China tenta transformar minorias muçulmanas em exército de trabalhadores

Iniciativa faz parte de esforço do governo para controlar região no noroeste do país

Chris Buckley Austin Ramzy
KASHGAR (CHINA) | The New York Times

A ordem das autoridades chinesas foi direta e urgente. Os moradores de aldeias de minorias muçulmanas devem ser empurrados para empregos, queiram ou não. Seriam definidas cotas, e as famílias seriam penalizadas caso se recusassem a obedecer.

"Façam com que as pessoas difíceis de empregar desistam de suas ideias egoístas", disse o departamento de trabalho de Qapqal, município na região oeste de Xinjiang, na diretriz do ano passado.

Essas ordens fazem parte de uma campanha agressiva para transformar as minorias muçulmanas de Xinjiang —principalmente os uigures e cazaques— em um exército de trabalhadores para fábricas e outros grandes empregadores. Sob a pressão das autoridades, agricultores pobres, pequenos comerciantes e aldeões ociosos em idade ativa participam de cursos de treinamento e doutrinação durante semanas ou meses e são designados para costurar roupas, fazer sapatos, varrer ruas ou ocupar outros empregos.

Esses programas de trabalho representam uma frente em expansão, um grande esforço do líder chinês, Xi Jinping, para fortalecer o controle dessa região, onde as minorias representam aproximadamente a metade da população. Elas são cruciais para a estratégia de reengenharia social do governo, juntamente com os campos de doutrinação, que já detiveram 1 milhão ou mais de uigures e cazaques.

A agência de trabalho de Qapqal ordenou que os moradores fossem submetidos a treinamento no estilo militar para transformá-los em trabalhadores obedientes, leais aos empregadores e ao Partido Comunista.

"Invertam seus hábitos individualistas preguiçosos, relaxados, lentos, desleixados, desorganizados, para que obedeçam às regras da empresa", afirmou a diretriz.

O governo sustenta que os moradores uigures e cazaques são "mão de obra rural excedente" e são uma população subempregada que ameaça a estabilidade social. Colocá-los em um trabalho estável e supervisionado, aprovado pelo governo, segundo as autoridades, eliminará a pobreza e retardará a disseminação do extremismo religioso e da violência étnica.

O governo descreve os trabalhadores como voluntários, embora os críticos digam que são claramente coagidos. Documentos oficiais, entrevistas com especialistas e visitas de The New York Times a Xinjiang indicam que os planos locais arrancam os moradores das aldeias, restringem seus movimentos e os pressionam a permanecer no emprego.

Especialistas dizem que esses métodos rígidos podem significar trabalho forçado, potencialmente contaminando a cadeia de suprimentos global que utiliza mão de obra de Xinjiang, sobretudo para produtos de algodão. Os varejistas japoneses Muji e Uniqlo dizem que usaram algodão da região, enquanto o Walmart comprou produtos de uma empresa que até recentemente usava trabalhadores de Xinjiang.

Dado o controle rígido de Xinjiang, "temos que assumir, no momento, que há um risco muito significativo de coerção", disse Amy K. Lehr, diretora da iniciativa de direitos humanos do Centro de Estudos Estratégicos e Internacionais e coautora de um estudo sobre os programas de trabalho de Xinjiang.

O trabalho forçado pode surgir "mesmo que a coerção esteja implícita ou os programas ofereçam aos trabalhadores uma renda decente", acrescentou.

Os programas de mão de obra atuam em paralelo com os campos de doutrinação em Xinjiang, que foram condenados por governos ocidentais. Os internos nos campos também recebem treinamento profissional, e as autoridades dizem que muitos serão enviados para trabalhar em fábricas.

Vistas em conjunto, as políticas são projetadas para tornar as minorias muçulmanas da região mais seculares e urbanizadas, como a maioria han da China. Muitos chineses as consideram louváveis. Para os uigures críticos, são subjugação étnica.

"O que eles estão tentando fazer é assimilar o povo uigur", disse Mustafa Aksu, coordenador do programa no Projeto Uigur de Direitos Humanos.

"Senso de disciplina"

A fábrica administrada pela Jinfujie Clothing Co., na borda desértica de Kashgar, cidade no sul de Xinjiang, é uma estrela na campanha de empregos do governo.

Jinfujie, que se autodenomina "futuro dourado", treinou e empregou 2.300 trabalhadores das aldeias.

