Casa Branca veta publicação de livro com revelações de ex-assessor

Governo afirma que texto de Bolton contém informações sensíveis para a segurança nacional dos EUA

Washington | Reuters

A Casa Branca vetou a publicação do manuscrito do ex-conselheiro de segurança nacional John Bolton argumentando que o texto continha "quantidades significativas de informações sigilosas".

A carta do Conselho de Segurança Nacional da Casa Branca ao advogado de Bolton, Charles Cooper, afirma que o rascunho incluía informações classificadas como altamente sigilosas e que representava um risco de "danos excepcionalmente graves" à segurança dos EUA caso fosse divulgado sem autorização.

O então assessor de Segurança Nacional da Casa Branca, John Bolton, e o presidente americano Donald Trump, durante uma entrevista coletiva em maio de 2019
O então assessor de Segurança Nacional da Casa Branca, John Bolton, e o presidente americano Donald Trump, durante uma entrevista coletiva em maio de 2019 - Brendan Smialowski - 13.mai.2019/AFP

O envio do texto à Casa Branca seguiu um protocolo já estabelecido segundo o qual o governo tem de analisar previamente livros escritos por atuais e antigos funcionários.

A resposta do Executivo americano foi elaborada dias antes de o New York Times revelar, no domingo (26), o conteúdo do manuscrito, no qual Bolton relata em detalhes o episódio em que Trump congelou o envio de ajuda militar no valor de US$ 391 milhões (cerca de R$ 1,6 bilhão) à Ucrânia. 

A decisão do americano é o ponto central de uma das denúncias que compõem o processo de impeachment contra ele, em julgamento no Senado.

Trump é acusado de abusar de seu cargo ao condicionar o envio do auxílio a Kiev à reabertura, pelas autoridades ucranianas, de inquéritos sobre a atuação de Hunter Biden, filho do democrata Joe Biden. 

Os deputados afirmam que Trump buscava informações comprometedoras sobre Biden pai para obter vantagem na eleição presidencial deste ano, uma vez que o ex-vice-presidente é pré-candidato à nomeação de seu partido. 

A revelação do conteúdo do manuscrito de Bolton, um militar republicano com longa carreira no serviço público, confirmou as suspeitas dos democratas de que o ex-assessor de Segurança Nacional tem conhecimento direto do toma lá dá cá arquitetado pelo presidente americano com seu par ucraniano, Volodimir Zelenski. 

Enquanto o processo de impeachment correu na Câmara, dominada pelos democratas, os deputados tentaram convocar Bolton para prestar depoimento —o diplomata, no entanto, recusou-se a participar das audiências.

Antes de o julgamento de Trump no Senado começar, porém, ele se colocou à disposição para testemunhar caso fosse intimado judicialmente, aumentando a pressão para que os republicanos, que dominam a Casa, aceitem a convocação de novas testemunhas.

Eles resistem à ideia porque trabalham por um julgamento rápido, já que a absolvição de Trump ao final do processo é dada como certa —além disso, querem evitar que o processo se prolongue e domine o início do calendário eleitoral do pleito deste ano.

O julgamento do impeachment está atualmente na fase de perguntas, na qual senadores podem questionar por escrito tanto a defesa de Trump quanto a acusação, composta por um time de deputados democratas que argumentam pela procedência das denúncias aprovadas na Câmara. 

Encerrado esse estágio, os senadores votarão para decidir se convocarão novas testemunhas.

Na tarde desta quarta-feira (29), Alan Dershowitz, que compõe a equipe de defesa de Trump, apresentou um dos argumentos mais ousados para defender a conduta do presidente americano.

Ao responder o senador Ted Cruz, republicano do Texas, que perguntou se existia algum cenário no qual um toma lá dá cá fosse considerado uma conduta apropriada para um presidente, Dershowitz afirmou que qualquer ato que um presidente pratique com o objetivo de buscar sua eleição e com interesse público não pode resultar em impeachment. 

O deputado Adam B. Schiff, da Califórnia, que lidera o time da acusação, caracterizou o argumento de Dershowitz como "muito estranho".

"Se você diz que não pode responsabilizar um presidente num ano eleitoral, quando ele está tentando trapacear nessa eleição, então você está dando a ele carta branca", disse Schiff.

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