Descrição de chapéu The New York Times

Estes repórteres perderam o emprego. Aqui estão as histórias que eles não puderam contar

Profissionais de jornais de cidades do interior dos EUA acompanhavam de perto temas importantes para os moradores

The New York Times

​Eles eram especialistas em escolas públicas de Nova Orleans e na política estadual do Oregon. Eles deram a notícia quando um popular jogador de basquete colegial do Colorado voltou à quadra depois de uma lesão no joelho, e ajudaram a resolver o misterioso vandalismo de um bolo numa prefeitura do Texas. Em jornais grandes e pequenos —por momentos grandiosos e modestos— esses jornalistas locais contavam as histórias de suas comunidades.

Até que, um dia, eles se foram.

Em todos os Estados Unidos, neste ano, mais de mil funcionários de jornais perderam o emprego, destacando uma crise no jornalismo local que vem se intensificando há mais de uma década.

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Antigo crachá de Gabriel San Román, ex-repórter do The OC Weekly, em loja de presentes da Disney em Anaheim, Califórnia - Federico Medina/The New York Times

O encolhimento das notícias locais —impulsionado por fatores que incluem o declínio da publicidade impressa e a fusão de empresas jornalísticas—  tem sérias consequências, da diminuição do comparecimento de eleitores nas votações ao aumento da polarização.

Depois há as histórias perdidas.

Em entrevistas, oito ex-jornalistas locais nos contaram as histórias que ainda tinham em seus notebooks. Para fazer as imagens, recorremos a fotojornalistas que trabalharam com eles até que também perderam seus empregos.

 

The Orange County Weekly (Anaheim, Califórnia): Gabriel San Román, 37

Gabriel San Román foi criado em Anaheim, na Califórnia, e cobria a cidade. Ele perdeu o emprego em novembro, quando o jornal fechou, e está procurando sua próxima atividade.

Eu era um repórter latino em uma cidade de maioria latina, que estava chegando a um acordo com sua realidade demográfica. Eu tinha uma coluna chamada "alt-Disney" e também era repórter trabalhista.

No ano passado, houve grande atenção na mídia sobre a votação da medida de salário digno que seria aplicada às empresas de Anaheim Resort que têm acordos de subsídio com a prefeitura. Ela estabelece uma escala salarial de até US$ 18 por hora até 2022. Depois de aprovada, grande parte da atenção desapareceu.

Mas eu ainda estava perguntando como a cidade iria implementá-la. O Disneyland Resort ficou isento ao pedir à prefeitura que rescindisse dois subsídios que estava recebendo. E havia a grande questão de saber se os funcionários entrariam com uma ação judicial. Eu tinha feito uma reportagem em que o autor da medida essencialmente dizia que se destinava a ser aplicada à Disneylândia.

O processo contra a Disney foi anunciado em 9 de dezembro. Ainda fui à entrevista coletiva. Espero continuar relatando essa história.

@gsanroman2

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Nanette Light, ex-repórter do The Dallas Morning News - Nathan Hunsinger/The New York Times

The Dallas Morning News (Dallas, Texas): Nanette Light, 32

Nanette Light cobria o Condado de Collin, no Texas, e perdeu o emprego em janeiro. Ela agora trabalha em comunicação para uma fundação de saúde infantil em Dallas.

Uma história que relatei durante muito tempo foi a de um casal de idosos que morava perto do aeroporto McKinney.

McKinney foi chamada de "Melhor lugar para se morar nos EUA" pela Money Magazine em um ano, e a cidade queria ampliar o aeroporto. Esse casal queria se mudar, mas era difícil vender sua casa porque quem iria querer morar ali? A prefeitura queria comprá-la por menos do que eles achavam que valia.

Eu estive no meio da reportagem, e toda vez que penso nisso me sinto culpada. Para mim, era uma história de dores de crescimento —as dores de crescimento de uma cidade à medida que evolui de uma pequena comunidade para um subúrbio muito maior, e quais são os custos disso?

O condado (município) de Collin é um dos que mais crescem no país. A população é de pouco mais de um milhão e, quando eu estava em atividade, as projeções eram de que triplicaria de tamanho em 2050. A Toyota mudou sua sede para lá, pois tinha uma reputação de boas escolas.

A certa altura, havia uma editoria inteira para cobrir o condado de Collin. Quando fui demitida, era apenas eu. E o problema é que as pessoas sentem sua falta quando você não está presente. Escrevi algumas matérias sobre um distrito escolar que não foram super elogiosas. Mas quando fui demitida o presidente de um conselho escolar disse no Twitter que ele sempre apreciou meu trabalho. Isso significou muito para mim.

@NanetteLight

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Wilborn Nobles, ex-repórter do The Times-Picayune, - Michael DeMocker/The New York Times

​The New Orleans Times-Picayune (Nova Orleans): Wilborn Nobles, 27

Wilborn Nobles é natural de Nova Orleans e trabalhou como repórter educacional no Times-Picayune, que foi comprado e absorvido por seu concorrente, The Advocate, no início deste ano. Ele agora é repórter de The Baltimore Sun.