Também abriu uma filial em um campo de doutrinação, onde colocaria para trabalhar mais de 500 detentos, segundo afirmou um executivo da empresa no ano passado.

O executivo, Sun Yijie, um ex-soldado, disse que a companhia tinha métodos rígidos para transformar os moradores em trabalhadores. "A começar por exercícios militares antes de iniciarem o trabalho, promovemos um senso de disciplina", afirmou.

Vídeos postados na internet mostram os trabalhadores da Jinfujie em uniformes cinzas e laranjas alinhados para um discurso. "Um futuro de sucesso", gritaram eles em uníssono.

Os programas de mão de obra dependem da atração de empresas da costa leste, a mais rica da China, onde menos jovens querem trabalhar nas linhas de produção. Xinjiang ofereceu aos fabricantes mão de obra barata, bem como benefícios e subsídios generosos.

"Eles ainda não são tão rápidos quanto os trabalhadores de outras partes da China", disse o empresário He Tan, dono de uma pequena fábrica nos arredores da cidade de Hotan, em Xinjiang.

Os objetivos do governo são amplos. Um plano anunciado em 2018 previa a colocação de 100 mil pessoas nas partes mais pobres no sul de Xinjiang, área fortemente uigur, até o final de 2020. O governo disse recentemente que a meta foi atingida um ano antes do previsto. No final de 2023, segundo outro plano, Xinjiang quer 1 milhão trabalhando em suas indústrias têxtil e de vestuário; eram cerca de 100 mil em 2017.

Na fábrica de He, dezenas de mulheres uigures de vilarejos vizinhos estavam sentadas em silêncio em fileiras, costurando uniformes escolares. Guzalnur Mamatjan, uma uigur de 20 anos, disse que ganha cerca de US$ 200 por mês.

"Gostaria de trabalhar aqui por dois ou três anos e depois abrir minha própria oficina de roupas", disse ela em uma breve entrevista na presença de autoridades.

"Muita pressão"

Contra as dunas do deserto, as novas zonas industriais de Xinjiang são frequentemente cercadas por muros altos, arame farpado e câmeras de segurança. Algumas são construídas perto de campos de doutrinação e empregam ex-reclusos.

O plano de Xinjiang de empregar minorias geralmente parece menos uma feira de empregos e mais uma convocação militar.

Trabalhadores estagiários costumam frequentar cursos políticos semelhantes aos usados nos campos de doutrinação. Eles praticam exercícios militares, aprendem canções patrióticas chinesas e ouvem palestras advertindo contra o zelo islâmico e pregando gratidão ao Partido Comunista. Às vezes, novos trabalhadores são mostrados em reportagens da mídia chinesa vestindo uniformes em estilo militar e em posição de sentido, enquanto são levados a seus empregadores.

Muitos são separados de suas famílias. Uma diretriz do governo de Qapqal ordenou que os filhos de casais que trabalham fossem acolhidos —lares comunitários para os jovens, internatos para os mais velhos—, para que seus pais pudessem se mudar para o local de trabalho.

Os movimentos dos trabalhadores são altamente controlados quando estão longe de casa. No condado de Yanqi, no norte da região, os trabalhadores enviados do sul não podem sair, a menos que obtenham permissão por escrito de várias autoridades, de acordo com as regras do governo local.

Os recrutas passam por uma "verificação política" para determinar se representam risco à segurança. No município de Qapqal, as autoridades impuseram regras para classificar os potenciais recrutas, de mais a menos confiáveis. Os menos confiáveis tinham que frequentar aulas de doutrinação à noite, enquanto apenas os mais confiáveis podiam deixar o município para trabalhar.

"Há muita pressão para os indivíduos assinarem contratos de trabalho", disse Darren Byler, especialista em Xinjiang na Universidade do Colorado em Boulder, nos Estados Unidos.

Byler disse que muitos moradores acreditam que resistir à transferência de trabalho pode levar à detenção. "A ameaça dos campos paira sobre todos, por isso não há realmente nenhuma resistência ao trabalho nas fábricas", disse ele.

A mídia oficial chinesa relata que os trabalhadores ganham US$ 400 ou mais por mês, uma renda decente.

A realidade pode diferir, especialmente em fábricas menores e com dificuldades. Em um município no sul de Xinjiang, dois terços dos 43 funcionários da fábrica cujos salários foram incluídos nos registros online ganhavam US$ 114 por mês, segundo Adrian Zenz, especialista em Xinjiang que estudou os programas de trabalho.

