Ex-premiê é eleito presidente da Argélia, e multidão protesta nas ruas

Abdelmadjid Tebboune foi do governo de Bouteflika, derrubado em abril por manifestantes

São Paulo | Reuters e AFP

A Argélia anunciou nesta sexta-feira (13) como vencedor da eleição presidencial Abdelmadjid Tebboune, ex-primeiro ministro de Abdelaziz Bouteflika, que renunciou em abril pressionado por uma onda de protestos. O resultado, longe de acalmar os atos em massa que pedem uma renovação política no país há meses, levou os manifestantes às ruas —e eles prometem que seu movimento não vai parar. 

Tebboune, 74, fez campanha como um burocrata que provou sua integridade ao ser demitido por enfrentar empresários poderosos, após três meses no cargo. Ele também foi ministro de Bouteflika em várias ocasições e ocupou outros postos no governo.

O presidente eleito da Argélia, Abdelmadjid Tebboune, durante entrevista coletiva após sua vitória ser anunciada
O presidente eleito da Argélia, Abdelmadjid Tebboune, durante entrevista coletiva após sua vitória ser anunciada - Ryad Kramdi/AFP

O político foi eleito no primeiro turno com 58,15% dos votos, segundo o presidente da Autoridade Nacional de Eleições, Mohamed Charfim, em uma eleição na quinta-feira (12) marcada por forte abstenção e pela continuidade das manifestações, inéditas desde a independência da Argélia, em 1962. 

Após o anúncio da vitória, Tebboune ​chamou os opositores ao diálogo, dizendo que estendia sua mão para “abrir uma nova página” com eles. Ele afirmou ainda que iniciaria consultas para uma nova Constituição, a ser aprovada por referendo. 

Mas os apoiadores do movimento "Hirak", que têm ido às ruas toda sexta-feira, veem Tebboune como parte da mesma elite apoiada por militares que governa a Argélia há décadas.

Horas depois de conhecidos os resultados, uma multidão invadiu as ruas de Argel, apesar da forte presença policial. Os participantes eram de todas as idades e condições sociais e se mobilizavam pela 43ª vez desde o início dos protestos, em 22 de fevereiro. “O país é nosso e fazemos o que queremos”, cantavam.

Protesto em Argel após o anúncio da eleição de Abdelmadjid Tebboune; cartaz diz "Não é meu presidente"
Protesto em Argel após o anúncio da eleição de Abdelmadjid Tebboune; cartaz diz "Não é meu presidente" - Ryad Kramdi/AFP

Eles exigem a saída de todos os partidários ou colaboradores de Buteflika durante seus 20 anos de mandato. 

No Twitter, a hashtag do dia era "#Hirak continua", que serviu para lançar uma campanha sob o lema "Tebboune não é meu presidente". 

A Autoridade Nacional Eleitoral indicou que a participação foi de 39,83%, a mais baixa da história, dez pontos a menos do que as eleições de 2014, nas quais Buteflika conseguiu seu quarto mandato. 

Após uma primeira tentativa de eleições abortada em julho, a cúpula das Forças Armadas, pilar do regime, sabia que tinha que organizar o novo pleito para superar a crise político-institucional do país, que tem agravado a situação econômica.

O islamita Abdelkader Bengrina, 57, cujo partido apoiou a presidência de Tebboune, terminou em segundo lugar (17,38%). 

Ali Benflis, primeiro-ministro de Buteflika entre 2000 e 2003 e que foi seu principal adversário eleitoral nas eleições de 2004 e 2014, obteve o terceiro lugar (10,55%).

O quarto lugar (7,26%) ficou para Azzedine Mihubi, líder da União Nacional Democrática (RND), principal aliada da Frente de Libertação Nacional (FLN) de Buteflika. 

A primeira reação estrangeira foi do presidente francês, Emmanuel Macron, que pediu às autoridades para estabelecer um diálogo com o povo argelino.

Os Estados Unidos afirmaram que apoiavam o direito dos argelinos de "expressar pacificamente suas opiniões". "Há um ano, o povo argelino expressou suas aspirações não só nas urnas, como também as ruas", declarou a porta-voz da diplomacia americana, Morgan Ortagus. "Estamos desejando trabalhar com o presidente eleito, Abdelmadjid Tebboune, para promover a segurança e a prosperidade na região."

Membro do Comitê Central da Frente de Libertação Nacional (FLN), antigo partido único, Tebboune é o primeiro presidente da Argélia que não ostenta o título de ex-combatente da guerra de independência contra o poder colonial francês (1954-1962).

Produto da elite do país, é descrito como um burocrata sem carisma nem dotes de oratória e nunca antes tinha sido candidato.

Durante seu breve mandato como primeiro-ministro, investiu contra os oligarcas que gravitavam em torno do chefe de Estado, tributários de enormes contratações públicas. Muitos deles hoje estão presos, acusados de corrupção.

Mas o entorno de Tebboune não escapa dos casos de improbidade: um de seus filhos está preso por tráfico de influência, num caso relacionado com a apreensão de 700 kg de cocaína em um porto em maio de 2018.

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