Descrição de chapéu The New York Times

Inflação, secas e ciclone levam Zimbábue a mais grave crise de fome no sul da África

Segundo especialista, 60% dos 14 milhões de habitantes do país estão 'em insegurança alimentar'

Harare (Zimbábue) | New York Times News Service

As pessoas fizeram fila cedo para ter a chance de comprar farinha de milho subsidiada no depósito do Conselho de Comercialização de Grãos, administrado pelo governo, em Harare, a preços que podiam pagar. Depois de três horas, um guarda apareceu e anunciou que o suprimento do depósito estava podre e não haveria vendas naquele dia. A multidão reagiu com descrença e raiva.

"A vida está difícil. Tudo é caro, não há controle de preços e a inflação continua piorando", disse Benjamini Dunha, 57, encanador que ganha ZW$ 700 (dólares do Zimbábue) por mês —cerca de US$ 38 na taxa de câmbio oficial, ou R$ 153. Menos de um ano atrás, seu salário valia muito mais, perto de US$ 700 (o equivalente a R$ 2830).

Doação de alimentos em Mutoko, zona rural do Zimbábue
Doação de alimentos em Mutoko, zona rural do Zimbábue - Jekesai Njikizana-13.mar.19/AFP

Outro comprador, Nyasha Domboka, 52, reagiu com desconfiança por ter visto um caminhão cheio de farinha de milho no estacionamento. "Como é possível dizer que a farinha embalada recentemente estragou de repente?", perguntou.

Uma combinação de governo disfuncional, colapso econômico, secas e um ciclone calamitoso em março levaram o Zimbábue a uma fome desastrosa que se tornou a mais grave no sul da África e uma das mais alarmantes do mundo. Embora a comida ainda não seja totalmente escassa, está se tornando inacessível para a população, exceto para poucos privilegiados.

"Não posso enfatizar suficientemente a urgência da situação no Zimbábue", disse Hilal Elver, especialista independente da ONU em direitos humanos e segurança alimentar, depois de uma visita de dez dias em novembro.

Segundo Elver, 60% dos 14 milhões de habitantes do país estão "em insegurança alimentar, vivendo em famílias que não conseguem obter comida suficiente para atender às necessidades básicas".

A fome na África é um problema generalizado, mas no Zimbábue, antes conhecido como o celeiro do continente, foi agravada pela disfunção que deixou o país em sua mais grave crise econômica em uma década. A taxa de inflação anual, que o Fundo Monetário Internacional chamou de a mais alta do mundo, é de 300%.

A farinha de milho, item básico na dieta do Zimbábue, dobrou de preço em novembro, para ZW$ 101 por saco de 10 quilos. Hoje já custa ZW$ 117. No início de dezembro, uma garrafa de dois litros de óleo de cozinha custava ZW$ 59. Hoje vale mais de ZW$ 72.

"O dinheiro daqui não tem mais valor", disse Dunha, que tem oito filhos. Tudo o que eles podem se dar ao luxo de comer, explicou, são legumes e sadza, um mingau grosso de farinha de milho cozida.

Gerald Bourke, porta-voz das operações da África Austral do Programa Mundial de Alimentos, a agência antifome da ONU, disse que até recentemente 60% de sua assistência aos zimbabuanos era em forma de dinheiro, mas que os receptores não querem mais ser auxiliados dessa maneira. "A inflação é um problema desenfreado, e as pessoas disseram: 'Preferimos comida'", disse.

Em janeiro, afirma ele, o órgão pretende mudar para um "programa alimentar totalmente em espécie" pela primeira vez no Zimbábue, distribuindo rações mensais de grãos, óleo e suplementos nutricionais para crianças menores de cinco anos. A agência também dobrará o número de destinatários, para 4 milhões.

"Este é certamente o pior caso que vimos no sul da África", disse Bourke durante uma visita de campo em meados de dezembro à capital, Harare. Embora os casos de fome aguda não sejam incomuns na zona rural do Zimbábue, "isso é visto nas cidades agora", disse ele. "Pessoas famintas do campo estão se mudando para as cidades" em busca de comida.

O ministro das Finanças, Mthuli Ncube, afirmou na última sexta-feira (20) que o governo gastaria ZW$ 180 milhões por mês em subsídios, como parte de um esforço para manter estável o preço da farinha de milho.

