Descrição de chapéu The Washington Post Venezuela

Maduro tenta se afastar de políticas socialistas que regulavam itens básicos na Venezuela

Dolarização da economia ajuda a ampliar oferta de comida e ameniza um pouco a grave crise do país

Caracas | The Washington Post

No Natal do ano passado, a Venezuela devastada teve escassez de tudo, de enfeites natalinos a papel higiênico. Neste ano, o governo socialista deu um presente inesperado ao país cansado: uma dose de livre mercado.

O ditador Nicolás Maduro está tentando se afastar das políticas socialistas que antes regulavam os preços dos produtos básicos, tributavam fortemente as importações e restringiam o uso do dólar. Em consequência, a queda livre econômica da nação sul-americana está começando a desacelerar. A inflação nacional, que ainda é a mais alta do mundo, diminuiu de 1,5 milhão por cento no ano passado para uma taxa anual relativamente branda de 15.000%.

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Produtos importados à venda em loja de Caracas - Andrea Hernandez Briceno/The Washington Post

As mudanças podem ser temporárias e equivalem em grande parte a uma espécie de curativo econômico. Não há sinais, por exemplo, de uma estratégia mais ampla para reverter a apropriação de terras agrícolas e o confisco de empresas que ajudaram a criar as bases para uma das piores implosões econômicas dos tempos modernos.

À medida que as novas medidas se firmam, entretanto, as prateleiras antes vazias transbordaram de carne bovina, frango, leite e pão —embora a preços tão altos que um segmento significativo da população está na verdade em pior situação.

Os venezuelanos mais endinheirados, porém, estão lotando dezenas de lojas especializadas recém-inauguradas —incluindo pelo menos um falso Walmart— , repletas de pilhas de salgadinhos americanos, nacos de presunto italiano e caixas de azeite de oliva Kirkland Signature, na maior parte comprados e enviados à Venezuela em contêineres da Costco e outros atacadistas de Miami.

Maduro permanece em um impasse político com o líder da oposição, Juan Guaidó, e seus apoiadores em Washington, que aumentaram a pressão para forçar a derrubada do presidente. Mas as sanções dos EUA contra a Venezuela não parecem ter prejudicado o aumento das importações, principalmente porque impedem os americanos de fazer negócios apenas com o governo venezuelano, e não com cidadãos privados.

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Mulher olha vitrine em shopping de Caracas - Andrea Hernandez Briceno/The Washington Post

"O governo não conseguiu revigorar a economia de outra maneira, por isso está fazendo o que as pessoas querem" cedendo ao mercado livre, disse Ricardo Cusano, presidente da Fedecamaras, câmara de comércio da Venezuela. Os socialistas ainda estão no poder, disse ele, "mas perderam a guerra ideológica".

Atormentados pela hiperinflação e pelo colapso econômico, os venezuelanos deprimidos apelidaram essa época em dezembro passado de "Natal sem luzes" —um dia em grande parte desprovido das tradicionais decorações e brinquedos para as crianças. Mas enquanto a economia começa a dar modestos sinais de vida —particularmente na bolha relativa de Caracas, a capital— , há mudanças visíveis nas ruas.

Escassos mercados de Natal se abriram para vender bugigangas para uma população um pouco mais otimista. Mais decorações natalinas apareceram nas lojas, juntamente com pais comprando brinquedos e roupas para crianças, segundo os proprietários. A capital sofre seus piores congestionamentos de tráfego em anos, pois os donos de carros com maior acesso a peças de reposição importadas arrastam veículos há muito tempo parados para as ruas entupidas.

As restrições alegraram a temporada de festas para uma pequena minoria de venezuelanos ricos, muitos dos quais vivem em mansões atrás de muros altos na zona leste de Caracas.

"Havia coisas que você simplesmente não conseguia —pratos que eram impossíveis de fazer", disse Pablo Gianni, gerente do Anonimo, restaurante luxuoso de Caracas inaugurado neste mês, com adega de paredes de vidro forradas de prateleiras com safras especiais de Dom Pérignon.

"Agora é como contrabando legal", disse ele. "Eles estão deixando entrar de tudo."

As mudanças que ocorrem aqui são o produto de uma combinação de fatores. Durante anos, o governo limitou estritamente o uso do dólar americano, retratado por muito tempo como um "instrumento do imperialismo ianque". Mas no ano passado o governo liberou a taxa de câmbio e as transações em dólar legalizadas de maneira mais ampla. Também eliminou enormes impostos de importação sobre uma série de mercadorias.

