Descrição de chapéu Brexit

Brexit entrará em vigor com ameaça ao balanço de poder na União Europeia

Alemanha e França se isolam à frente do projeto europeu após saída britânica, que ocorre na sexta

São Paulo

O brexit entrará em vigor nesta sexta-feira (31), após três excruciantes anos de negociações para que o Reino Unido deixasse de ser 1 dos 28 membros da UE (União Europeia). Seus impactos, contudo, ainda nem começaram.

Nesta quarta (29), o Parlamento Europeu sacramentou a saída, aprovando o acordo do brexit por 621 votos a 49, com 13 abstenções.

Ao fim, deputados cantaram o “Auld Lang Syne”, tradicional música de Ano Novo que marca despedidas (“Adeus, amor, eu vou partir...” é o começo da versão brasileira celebrizada pelo cantor Francisco Alves).

Não deixa de ser simbólico. A canção de 1788 é escocesa, e, enquanto a cantoria corria, o Parlamento daquele país apresentava seu plano para refazer o referendo de 2014 sobre sua independência —algo que dependeria de um hoje improvável acordo com Londres.

Membros britânicos do Parlamento Europeu, em Bruxelas, celebram aprovação do pacto de saída - Francois Lenoir/Reuters - Yves Herman/Pool/Reuters

A dissolução do Reino Unido é um dos subprodutos mais extremos, para os britânicos, do brexit. Há dificuldades econômicas e oportunidades de negócios sendo decantadas há tempos, mas é menos comentado o fato de que a saída britânica implica um abalo no balanço de poder do bloco.

Sem o reino, unido ou não, Alemanha e França se isolam ainda mais como líderes do projeto europeu. Apesar de os britânicos nunca terem sido os maiores entusiastas do bloco, seu peso político-econômico contrabalançava o poderio da Alemanha e da França.

Agora, enquanto Berlim tem um governo crepuscular na figura de Angela Merkel, Paris ostenta um presidente dinâmico no exterior, ainda que contestado internamente, Emmanuel Macron.

Eles têm discordado em vários pontos, como a parceria com a Rússia de Vladimir Putin para a construção do gasoduto Nord Stream 2 ou negociações de paz sobre a Líbia.

Paris defende maior integração vertical e gastos com isso, enquanto Berlim advoga expansão horizontal e comedimento fiscal. A absorção da Macedônia do Norte e da Albânia ainda não saiu justamente por pressão de Macron.

Além disso, a Alemanha está flertando com uma recessão, o que deve reforçar sua posição de bedel dos membros com mau comportamento fiscal.

Londres sempre agiu em linha com Berlim no assunto, e agora Paris pode posar de “bom policial” na disputa.

Considerando que a UE é a evolução de um arcabouço que visava em sua essência impedir mais uma rodada de guerra europeia entre os dois países, o embate é um retrocesso óbvio, embora o projeto comum ainda seja o principal.

Isso porque tanto Alemanha quanto França lidam com forças nacionalistas. Em comum, assim como em países como Holanda e Itália, há a contestação do poder centrado em Bruxelas, que se estende sobre os assuntos mais comezinhos da vida cotidiana.

O sentimento é genuíno e até defensável, dados alguns exageros das detalhadas regras europeias, mas não deve ser superestimado.

Segundo pesquisa feita em agosto pela Comissão Europeia, a confiança dos moradores no bloco está no maior nível desde 2014, o que desautoriza por ora a ideia de novos movimentos com o sufixo “exit” (saída, em inglês).

Além disso, como o processo do brexit se mostrou traumático, partidos nacionalistas nesses e em outros países têm cada vez insistido menos em ruptura e mais em reformar as instituições europeias —um eufemismo para tirar poder de Bruxelas.

Outro desafio à frente de alemães e franceses toma forma no leste do continente, sua fronteira mais sensível. Lá, antigos países comunistas agora membros da UE fazem frente ao colosso russo.

Em dois deles, Hungria e Polônia, os governos avançaram sobre a independência do Judiciário em favor de uma agenda autoritária.

Ocorre que, no caso polonês, o país é um bastião militar ativo na Otan (aliança militar ocidental) ante Putin.

Há dúvidas sobre a conveniência de enfraquecer Varsóvia enquanto o governo está envolvido numa disputa com o Kremlin pela influência sobre Belarus. E mesmo Macron age de forma variável, de olho nos seus próprios interesses.

De olho em negócios energéticos, ele tentou promover sem sucesso o russo como um parceiro potencial, não adversário, em reunião da Otan.

Há também a questão dos movimentos independentistas, que podem ganhar nova tração caso a Escócia deixe o Reino Unido, problema perene num continente pulverizado ao longo da história.

O bolso também conta. O Reino Unido é o quarto dos “quatro grandes” doadores do orçamento anual de 150 bilhões de euros (R$ 690 bilhões), com 11,26% do total em 2018.

 

Se o valor global não é nada para padrões europeus, meros 2% do Produto Interno Bruto do bloco ainda com o Reino Unido, há uma miríade burocrática com 60 mil empregados a ser tocada.

Com 20,91% do bolo orçamentário, a Alemanha é o maior doador, e mesmo com suas dificuldades se comprometeu a compensar a saída britânica, alimentando a oposição antieuropeia.

Os britânicos têm peso geopolítico inestimável quando o assunto é defesa. São potência nuclear, têm o segundo maior poderio militar (a França à frente) e são os maiores doadores para iniciativas comuns.

 

Com o afastamento do governo Donald Trump de suas obrigações como líder da Otan, Bruxelas tem tentado engordar suas ações próprias além dos usuais programas industriais, como o do caça Eurofighter Typhoon.

Isso fica mais difícil sem o Reino Unido, que sempre foi interlocutor privilegiado entre os dois lados do Atlântico.

 
 
 
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