Descrição de chapéu Brexit

Vantagem de Boris cai, e Reino Unido pode ter novo impasse

Conservadores mantêm dianteira, mas ela diminui de 68 para 28 lugares à véspera da eleição

Londres

A oposição avançou na tentativa para impedir que o primeiro-ministro britânico, Boris Johnson, assegure maioria nas cadeiras do Parlamento na eleição desta quinta (12).

Pesquisa do instituto YouGov projeta que a vantagem do Partido Conservador caiu de 68 para 28 deputados à véspera da eleição, o que pode levar a novo impasse no Legislativo britânico.

O primeiro-ministro britânico, Boris Johnson, carrega uma caixa de leite para entregar aos clientes em Greenside Farm, em Leeds - Ben Stansall - 11.dez.2019/AFP

Foi a falta de uma maioria clara que aprovasse seu acordo para o brexit que levou Boris a antecipar a eleição, antes marcada para 2022.

Feita a partir de 105.612 entrevistas de 4 a 10 de dezembro, a pesquisa do YouGov é considerada mais precisa, porque consegue estimar o número de eleitos e não apenas a intenção de voto do partido (no sistema britânico, é eleito o deputado mais votado em cada distrito).

O instituto previu corretamente os resultados das eleições de 2017, convocadas pela então primeira-ministra Theresa May também para tentar resolver um impasse no Parlamento. Na ocasião, os Conservadores passaram de 330 para 317 cadeiras —são necessárias 326 para a maioria.

Na nova pesquisa, que adota técnicas estatísticas mais precisas que as de dois anos atrás, os conservadores ficam com 339 cadeiras, os trabalhistas com 231, os nacionalistas escoceses com 41 e os liberais democratas, com 15.

Com a margem de erro, Boris pode eleger de 311 a 367 representantes, o que não afasta a possibilidade de que o primeiro-ministro assegure maioria. Dependendo do número de votos que obtiver, ele pode até mesmo ter que renunciar, o que o tornaria o mais breve primeiro-ministro da história do país (Boris assumiu em julho deste ano).

Se vencer as eleições, ele terá pouco mais de um mês para formar o governo e aprovar seu acordo para o brexit no Parlamento antes da data prometida, 31 de janeiro.

Os conservadores avançaram em regiões do centro e do norte da Inglaterra, onde até 70% dos britânicos votaram pelo brexit no referendo de 2016, mas perderam terreno para os trabalhistas no sul do país e em Londres.

A oposição tem travado batalhas principalmente nos distritos chamados "marginais" (em que conservadores lideram por poucos votos) e cresceram os apelos pelo voto útil.

A pesquisa mostra recuos também na Escócia, onde forte campanha dos nacionalistas (SNP) pode conquistar cinco cadeiras que eram antes conservadoras. Os escoceses são majoritariamente a favor da permanência do Reino Unido na União Europeia e o SNP prometeu novo referendo sobre a independência escocesa se Boris conseguir implantar o brexit.

Segundo o diretor de pesquisas eleitorais do YouGov, Anthony Wells, os levantamentos da última quinzena mostraram um recuo progressivo tanto no número de cadeiras dos conservadores quanto em sua margem de liderança sobre a oposição.

Campanha de rua

"Não é apenas para tirar Boris Johnson do Parlamento. É para trazer esperança ao Reino Unido", diz Joe Zupir, 31, enquanto faz campanha para o Partido Trabalhista na porta da estação de metrô de Uxbridge, na região oeste de Londres, às 17h desta quarta-feira (11).

Campanhas na rua são praticamente inexistentes nas eleições do Reino Unido, mas Zupir diz que tem vindo para a porta da estação no último mês, ao sair de seu trabalho, porque os resultados desta quinta podem mudar os rumos do país.

Analistas eleitorais têm dito à mídia britânica que o trabalhista Ali Milani tem chances concretas de derrotar Boris em seu distrito. 

Para tirar Boris do Parlamento, opositores fazem até campanha para que donos de casas-barco —que têm mais flexibilidade para escolher em que distrito votar—​ registrem-se em Uxbridge.

Mesmo que o trabalhista Milani vença, porém, a batalha da oposição pode não ser recompensada, segundo o professor da Universidade College London, Robert Hazell, entrevistado pela BBC.

Hazell diz que não há regras pré-definidas sobre quem pode ou não ser primeiro-ministro (o Reino Unido se baseia em jurisprudência e consenso nas regras legais), o que deixaria aberta uma porta para Boris, mesmo que ele perca em seu distrito.

O professor cita o exemplo de Alec Douglas Home, que governou o país em 1963 e 1964.

Home era membro da Câmara dos Lordes (a Câmara Alta do Parlamento, que tem apenas itegrantes não-eleitos e, por isso, tem poderes bastante restritos) quando foi escolhido como primeiro-ministro, mas renunciou ao cargo e concorreu a uma eleição para a Câmara dos Comuns (semelhante à Câmara dos Deputados e principal órgão legislativo do país). 

Entre a renúncia e a nova eleição, governou o país sem pertencer a nenhuma das duas Casas do Parlamento.

Hazell afirma, porém, que mesmo com a ausência de um impedimento legal é difícil saber se essa opção seria politicamente aceitável hoje em dia.


Entenda a eleição no Reino Unido

Como funciona a eleição britânica?
O Reino Unido usa um sistema distrital puro. Isso significa que cada um dos 650 distritos elege o candidato mais votado para representá-lo, por um mandato de cinco anos. A eleição pode ser antecipada, o que costuma ocorrer quando há impasse no Parlamento. É o caso desta, que estava prevista para 2022.

Por que as eleições foram convocadas?
Porque Boris não conseguiu aprovar seu acordo para o brexit e agora tenta ampliar sua maioria para assegurar a votação e declarar finalmente a saída do Reino Unido da União Europeia. Se tiver sucesso, o país se separa em 31 de janeiro e inicia uma longa temporada de negociações sobre vários temas, como comércio exterior e regulações. O Partido Trabalhista, o maior da oposição, é contra o acordo negociado por Boris e propõe discutir novos termos e submetê-los aos britânicos em novo referendo. Pesquisas mostram que o brexit ainda divide ao meio os britânicos; na Escócia, a maioria é a favor de permanecer na UE.

Quem ganha a eleição?
Quem obtém a maioria das cadeiras indica o primeiro-ministro. Nas últimas eleições, os principais partidos têm sido obrigados a formar coalizões com agremiações menores para governar. Até esta eleição, o governo de Boris Johnson era apoiado por uma coalizão com o partido norte-irlandês DUP —que, no entanto, discorda de termos do acordo do premiê sobre a Irlanda do Norte.

O impasse sobre o brexit pode continuar?
Sim. A maior parte dos analistas britânicos considera que essa será uma das eleições mais incertas da história recente do país. Dois cenários são mais prováveis: 1) os conservadores conquistam uma maioria (o que provavelmente acabaria com o impasse) ou 2) a votação termina sem maioria (o que deve manter a indefinição atual). Uma vitória trabalhista é considerada improvável no momento, mas existe a possibilidade de um governo de coalizão entre a sigla e os nacionalistas escoceses, além de outros partidos menores.

E o que vai acontecer com Boris Johnson?
Se os conservadores vencerem, ele deve deve permanecer no cargo, mas caso a oposição vença, caberá a ela indicar o novo primeiro-ministro —provavelmente o líder dos trabalhistas, Jeremy Corbyn.

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