Cristãos sionistas substituem judeus de esquerda no apoio a Israel

Grupo tem recebido atenção crescente de políticos israelenses, principalmente no Brasil

Tel Aviv

"Não temos melhores amigos do que os cristãos que apoiam Israel pelo mundo.”

A frase, do primeiro-ministro de Israel, Binyamin Netanyahu, repetida diversas vezes nos últimos anos, sinaliza um fenômeno que tem o Brasil como um dos maiores exemplos: a aliança entre cristãos sionistas e judeus conservadores.

primeiro-ministro de Israel, Binyamin Netanyahu, com bandeira de Israel atrás
O governo do primeiro-ministro de Israel, Binyamin Netanyahu, tem se aproximado de grupos cristãos sionistas no Brasil e nos Estados Unidos - Gil Cohen-Magen - 19.jan.2020/Reuters

Para alguns pesquisadores, os cristãos que apoiam Israel se tornaram mais “irmãos” para o atual governo israelense do que os judeus progressistas.

É o que acredita o historiador brasileiro Leonel Karaciki, doutorando da Universidade Ben-Gurion em Beer Sheva (Sul de Israel). Para ele, prova desse movimento é o fato de que o governo Netanyahu passou a dar atenção a cristãos pró-Israel, como evangélicos pentecostais no Brasil e na África, e a deixar em segundo plano judeus da diáspora que criticam o país.

“O apoio político desses cristãos sionistas é [visto como] muito mais importante e cria muito mais frutos para Israel do que ter que lidar com uma comunidade judaica que não necessariamente aprova o atual governo”, explica o pesquisador.
 
Para os cristãos sionistas, Israel (na verdade, um Israel bíblico imaginário) possui um papel religioso fundamental como parte da profecia de que só quando os judeus voltarem a Sião (Jerusalém) e reconstruírem o Templo de Salomão, será aberto o caminho para a volta de Jesus Cristo e o fim dos tempos.
 
A substituição dos judeus de esquerda pelos cristãos sionistas se manifesta no Brasil desde a crise da recusa do agrément a Dani Dayan, em 2015. O nome do indicado de Netanyahu a embaixador foi mal recebido por sua longa defesa das colônias israelenses em território disputado e de sua oposição à criação de um Estado palestino.

Representantes de Israel passaram a participam de eventos evangélicos, como a Marcha para Jesus, para buscar apoio político. O atual embaixador, Yossi Shelley, investiu em uma amizade pessoal com o presidente Jair Bolsonaro, se envolvendo em querelas com membros da comunidade judaica.

“O governo Netanyahu se perguntou por que apoiar judeus que fazem protestos contra Bolsonaro, deslegitimizando objetivos políticos de Israel no Brasil, quando tem os evangélicos do seu lado”, diz Karaciki.

Para o professor Paul Freston, da Universidade Wilfrid Laurier (Canadá), a aproximação entre Israel e os cristãos sionistas sul-americanos é inusitada, considerando que historicamente os países da região não têm uma postura pró-Israel. 

O movimento, diz ele, se tornou uma fonte de soft power importante para o país.
 
Freston assinala que o sionismo cristão existe desde o século 16, há mais tempo que o judaico (século 19), ainda que haja uma tentação de ver o fenômeno apenas como algo recentemente importado dos Estados Unidos.

Ele cita o padre jesuíta português Antônio Vieira, que, em uma carta de 1659, já profetizava o retorno dos judeus à Palestina, onde reconstruiriam o Templo Sagrado em Jerusalém.

“Hoje, os cristãos sionistas brasileiros estão herdando o bastão de Vieira, mesmo sem saber. Ele foi o primeiro cristão sionista do Hemisfério Sul.”
 
Depois da criação do Estado de Israel, em 1948, surgiram as formas mais modernas de sionismo cristão, explica o professor. Evangélicos só começaram a ganhar destaque a partir da década de 1960, e a ascensão de neopentecostais é ainda mais recente.

No entanto, a visão desses grupos sobre o Estado de Israel releva outras características marcantes do país, como a diversidade de sua população, composta por 20% de árabes e mais de 50% de judeus que se qualificam como seculares ou pouco religiosos. 

"O que vemos é a substituição por uma Israel imaginária", diz o sociólogo Rafael Kruchin, coordenador executivo do Instituto Brasil Israel.

“No Brasil, o presidente Jair Bolsonaro e seus apoiadores esquecem como Israel é um país progressista em questões como aborto, direitos da comunidade LGBTQ e legalização de cannabis medicinal."

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