Mas essas medidas começaram a afetar realmente a economia apenas nos últimos meses, já que o governo deu o passo adicional de abandonar o controle dos preços no varejo. Os estoques de pão, frango e carne bovina que antes eram vendidos por quase nada agora são comercializados a preços de mercado, normalizando parcialmente a produção e as vendas agrícolas através das cadeias de suprimentos.

Tão importante quanto isso, hoje há simplesmente muito mais dólares na economia venezuelana. Cerca de 4,5 milhões de venezuelanos fugiram da fome e da pobreza nos últimos anos, criando uma diáspora global que enviou US$ 3,5 bilhões (cerca de R$ 14,2 bi) em remessas neste ano —mais que o triplo do valor de dois anos atrás, segundo a Ecoanalitica, empresa de análise econômica de Caracas. Além disso, dizem os economistas, a economia está inundada de dólares da mineração ilegal, do tráfico de drogas e outras atividades ilícitas.

Segundo algumas estimativas, há três vezes mais dólares em circulação do que bolívares —a moeda local— , criando uma dolarização de fato da economia que está estabilizando a inflação.

No mês passado, até Maduro pareceu saudar o todo-poderoso dólar. "Não acho tão ruim o processo que eles chamam de dolarização", disse ele em rede nacional de TV. "Pode ajudar na recuperação das áreas produtivas do país e no funcionamento da economia."

Em toda a Venezuela, mecânicos e eletricistas, engenheiros e arquitetos estão cobrando cada vez mais em dólares. Mais empresas complementam os salários de seus funcionários com moeda americana.

Coletivamente, dizem os economistas, 60% a 70% das famílias aqui hoje recebem regularmente alguns dólares —que compraram um Natal mais alegre neste ano, até para alguns venezuelanos de renda mais baixa.

"O ano passado foi muito difícil para nós. Praticamente não houve Natal", disse Yelitza Mineros, 33, enquanto observava os preços em dólares em uma loja de brinquedos de Caracas com seu filho de 7 anos e a filha de 3.

Seu marido, mecânico, começou a ganhar em dólares há alguns meses, disse ela, dando-lhes o dinheiro extra necessário para comprar roupas novas para as crianças.

Seu filho, Rodrigo, mostrou com um grande sorriso uma figura de ação do Homem-Aranha, enquanto ela falava.

"Este ano estamos melhorando e podemos comprar brinquedos para eles", disse a mãe. "Isso me dá muita alegria."

A Venezuela continua profundamente atolada na pior crise econômica da história moderna da América Latina. Anos de má administração crônica e, em menor grau, sanções dos EUA, incluindo um embargo ao petróleo, danificaram gravemente a força vital da economia: a produção de petróleo.

Os venezuelanos, incluindo os residentes da capital relativamente protegida, estão lutando com o agravamento da escassez de gasolina, apagões persistentes e hospitais públicos falidos.

E mais comida nas prateleiras das lojas não significa que todos possam comer. No oeste de Caracas, por exemplo, uma mercearia que no ano passado vendia produtos com preços controlados e sofria com a escassez estava agora bem abastecida de mercadorias que variavam de capacetes de motocicleta importados a Coca-Cola diet. Mas com duas coxas de frango a US$ 1,70 e manteiga a US$ 2 em um país com um salário mínimo de US$ 6 por mês os corredores estavam praticamente sem compradores.

Para os venezuelanos mais pobres, sem acesso a dólares, a vida é mais difícil. Mariutka Oropeza, 54, que vive com seus três filhos adultos em um pequeno apartamento no leste de Caracas, tem lutado para pagar remédios e tratamento para sua artrite, hipertensão e câncer uterino. Ela ficou chocada recentemente ao descobrir que uma de suas novas prescrições estava custando US$ 70 por caixa --muito fora do alcance de uma família com renda familiar de US$ 30 por mês.

Sua família antes sobrevivia esperando durante horas em filas por mercadorias regulamentadas. Mas agora que o governo parou de impor preços um saco de fubá que antes custava 25 centavos hoje custa quatro vezes mais.

"É doloroso", disse Oropeza. "As pessoas dizem: 'Oh, estamos melhorando um pouco' porque muitas delas recebem dinheiro de parentes no exterior. Mas, meu Deus, não estamos melhorando nada."

"Lembro-me de quando esse governo começou e chamou o dólar de grande inimigo. Veja aonde eles nos trouxeram agora", disse ela. "A dolarização do país. O que eles estão realmente fazendo é nos matar."

Tradução de Luiz Roberto Mendes Gonçalves 

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