Amanzhol Qisa, 31, moradora de Xinjiang, passou um ano em um campo de doutrinação e, em abril, foi enviada para trabalhar em uma fábrica de roupas por três meses. Ela recebia US$ 115 por mês, menos da metade do salário mínimo, de acordo com seu marido, Muhamet Qyzyrbek.

Qyzyrbek, cidadão cazaque, disse por telefone de Shymkent, cidade no sul do Cazaquistão, que sua mulher não teve escolha a não ser aceitar o emprego. "Depois de ser libertado, você precisa trabalhar de acordo com as políticas", afirmou.

Riscos éticos

A partir do final do verão, os moradores de Xinjiang entram em ônibus que os levam a fazendas de algodão, às vezes a centenas de quilômetros de distância. Durante algumas semanas intensas sob o sol, eles se curvam nos campos, na colheita destinada às confecções de roupas chinesas.

Equipes de funcionários do Partido Comunista nas aldeias realizam "reuniões de mobilização", pressionando os agricultores a se inscreverem. O pagamento é bom, dizem eles.

"Vão com coragem e tragam o dinheiro de volta", disse uma autoridade da aldeia de Dol, no sul de Xinjiang, a dezenas de agricultores, segundo um relatório do governo local no ano passado. As autoridades da aldeia pediram aos líderes da equipe que cuidassem de três moradores de 60 anos que se inscreveram para colher algodão, disse o relatório.

Xinjiang produz 85% do algodão da China, segundo estimativas oficiais, e está se esforçando para fabricar mais tecidos e roupas. E quase todos os elos da cadeia de suprimentos se cruzam com os programas de trabalho do governo.

Grandes fabricantes têxteis chineses, como a Huafu Fashion Co., com sede no leste do país, destacam seu papel na contratação de minorias do interior, enquanto negam que alguém seja forçado a aceitar o emprego.

Algumas empresas globais anunciaram o algodão de alta qualidade de Xinjiang como um ponto de atração. A varejista japonesa Muji descreve que sua flanela usa algodão "colhido à mão" na região.

A preocupação internacional sobre os direitos humanos em Xinjiang está pressionando os varejistas globais a avaliar seus fornecedores. Os Estados Unidos proibiram recentemente as roupas da Hetian Taida, empresa de Xinjiang suspeita de usar trabalhadores de um campo de doutrinação.

A empresa controladora da varejista japonesa Uniqlo disse que a marca parou de trabalhar com parceiros de produção em Xinjiang. A Muji, do Japão, não respondeu aos e-mails solicitando comentários. Em agosto, sua empresa controladora, Ryohin Keikaku, disse estar comprometida com a proibição do trabalho forçado, inclusive entre seus parceiros de negócios.

Até recentemente, o município de Qapqal tinha enviado mais de 440 trabalhadores ao leste da China para trabalhar em uma fábrica de piscinas e camas infláveis para remessas para os Estados Unidos e outros países. A fábrica é de propriedade da Bestway Leisure Products Co., que vendeu esses produtos para o Walmart, Kmart e outros varejistas, de acordo com registros de exportação.

Pat Fumagalli, diretor de estratégia do escritório americano da Bestway, disse que a empresa encerrou o programa de levar trabalhadores de Xinjiang em outubro, depois que gerentes nos Estados Unidos viram reportagens sobre os programas de mão de obra da região.

Marilee McInnis, porta-voz do Walmart, disse por e-mail: "Recrutamento responsável e trabalho voluntário são duas questões muito importantes para o Walmart".

A Transform Holdco, empresa controladora da Kmart, se recusou a comentar.

Depois que o Times fez perguntas, inspetores do Walmart visitaram a fábrica. Inspetores do Conselho Internacional de Indústrias de Brinquedos (ICTI, na sigla em inglês) examinaram os registros e conversaram com os gerentes. Eles não encontraram disparidades entre os salários e as condições dos trabalhadores de Xinjiang e de outros lugares, disse Mark Robertson, vice-presidente sênior do programa de inspeção.

"Não tivemos a oportunidade de entrevistar trabalhadores de Xinjiang, pois nenhum deles trabalhava na fábrica quando a visitamos", afirmou.

Tradução de Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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