Eu estava cobrindo o distrito escolar da Paróquia de Orleans. Era o responsável por dar aos moradores e ao país uma ideia de como era participar de uma das maiores experiências escolares contemporâneas do país, que era um distrito escolar independente. O sistema de escolas públicas independentes ("charter") em Nova Orleans não seria o que é hoje se não fosse o furacão Katrina e as falhas dos diques.

Eu tinha 13 anos quando ocorreu o Katrina. Minha mãe ficou em casa e se afogou. Minha mãe era professora substituta. Ela ensinava inglês e artes da linguagem. 

Há muita coisa que eu senti que foi deixada por fazer. Ouvi algumas coisas antes e depois que fui demitido sobre abusos na escola —algumas envolvendo um motorista de ônibus escolar que supostamente assediou uma estudante, e de esse mesmo motorista de ônibus ser um criminoso sexual fichado.

Depois que fui demitido, ouvi outra denúncia sobre a transferência de um grupo de estudantes porque os jogadores de futebol os estavam assediando sexualmente. São coisas difíceis de provar e encontrar pessoas dispostas a falar a respeito, mas se há denúncias por aí alguém precisará escavar. De vez em quando, eu ainda me estresso um pouco pensando nisso.

- @WilNobles

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Graig Graziosi, ex-repórter do The Vindicator - William D. Lewis/The New York Times

The Vindicator (Youngstown, Ohio): Graig Graziosi, 33

Graig Graziosi cresceu em Youngstown, em Ohio, e frequentou a Universidade Estadual de Youngstown. Ele perdeu o emprego depois que o jornal diário da cidade, The Vindicator, foi fechado em agosto. Ele agora está se mudando para Washington, DC, onde espera encontrar um emprego em jornalismo.

Eu trabalhava em The Vindicator havia três anos. Acabei assumindo a liderança ao relatar o fechamento de Lordstown. Fiz uma grande reportagem sobre os últimos dias da fábrica.

A maior reportagem, se eu ainda estivesse trabalhando hoje, seria observar as consequências de Lordstown em um ano. Por um longo tempo depois que perdemos a indústria siderúrgica, o refrão por aqui foi: "Bem, pelo menos ainda há Lordstown. Pelo menos temos a fábrica de automóveis. Pelo menos temos a General Motors". Ao todo, Lordstown tinha cerca de 3.000 funcionários. De 2016 a 2019 foram 3.000 empregos bem remunerados que deixaram nossa região.

Previmos que haveria um declínio em nosso mercado imobiliário. Você verá no mercado casas de bom tamanho que provavelmente não serão vendidas. Estávamos observando quedas nas matrículas em faculdades. Muitos estudantes acabaram saindo do distrito escolar de Lordstown. São pessoas que poderiam ter ido para a Universidade Estadual de Youngstown.

Crescendo nesta área, você entende. Entende os paralelos óbvios entre o que está acontecendo com Lordstown e o que aconteceu com as siderúrgicas. A indústria siderúrgica e a GM Lordstown eram lugares aonde você podia ir com um investimento mínimo em educação. Se você conseguisse entrar lá depois do colegial, poderia começar a ganhar um salário que lhe daria uma boa vida de classe média. Você tem uma compreensão do que um lugar como Lordstown significa para as pessoas, uma compreensão dessa identidade.

@graiggraziosi
 

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Gary Warner, ex-chefe no The Bulletin - Joe Kline/The New York Times

The Bend Bulletin (Bend, Oregon): Gary Warner, 61

Gary Warner cobria o Legislativo do Estado de Oregon e perdeu o emprego em agosto. Depois de ser brevemente contratado para cobrir uma área diferente, ele agora trabalha como porta-voz do Departamento de Transportes do Oregon.

Penso que a transformação política da região central do Oregon é a grande história. Costumava-se dizer que as Montanhas Cascade, que separam dois terços do Estado do terceiro, no litoral, eram como um muro.

Tudo a leste das Cascades era enclave republicano. O que se começava a ver em Bend era, por falta de um termo melhor, como uma espinha azul que surgira nas Cascades e estava se expandindo para essa área antes fortemente republicana. Essa transição foi alimentada pelo rápido crescimento de Bend. Tornou-se como o Aspen do Oregon, com muita riqueza mudando para lá.

A identidade de um lugar como o centro do Oregon, que passou da extração de madeira para o lazer, é realmente a história do que está acontecendo em todo o Ocidente e se ele conseguirá fazer essa transição com sucesso. Quem está ganhando e quem está perdendo?

