Descrição de chapéu The New York Times

Brexit está em risco na Escócia, assim como o futuro do Reino Unido

Primeira-ministra escocesa, Nicola Sturgeon é pró-independência e anti-brexit

Glasgow (Escócia) | The New York Times

Empurrando com vontade a multidão, a primeira-ministra da Escócia, Nicola Sturgeon, para de repente ao ver seu caminho bloqueado por uma apoiadora que segura uma criança fotogênica de 5 meses.

Sem hesitar, Sturgeon acolhe o bebê gentilmente nos braços e dá um beijo demorado em sua testa, enquanto as câmeras clicam em uníssono.

Considerada por muitos a líder partidária mais eficaz do Reino Unido, Sturgeon não vai disputar as eleições gerais de 12 de dezembro porque está no Parlamento Escocês em Edimburgo, e não no britânico em Westminster.

Como líder do fervilhante Partido Nacional Escocês, pró-independência e anti-brexit, ela é a imagem de sua campanha pelos 59 assentos parlamentares da Escócia em Westminster.

O sucesso dessa campanha poderá determinar se o Reino Unido sairá da União Europeia em janeiro —e, caso saia, se sobreviverá à ruptura.

Nicola Sturgeon, primeira-ministra da Escócia, em lançamento de manifesto do Partido Nacional Escocês, em Glasgow
Nicola Sturgeon, primeira-ministra da Escócia, em lançamento de manifesto do Partido Nacional Escocês, em Glasgow - Lesley Martin/AFP

Em uma visita recente e bem orquestrada a uma instituição beneficente em uma área pobre de Glasgow, Sturgeon estava por toda parte, ajudando em uma aula de aritmética, fazendo exercícios de ginástica e, na cozinha, servindo tigelas de sopa grossa de lentilha.

"Esta é definitivamente a eleição geral mais importante que tivemos na Escócia na minha vida, porque o futuro do nosso país está em jogo", disse ela depois que a comida foi servida.

"Estamos numa encruzilhada, e o resultado dessa eleição decidirá que caminho seguiremos e quem decidirá nosso futuro."

Segundo pesquisas de opinião, o Partido Nacional Escocês, que já detém 35 dos assentos da Escócia no Parlamento britânico, está prestes a ganhar ainda mais.

Se receber votos suficientes do Partido Conservador, que detém 13 cadeiras, poderá privar o primeiro-ministro Boris Johnson da maioria da qual ele precisa para seguir com o brexit.

Se isso acontecesse, poderia tornar Sturgeon uma figura decisiva, e seu preço para apoiar um governo trabalhista minoritário poderia ser a permissão desse governo para que a Escócia realize mais um referendo sobre a independência.

O país rejeitou a independência em 2014, mas o brexit perturbou sua política desde então.

Não faz muito tempo, os trabalhistas eram a força dominante no país. Mas Sturgeon, que se tornou líder do partido em 2014, obteve uma vitória drástica nas eleições gerais de 2015, quando os independentistas ganharam quase todos os assentos parlamentares escoceses, exceto três.

Alguns foram perdidos em uma eleição antecipada, dois anos atrás.

Embora ela tenha enfrentado críticas à qualidade da saúde e da educação na Escócia, o sucesso de Sturgeon é um símbolo de como o país está divergindo politicamente da Inglaterra.

A promessa de Boris de "implementar o brexit" agradou a muitos lá, mas com frequência é rejeitada ao norte da fronteira.

A personalidade desleixada e elitista de Boris tende a desagradar aos escoceses, cuja maioria votou contra o brexit no referendo de 2016.

E enquanto o Brexit é um campo de batalha político crítico na Escócia para muitos ele empalidece diante da questão da independência.

Os escoceses parecem estar perdendo a fé em sua união de séculos com a Inglaterra.

Uma pesquisa recente mostrou que menos da metade dos entrevistados afirmava acreditar que o Reino Unido sobreviveria em sua forma atual pelos próximos cinco anos, e menos de um terço expressou confiança de que o faria pela próxima década.

