Nunca fui censurado, diz britânico autor de cartuns em Hong Kong

Harry Harrison publica charges há 25 anos no principal jornal de língua inglesa da região, o South China Morning Post

Hong Kong

“Celebridades são os cartunistas chineses que trabalham aqui. Eu posso pegar o avião a qualquer momento e ir embora. Eles, não.”

A frase é do mais festejado autor de cartuns políticos de Hong Kong, o britânico Harry Harrison, que há 25 anos tem seu trabalho publicado no principal jornal de língua inglesa da cidade, o South China Morning Post.

Em 2016, após 13 anos nas mãos de um magnata do mercado imobiliário malaio, o grupo controlador do Post foi comprado pelo gigante de comércio eletrônico chinês Alibaba. O movimento levou a temores imediatos de uma posição menos crítica a Pequim no diário.

Homem branco, calvo e de barba branca segura jornal impresso aberto, mostrando suas charges
O cartunista Harry Harrison mostra páginas do South China Morning Post com seus trabalhos na ilha de Lamma, em Hong Kong - Igor Gielow/Folhapress

“Curiosamente, foi o contrário. Ganhamos mais liberdade ainda. Nunca fui censurado, até porque sei quando estabelecer limites”, conta Harry —como ele é conhecido e assina seus desenhos.

 
Houve algumas controvérsias desde então, mas no geral ativistas pró-democracia de Hong Kong veem o Post com bastante simpatia. Há seis meses a região é convulsionada por protestos contra o governo pró-Pequim, incitados por uma proposta de lei facilitando a extradição de locais para o gigante comunista. 

Dono de um traço que remete à sua maior influência, o britânico Ronald Searle (1920-2011), ele reverencia a coragem de criticar o governo pró-Pequim da antiga colônia britânica de seus colegas com passaporte chinês.

Cita por exemplo Zunzi, pseudônimo de Wong Kei-kwan, que publica desenhos ácidos nos jornais do grupo Ming Pao, um dos maiores de língua chinesa baseado fora da China continental.

personagens conversam o diálogo da legenda
"Você acha que haverá pessoas demais no Distrito Histórico Central?", pergunta o personagem da esquerda. "Não depois de todo mundo ver como a Secretaria de Urbanismo arruinou o lugar" - Reprodução/South China Morning Post

A vida dos jornalistas não tem sido fácil com a crise. Segundo a Associação dos Jornalistas de Hong Kong, há autocensura e o problema da violência policial —a entidade, que recebe em média 30 queixas mensais de abusos e prisões arbitrárias, está processando o governo local.

Harry diz não sofrer pressão, mas tem os seus métodos de controle. Assim como seus colegas no mundo todo, estabelece uma gradação na oferta de cartum político, sempre em preto e branco, que faz aos editores do Post.

“Mando uma proposta 'hardcore', que sei que não vai ser publicada. Outra intermediária, que costuma ganhar, e um cartum 'kitten' [gatinho, em inglês], fofinho, peludinho e inócuo. O problema é que às vezes escolhem o 'kitten'”, ri.

"Eu desfiz minha amizade com a Cambridge Analytica", diz personagem com aparência similar à de Mark Zuckerberg, fundador do Facebook
"Eu desfiz minha amizade com a Cambridge Analytica", diz personagem com aparência similar à de Mark Zuckerberg, fundador do Facebook - Reproducão/South China Morning Post

O cartum é usualmente selecionado por Tammy Tam, a editora-chefe do jornal. “Eu recebo um resumo das notícias do dia lá pelas 17h, envio minhas propostas até umas 19h e o desenho final pode ir até o fechamento, às 23h30. Às vezes, faço em 20 minutos”, diz.

Como lida com crises criativas? Com um copo de cerveja na mão, Harry sorri, mas depois fala sério. “Eu toco meu uquelele [uma espécie de cavaquinho] até ter a ideia”, diz.

A música é sua segunda paixão: toca guitarra e violão numa banda que montou com amigos, a Midlife Crisis Cowboys —caubóis da crise da meia-idade, embora Harry já tenha avançado algumas casas e esteja com 58 anos. 

"Algo para aplacar sua sede?", diz Xi Jinping, líder do regime chinês; "Você tem petróleo?", responde Kim Jong-un, ditador da Coreia do Norte
"Algo para aplacar sua sede?", diz Xi Jinping, líder do regime chinês; "Você tem petróleo?", responde Kim Jong-un, ditador da Coreia do Norte - Reprodução/South China Morning Post

Ele mora em Lamma, uma ilhota de 5.000 habitantes a 25 minutos de balsa do centro de Hong Kong, e é popular como um vereador. No restaurante local onde conversa com a Folha, de tempos em tempos alguém lhe dá um oi.

Ele carrega o sotaque marcado de sua Uxbridge, subúrbio no noroeste de Londres. Em 1990, enquanto fazia um “mochilão” pela Ásia, ele ficou sem dinheiro na Tailândia.

“Vim para Hong Kong porque aqui poderia trabalhar por ser inglês. Era designer de interiores antes e fazia de tudo. Até ganhei 400 dólares de Hong Kong para fazer um bico num filme do [astro de kung fu] Jackie Chan”, diz.

Foi ali que encontrou Helena, sua mulher. Voltaram para o Reino Unido, moraram na Índia até que, em 1994, o casal se mudou de vez para uma Hong Kong já na contagem regressiva para voltar para o domínio chinês, três anos depois.

“Quando houve a devolução, tudo continuou como era antes. Fui trabalhar no Post e lá estou até hoje. Houve momentos de maior tensão, mas nada parecido com o que está acontecendo agora. É bastante impressionante”, afirma.

Uma filha de 21 anos estuda moda em Londres, e o filho de 22 voltou para Hong Kong recentemente. “Ele é estagiário numa seção do Post que lida com artes gráficas. Acho ótimo, finalmente ele não vai me pedir dinheiro nesta semana”, brinca.

O cartunista não é exatamente otimista ao falar no futuro da região, e evita prognósticos sobre a crise atual. “Prefiro tocar música”, diz ao levantar-se, pegar o amplificador que havia deixado no chão e pedir licença porque precisa se preparar para o show do sábado à noite.

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