Putin é ambíguo sobre mudar Constituição para tentar ficar no cargo

Em entrevista anual, presidente da Rússia confundiu aliados e adversários ao falar sobre o tema

São Paulo

Durante sua tradicional entrevista coletiva de fim de ano, o presidente russo, Vladimir Putin, exerceu com maestria um dos esportes que lhe são mais caros: o de confundir aliados e adversários na mesma medida.​

Ele se esquivou de responder diretamente sobre os planos para depois de 2024, quando terá de deixar o cargo sem poder concorrer diretamente a uma nova reeleição.

Em troca, apresentou uma fala ambígua sobre a possibilidade de alterar a Constituição sobre o tema —sem que a plateia soubesse o que ele estava querendo dizer.

"Uma coisa que pode ser mudada sobre os mandatos [presidenciais] é remover a cláusula sobre serem sucessivos. Seu humilde servo serviu dois termos consecutivos, aí deixa o posto, mas com o direito constitucional de voltar ao cargo de presidente porque os dois termos não foram sucessivos. [A cláusula] incomoda alguns dos nossos analistas políticos e figuras públicas. Bem, ela pode ser removida."

Com jornalistas mostrando cartazes para pedir a palavra, Putin ouve questão em entrevista
Com jornalistas mostrando cartazes para pedir a palavra, Putin ouve questão em entrevista - Alexandre Nemenov/AFP

Os analistas políticos provocados por Putin ficaram atônitos. Para a maioria dos nomes próximos do Kremlin ouvidos pela imprensa russa, o que o presidente quis dizer foi uma defesa de que só seja possível disputar uma reeleição, ao estilo americano.

Mas a fala pode ser lida, por ser um comentário impreciso, como uma defesa da retirada da limitação de reeleições como um todo. Pela Constituição russa, um presidente que foi reeleito pode concorrer de novo se esperar os seis anos do mandato de seu sucessor.

Putin fez isso quando o termo era de quatro anos, em 2008, e ele já tinha sido reeleito uma vez. Viu a vitória do protegido Dmitri Medvedev e passou a governar de fato da cadeira de primeiro-ministro. Do ponto de vista de imagem, respeitou a Constituição, apesar da popularidade enorme que já tinha.

Em 2012, elegeu-se, quando a duração do mandato já havia sido estendida por lei para seis anos.

Em 2018, reelegeu-se novamente, de forma consagradora —embora desde então enfrente grandes dificuldades internas, como uma impopular reforma da Previdência e a crise econômica que não cede.

Em uma entrevista ao canal estatal Rússia 1 após o evento, Putin minimizou seu comentário, dizendo que era apenas uma observação sobre a Constituição.

Ele também defendeu mais poder para o Parlamento, hoje na prática um cartório do Kremlin.

O futuro do líder russo, no poder desde que ascendeu ao cargo de primeiro-ministro em 1999, é o maior segredo político da Rússia hoje.

Tudo já foi especulado: desde uma união que a Belarus não deseja para tornar-se presidente de uma nova nação até a simples mudança legal, passando pela criação de um novo cargo quase imperial. 

Ao manter o suspense, o mandatário máximo suspende as especulações que poderiam o tornar um "pato manco", ou seja, um presidente sem poder.

Nenhum político hoje tem densidade para fazer frente a Putin, enquanto as oposições fazem barulho em manifestações, mas não produziram nenhum líder viável dentro do sistema partidário.

Com a economia letárgica e aumento da reprovação, contudo, crescem as suposições sobre o que acontecerá. Significativamente, este ano foi um dos mais bem-sucedidos de Putin em sua assertiva política externa, sinal de que tal virtude não encanta mais tanto o eleitorado.

Na entrevista, um ritual que ocorre desde 2001, com exceção do hiato de sua fase como premiê de Medvedev, Putin respondeu a perguntas entre recordistas 1.895 jornalistas locais e estrangeiros credenciados.

O porta-voz Dmitri Peskov escolhe quem fará questões na plateia, entre os que levantam a mão e mostram cartazes chamando a atenção para o veículo que representam.

Foram 4h19min de fala, a maior parte do tempo dedicada a temas domésticos comezinhos —ninguém espera questões muito duras nesse tipo de evento.

Algumas perguntas mais incômodas surgiram, em especial sobre a relação com líderes estrangeiros, mas Putin foi olímpico.

Disse que não tinha preocupações com o novo premiê britânico, Boris Johnson, que já o comparou a um elfo da série Harry Potter, e foi claro ao apontar a instalação de defesa antimíssil americana no Japão como fator de preocupação.

Sobre o eterno tema da suposta interferência na eleição de Donald Trump nos EUA em 2016, ele voltou a dizer que as alegações são invenções de um Partido Democrata inconformado com a derrota.

Reafirmou também que a Rússia está pronta para renovar, no ano que vem, o principal acordo que limita o número de armas nucleares com os americanos.

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