Mas, para muitos zimbabuanos, existe o medo de que o problema da inflação retorne ao nível de uma década atrás, quando uma compra de mantimentos exigia carrinhos de mão cheios de dinheiro. Mesmo agora, comprar qualquer coisa além da farinha de milho é considerado um luxo.

"Costumávamos comprar comidas especiais, como sorvete, queijo, bacon, salsichas e presunto, e preparar um bom café da manhã para nossas famílias", contou Moreblessing Nyambara, 35, uma professora de  Harare. "Essas coisas são uma visão do passado agora."

Muitos historiadores atribuem a situação do Zimbábue ao legado de Robert Mugabe, o pai da independência em 1980. Ícone do anticolonialismo africano, Mugabe tornou-se um déspota e presidiu o declínio da que havia sido uma das terras mais prósperas da África. Ele foi deposto em 2017 e morreu em setembro, aos 95 anos.

Qualquer esperança de que o ex-aliado e sucessor de Mugabe, Emmerson Mnangagwa, pudesse reanimar a economia do Zimbábue desapareceu quase completamente.

Em junho, Mnangagwa anulou uma política de dolarização, na qual o dólar americano e outras moedas estrangeiras foram usadas como moeda corrente. Essa política foi introduzida em 2009 e ajudou a encerrar uma era de hiperinflação, que tornara o dólar do Zimbábue menos valioso, literalmente, do que o papel em que era impresso.

Mas uma versão recém-introduzida do dólar do Zimbábue despencou em valor, aumentando drasticamente os preços dos produtos cotados na moeda.

Os estrangeiros estão relutantes em investir no Zimbábue, apesar da afirmação de Mnangagwa de que o país está "aberto para negócios". As vendas de exportação e as remessas da diáspora do Zimbábue, importantes fontes de dólares americanos necessários para importar alimentos e combustível, caíram.

Mnangagwa rejeitou pedidos para restaurar a dolarização. "Nenhuma nação progressista pode avançar sem sua própria moeda", disse ele aos membros do partido governante ZANU-PF, em sua conferência anual em meados de dezembro. "Não vamos voltar atrás."

Ainda assim, por enquanto, o problema da inflação permanece menos grave do que o que predominou há mais de uma década. Naquela época, os preços dobravam diariamente, chegando a um ponto em que uma única folha de papel higiênico duplo custava quase o equivalente a uma nota de ZW$ 500, então a menor em circulação. Essa comparação gerou piadas sombrias sobre um melhor uso da moeda.

Hoje, 4 milhões de zimbabuenses não estão muito longe da penúria, de acordo com uma escala usada internacionalmente para classificar a gravidade da insegurança alimentar e da desnutrição. Nas cinco fases da escala, a Fase 1 é mínima e a Fase 5 é penúria. Bourke, porta-voz do programa, disse que os zimbabuenses mais famintos estão agora na Fase 3 ou na Fase 4.

Com a última colheita de milho do Zimbábue reduzida pela metade em comparação com a do ano anterior por causa da seca, disse ele, a ajuda continuará até pelo menos o final de abril, quando deve ocorrer a próxima colheita. Mas ele não estava otimista. "Os meteorologistas dizem basicamente que estamos vendo uma estação de cultivo muito seca", disse Bourke.

Ursula Mueller, vice-coordenadora de assistência de emergência da ONU, que visitou o Zimbábue em junho, disse que as dificuldades do país estão parcialmente ligadas a uma crise climática mais ampla na África austral, que se espalhou por todas as facetas da vida.

A seca gera menos alimentos, o que, por sua vez, provoca declínios na saúde e na educação e aumentos da criminalidade e de outros "mecanismos negativos de reação", afirmou. "Esta não é apenas uma crise alimentar, é uma situação mais ampla e complexa", disse, em entrevista por telefone. "As pessoas têm que fazer escolhas: busco tratamento para o HIV ou comida?"

Mueller também disse que um orçamento humanitário da ONU para o Zimbábue recebeu apenas a metade dos quase US$ 468 milhões solicitados, forçando seu escritório a mergulhar em outros fundos de emergência. A ajuda humanitária da ONU é financiada quase inteiramente por contribuições voluntárias.

Além da assistência imediata, disse Mueller, são necessários mais investimentos para abordar as causas profundas dos problemas no Zimbábue e em outros países com maior potencial de autossuficiência.
"Precisamos sair desse ciclo de dependência", disse ela. Caso contrário, "os humanitários se verão em situações prolongadas por anos".

 

Tradução de Luiz Roberto Mendes Gonçalves 

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