21.

O presidente eleito do Uruguai, Luis Lacalle Pou, gesticula durante encontro com membros do Partido Nacional em Montevidéu
O presidente eleito do Uruguai, Luis Lacalle Pou, gesticula durante encontro com membros do Partido Nacional em Montevidéu - Mariana Greif - 2.dez.2019/Reuters

A renúncia de Evo Morales voltou a dividir a região entre aqueles que consideram que o sucedido foi um golpe de Estado e aqueles que a veem como resultado do atropelamento constitucional realizado pelo ex-presidente. Se bem a polêmica persista, o papel das Forças Armadas bolivianas merece destaque; somadas ao discurso religioso, elas se converteram na antítese programática do progressismo indigenista do regime de Morales.

A direita boliviana parece ter seguido o libreto de Bolsonaro, que soube criar um personagem que combina o atrevimento característico dos “trolls” de internet a um discurso polarizador e conservador.

A libertação do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva reinseriu a esquerda na batalha política. O lulismo pode enfraquecer Bolsonaro, que ainda não conseguiu implementar as medidas mais controversas – e atraentes para seu eleitorado – da agenda que o levou ao poder.

Em todo caso, a estabilidade e êxito de Bolsonaro tiveram por origem a capacidade de manter a união de seus seguidores mais recalcitrantes, fundamentais para uma mobilização eleitoral.

Olhando na direção do Pacífico, o Equador e o Chile enfrentam crises de proporções extraordinárias, que obrigaram nos dois casos a uma revisão do contrato social que amarra as relações de poder e a ordem legal em ambas as latitudes.

Mesmo assim, é incorreto afirmar que a mobilização em ambos os países esteja sendo dirigida pela esquerda. Mais precisamente, as demandas equatorianas e chilenas conseguiram permear o tecido social ao longo do espectro ideológico e socioeconômico, o que resultou em ações tardias dos presidentes Lenin Moreno e Sebastián Piñera, ambos identificados como de direita. Nos dois casos, as crises podem gerar oportunidades para que o progressismo tente voltar ao poder o mais rápido possível.

Da mesma maneira, a Colômbia se somou à onda de descontentamento que abala o continente, com protestos de um volume inédito em décadas. Dessa forma, o retorno de uma liderança progressista à Prefeitura de Bogotá pode ser o prelúdio do cenário eleitoral que o governo do uribista Iván Duque terá de enfrentar.

Se a prefeita Cláudia López conseguir combinar a luta contra a corrupção a uma agenda de liberalismo social e apoio ao processo de paz com as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc), ao qual Duque se opõe, os esquerdistas colombianos poderiam pensar em chegar à Presidência pela primeira vez na história do país.

Os analistas concordam que o Peru escapou de viver uma explosão social graças à popular decisão de dissolver o Congresso adotada pelo presidente Martín Vizcarra. A vantagem de Vizcarra tem por fundamento os erros, e supostos delitos, que seus rivais políticos cometeram no passado.

Mesmo assim, a libertação de Keiko Fujimori, que saiu da prisão no começo da semana, mudará a dinâmica política logo antes das eleições legislativas que estão marcadas para janeiro. Além disso, a população critica o que parece ser uma falta de ideias, da parte de um presidente que já não tem oponentes a quem culpar pelo que faça ou deixe de fazer.

Por outro lado, o gradualismo improdutivo de Mauricio Macri conduziu a reformas inconclusas que, com ajuda da estratégia eficaz do kirchnerismo, foram responsabilizadas por submeter a população a medidas de ajuste sem resultados tangíveis.

Assim, o herdeiro do kirchnerismo, Alberto Fernández, agora se tornou o solitário propulsor de uma agenda democrática tradicional de esquerda que reverta o que foi realizado por Macri e retome o caminho proposto por sua líder, Cristina Kirchner, que será vice-presidente da Argentina.

Fernández tem no México um importante braço de apoio programático.

Andrés Manuel López Obrador conseguiu romper a hegemonia do poder pelo PAN e PRI, neste século, e com isso alcançou a presidência com uma plataforma de esquerda que tinha por objetivo fortalecer o papel das empresas estatais como a Pemex, para elevar o investimento público e aumentar a capacidade de consumo dos mais pobres por meio de transferências diretas de renda.

Mas a retomada da brutalidade criminal pelos traficantes de drogas ameaça abalar a credibilidade e por fim debilitar substancialmente a presidência de López Obrador.

Na direção do Caribe, Nicolás Maduro sobrevive como herdeiro de um regime eivado de corrupção e de atropelamento sistemático dos direitos humanos. De sua parte, a oposição venezuelana não teve sucesso em posicionar Juan Guaidó como presidente. Perto do primeiro aniversário do “governo interino”, o contexto indica que acabou o oxigênio de Guaidó e que Maduro volta a deter o poder sobre a situação.

Este foi um ano politicamente extenuante para a região, e não existem indicações de que as pressões e tensões venham a ceder a curto prazo.

A balança ideológica parece ter-se inclinado ligeiramente para a direita, em termos eleitorais, ao sul dos Estados Unidos.

Mesmo assim, o descontentamento social manifestado em protestos imensos pode ser a fagulha que a esquerda requer para reativar suas bases, com o objetivo de recuperar o protagonismo e o poder.

Nessa linha, é plausível inferir que o discurso dos dois lados do espectro político vai se radicalizar, o que pode gerar caldos de cultura que propiciem o surgimento de personagens e movimentos que causem perigo para a ordem democrática e a sustentabilidade a longo prazo.

Estamos advertidos.

Álvaro Zapatel é economista. Foi consultor na área de educação do Banco Mundial e professor da Universidade de Lima. Formou-se pelo Boston College e é mestre em administração pública pela Universidade de Princeton.

www.latinoamerica21.com, um projeto plural que difunde diferentes visões sobre a América Latina.

Latinoamerica21, tradução de Paulo Migliacci

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