"Os laços que nos unem enfraqueceram", disse Henry McLeish, ex-primeiro ministro da Escócia e político do Partido Trabalhista.

"Se não fizéssemos parte do Reino Unido hoje, gostaríamos de aderir? Creio que não."

Para promover sua causa, o partido de Sturgeon deve ganhar em lugares como Stirling, um grande eleitorado com cidades ricas, comunidades e aldeias da classe trabalhadora, onde o destino da Escócia foi determinado em tempos antigos: na Batalha da Ponte de Stirling, em 1297, quando William Wallace derrotou os ingleses, e na Batalha de Bannockburn, em 1314, quando Eduardo 2º da Inglaterra foi derrotado.

Batendo nas portas em Bannockburn, o candidato do Partido Nacional Escocês, Alyn Smith, disse que sua prioridade é "parar o Brexit e se concentrar nas coisas que importam para as pessoas daqui", acrescentando que os escoceses perderam a fé no que consideravam uma parceria entre iguais.

"O voto no brexit fez uma série de pessoas entender que o Reino Unido não funciona da maneira como pensavam", disse Smith, enquanto tentava convencer eleitores a abrir as portas em uma tarde escura, fria e chuvosa.

Um que abriu —Christopher Wilson, motorista de táxi— recebeu Smith em sua casa.

"Nunca votei no brexit; votei para continuar na UE, e sinto que minha voz não está sendo ouvida", disse Wilson, que também é fortemente favorável à independência escocesa.

E, se você fizer parte do grande grupo de pessoas que não gostam do brexit, mas também, com os conservadores, se opõem à independência escocesa?

No cênico e ondulado campo de golfe de Bridge of Allan, cidade abastada ao norte de Stirling, a aposentada Fiona Darroch disse que definitivamente não apoiará o Partido Nacional Escocês, mesmo não sendo entusiasta do brexit.

"Na Escócia, a maioria não quer sair do Reino Unido", disse ela, caminhando para o campo.

"A Inglaterra é nossa vizinha e nossa família. Não quero uma fronteira", acrescentou Darroch, afirmando que normalmente votaria nos conservadores, mas desta vez planeja mudar para os liberais-democratas pró-UE.

Tais deserções poderão ser fatais para o candidato conservador, Stephen Kerr, mas o enfoque na independência deu vida aos conservadores, mesmo depois de um revés, quando sua popular ex-líder na Escócia, Ruth Davidson, se demitiu.

A estratégia de Kerr é cortejar os adversários da independência, mesmo que eles não gostem de Boris e sua batalha desenfreada pelo brexit.

E Kerr disse que está conquistando pessoas da classe trabalhadora que "nunca serão eleitores conservadores –nunca–, mas estão votando no Partido Conservador com base em me emprestar seu apoio para proteger o sindicato".

Em toda a Escócia, o enfoque nessas duas questões constitucionais pressionou ainda mais o Partido Trabalhista, na oposição.

Em 2005, o partido conquistou 41 das cadeiras escocesas no Parlamento, mas, uma década depois, ficou com apenas uma nas eleições de 2015, embora tenha subido para sete em 2017.

Os trabalhistas estão sob pressão de novo, principalmente porque sua política relativamente neutra no brexit e sua disposição relutante em contemplar uma segunda votação sobre a independência escocesa o fazem parecer confuso sobre as duas questões principais.

Segundo McLeish, os trabalhistas da Escócia perderam força para o Partido Nacional Escocês ao subestimá-lo.

"Nós nos tornamos extremamente complacentes", disse ele.

Na análise final, é provável que a independência suba na agenda escocesa, não importa quem vença a eleição.

Se o Partido Trabalhista privar Boris da maioria e precisar do apoio do Partido Nacional Escocês, poderá abrir caminho para um rápido segundo referendo sobre a independência, enquanto uma vitória conservadora levaria a um brexit ao qual a maioria dos escoceses se opõe.

"Se Boris e os conservadores em Westminster continuarem se comportando como hoje", disse McLeish, "não haverá um grande dia em que acordaremos com 60% a favor da independência, mas vamos nos mover lentamente na direção desse resultado."

Tradução de Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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