África tenta coibir remédios falsos, que matam milhares e financiam terrorismo

Mais de 120 mil crianças morrem por ano por falsificação de drogas antimaláricas

Danielle Paquette
Lomé (Togo) | The Washington Post

Os comprimidos em geral chegam clandestinamente da China, da Índia e da Nigéria. São embalados como remédios para febre e erupções cutâneas. Eles pousam nas esquinas —às vezes à plena vista— e prometem aliviar o sofrimento por uma fração do custo.

Mas os medicamentos falsos matam dezenas de milhares de pessoas por ano em um comércio global de falsificações no valor estimado de US$ 200 bilhões (R$ 836,5 bilhões), impedindo o progresso na luta contra a malária e outras doenças que representam risco de morte, enquanto financiam o crime organizado, dizem especialistas.

O flagelo é particularmente alarmante na África Ocidental, cujas autoridades dizem que as imitações representam mais da metade das vendas de produtos farmacêuticos em áreas onde muitas pessoas não podem pagar por medicamentos receitados pelos médicos.

Foto de 2007 mostra remédios falsos queimados por oficiais na Nigéria; problema não é novo - Pius Utomi Ekpei - 1º.nov.07/AFP

"Você é pobre e gasta seu dinheiro em algo que vai matá-lo", disse Faure Gnassingbé, presidente do Togo, ao Washington Post, no palácio presidencial do país. "No entanto, isso não é tratado como crime."

O líder togolês recebeu seus colegas do Senegal e de Uganda no sábado (18), na capital Lomé, onde os presidentes propuseram novas leis para fortalecer a repressão coletiva ao tráfico. Representantes de Gana, Congo, Níger e Gâmbia também assinaram um pacto para aumentar o compartilhamento de informações e segurança nas fronteiras, entre outros esforços.

Vender drogas falsas é ilegal na maioria dos países, mas a fiscalização é irregular. Batidas em mercados, lojas, armazéns e fábricas na África Ocidental, há três anos, apreenderam mais de 41 milhões de comprimidos falsificados. Cerca de 150 pessoas foram presas por venderem uma mistura de comprimidos tóxicos ou inúteis, informou a Interpol.

Dignitários compareceram a Lomé na semana passada para uma cúpula sobre medicamentos falsificados, incluindo um membro da família real britânica, o príncipe Michael de Kent. Policiais armados patrulhavam em caminhonetes a cidade de cerca de 830 mil habitantes. Helicópteros zumbiam no alto. No entanto, as pessoas ainda vendiam caixas de antibióticos não verificados na rua.

Amele Louise Assogba, 49, costumava comprar com vendedores ambulantes pílulas para aliviar dor de cabeça e tosse persistente. Nas farmácias os remédios custam três vezes mais, disse ela.

"Eu precisava economizar dinheiro para meus filhos", afirmou a mãe togolesa de quatro filhos, que sustenta a família cozinhando para outras famílias do bairro.

Então, ela pegou gripe, comprou um remédio informal e foi parar no hospital para uma transfusão de sangue de emergência. Assogba se considera uma felizarda: pelo menos chegou a um médico em tempo.

Remédios à venda na rua em Lagos, na Nigéria - Pius Ytomi Ekpei - 11.jan.20/AFP

Cerca de 122 mil crianças morrem por ano no continente africano por causa de medicamentos antimaláricos falsos, estima a Fundação Brazzaville, um grupo de Londres dedicado ao assunto. Em algumas áreas, acredita-se que até 60% dos medicamentos vendidos sejam falsificados, disse a organização sem fins lucrativos.

"Esse tráfico abjeto gera enormes lucros para criminosos e terroristas, desestabilizando alguns dos países mais frágeis do mundo", disse Jean-Yves Ollivier, presidente da fundação, em um comunicado.

Há muito tempo que os produtos falsificados estão ligados a bandos criminosos, e estudos vinculam a venda de imitações a organizações terroristas que exploram o trabalho infantil. As remessas costumam passar por fronteiras porosas, dizem as autoridades, e incentivam a corrupção quando os traficantes subornam agentes aduaneiros.

As autoridades pretendem acabar com esse fluxo de renda em um momento em que a violência islâmica está aumentando na região do Sahel, na África Ocidental. Os ataques foram cinco vezes mais frequentes desde 2016.

Extremistas que professam lealdade ao Estado Islâmico e à Al-Qaeda tomaram lugares remotos do Mali, Níger e Burkina Faso. Esses militantes financiam a guerra com emboscadas perto das cidades e roubando gado, tomando garimpos de ouro e sequestrando pessoas por resgate, disseram as autoridades.

Eles também lucram com medicamentos falsificados, segundo Gnassingbé. "Os terroristas estão vivendo do tráfico de medicamentos falsos", disse o presidente togolês.

Tradução de Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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