Os jornais são um dos últimos lugares em que você pode sempre ouvir vozes de ambos os lados sobre o mesmo assunto. Existem disputas políticas realmente apertadas. Eu cobri uma primária republicana para um dos assentos da Câmara estadual. Foi a disputa pela cadeira na Câmara do 53º Distrito, em 2018. Fiz reportagens sobre os candidatos e suas posições. Foi decidida por dois votos. Dois votos.

@TheGaryWarner

The Corpus Christi Caller Times (Corpus Christi, Texas): Julie Garcia, 32

Julie Garcia cobriu a prefeitura de Corpus Christi, no Texas, e estava entre um grupo de demitidos dos jornais Gannett em todo o país. Agora é repórter de The Houston Chronicle.

Eu fazia longos tuítes sobre o dia do Conselho Municipal. Começava às 10h e deixava todo mundo empolgado, como "É dia do Conselho Municipal!" As pessoas se sentiam à vontade para me procurar, dizendo: "Ei, meu playground no parque sumiu. Você pode descobrir o que está acontecendo?" Eu mandava uma mensagem ou ligava para o diretor de parques. É ser um mensageiro, obter uma resposta rápida para uma pergunta rápida e construir um relacionamento com sua comunidade.

Durante duas ou três reuniões depois que fui demitida, ainda cobri o Conselho Municipal. Eu assistia à reunião e continuava tuitando ao vivo. Havia um assunto pelo qual eu estava realmente interessada. 

Corpus Christi teve muitos incidentes com água quente. Houve um grande problema em que não podíamos nem tocar a água. Não pudemos tomar banho durante quatro dias. A cidade estava pensando em fazer negócios novamente com a empresa ligada a isso. Eu queria assistir àquela reunião porque queria ver o que eles iam dizer. Eu ainda sentia e continuo sentindo uma responsabilidade por essa comunidade.

- @reporterjulie

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Allison Guinn, ex-funcionária do The Ledger - Scott Wheeler/The New York Times

The Ledger (Lakeland, Flórida): Allison Guinn, 35

Allison Guinn foi editora-assistente de The Ledger e perdeu o emprego em maio. Ela trabalha como freelance e procura trabalho em período integral fora do jornalismo.

Quando eu era repórter, cobri a prefeitura de Lakeland, a maior cidade da nossa região, e quando me tornei editora continuei escrevendo apenas porque precisávamos preencher buracos. Ainda conseguimos algumas boas reportagens por aí. Mas os acompanhamentos estavam nos matando.

Por exemplo, tínhamos um repórter, Clifford Parody, que tinha investigado o estoque de kits para investigar estupros na Flórida, e o estado disse que eles reveriam e testariam todos os kits.

A polícia de Winter Haven fez algumas prisões como resultado dos testes, sobre as quais escrevemos. Era uma prova de que aquela matéria realmente difícil que esse repórter talentoso tinha feito estava fazendo a diferença.

Pouco tempo depois, Parody foi demitido. E então ouvimos dizer que o estado não estava fazendo o que havia prometido e que mesmo o Departamento de Polícia de Winter Haven não estava testando todos os kits. Mas o repórter não está mais lá, e parece que tudo desapareceu do conhecimento institucional. Se você vai noticiar uma história, se for empurrá-la, é de partir o coração que não esteja lá para dar seguimento. Como editora, era isso que me mantinha acordada à noite.

@alliguinn

The Greeley Tribune (Greeley, Colorado): Anne Delaney, 51

Anne Delaney cobriu esportes locais em Greeley, no Colorado, e arredores. Neste mês ela foi informada de que o jornal cortaria a ela e outra repórter esportiva apenas um ano depois de ela se mudar para o Colorado para o cargo.

Você fala com diretores atléticos, fala com treinadores, vai a jogos. Você liga para as pessoas e espera alcançá-las de alguma forma. E então você parte daí.

No mês passado, um diretor esportivo me ligou para dizer que um técnico de futebol estava deixando o cargo após a temporada, porque confiava em mim. Quando obtive essa informação, escrevi uma reportagem sobre o treinador: conversei com ele, conversei com um jogador, conversei com um treinador de uma escola adversária e "bum" —estamos prontos para as corridas. É assim que funciona. Se estamos perdendo jornalistas, como isso tudo funciona? Não sei o que vem a seguir.

O que acontece se alguém rouba do clube de reforço? Espero que isso não aconteça, mas se alguém como eu estiver aqui, as pessoas podem se sentir à vontade para ligar e dizer: "Ei, você deve verificar isso". O que acontece quando não há ninguém por perto?

Há uma história que não vai acontecer, mas eu realmente queria chegar nela. Algumas escolas da região realmente lutaram por não terem motoristas de ônibus suficientes. Eu ia dar uma olhada nesse problema do ponto de vista esportivo: como os times estão indo para os jogos? Como os horários estão mudando? Isso leva a dias mais longos? Tentei colocar isso em movimento algumas vezes no outono, e alguém não me retornou, ou fui desviada por outra tarefa. Eu odeio isso.

@AnneGDelaney

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