Descrição de chapéu

Cristãs que impulsionaram Lei Seca, 100, evocavam o pecado original

Cruzada anti-goró defendia 'não saciar apetites com coisas proibidas'

Rio de Janeiro

A Bíblia não é exatamente pudica em relação a álcool.

No Antigo Testamento, Noé (o da arca) é descrito como o “primeiro a plantar uma vinha”, e uma passagem de Gênesis lembra o dia em que ele “bebeu do vinho, embriagou-se e ficou nu dentro de sua tenda”. Um dos vários exemplos de bebelança nas Escrituras.

Para cristãos americanos, contudo, a abstemia era um ponto de honra. E um panfleto que circulou pelos EUA nas últimas décadas do século 19 é peça fundamental para decifrar a Lei Seca implantada há cem anos e que esvaziou copos no país até 1933.

Com oito páginas, “Catecismo Cristão da Moderação” pregava que os americanos deveriam se lembrar mais de Adão e Eva, que infringiram a lei maior de Deus: “Não saciar seus apetites com coisas proibidas”. Deu no que deu.  

Décadas mais tarde, o lobby protestante seria essencial para tirar do papel a legislação anti-álcool. E aquelas folhas datilografadas revelam um tanto da mentalidade religiosa da época, ao aconselhar aos que bebem o que bem desejam que “nós pertencemos a Deus e devemos glorificá-lo com nossos corpos”. 

O álcool era visto como “veneno líquido” camuflado pela doçura das frutas, como as uvas do vinho. Uma ameaça à sociedade americana, atingida pela ebriedade “mais do que qualquer outra forma de pecado”, portanto. 

O panfleto associava à embriaguez “a causa de três quartos de todas as doenças e pobreza e infelicidade e crime em nossa terra”.

A WCTU (Woman’s Christian Temperance Union, uma associação de cristãs pró-sobriedade) foi o núcleo da campanha proibicionista, diz à Folha Lisa McGirr, professora de Harvard que escreveu “The War on Alcohol: Prohibition and the Rise of the American State (a guerra contra o álcool: Lei Seca e a ascensão do Estado americano).

Fundada em 1873, a organização convocava mulheres a “fazerem de tudo para melhorar a sociedade”, afirma McGirr. E a temperança (virtude de quem é comedido), nesse sentido, “fazia parte de uma reforma maior do ethos”.

Frances Willard (1839-1898), sua mais famosa presidente, influenciou duas emendas da Constituição americana: 18 (a da Lei Seca) e 19 (que deu às mulheres o direito de votar).

Em sua autobiografia, de 1889, Willard narrou a primeira vez que pisou num bar, em Pittsburgh. Decidiu ali que precisava começar uma cruzada contra a cultura do pileque.

Retornou à bodega com outras fiéis. “Uma mulher de voz doce começou a cantar: ‘Jesus, a água da vida dará’. Todas as nossas vozes logo se misturaram nessa doce canção”. 

Ao longo dos anos, outras organizações, como a Liga Anti-Saloon, fizeram coro, e a motivação religiosa ganhou um aliado de peso: economistas se preocupavam com bebedeiras que atrapalhavam o rendimento da força de trabalho. 

“Em 1923, com a proibição do álcool amplamente desprezada, grupos protestantes adotaram um tom cada vez mais severo em relação a imigrantes, a quem culpavam amplamente, e sem evidências, por violações”, diz McGirr. “A WCTU de Indiana, por exemplo, alegou falsamente que 75% das violações vinham de estrangeiros. Aprovaram uma resolução pedindo a deportação daqueles condenados por violações da Lei Seca.”

A mesma religiosidade que impulsionou a legislação foi usada para dar um olé nela. Assim como hoje a maconha é vetada, mas vários lugares permitem seu uso medicinal, a lei de um século atrás aceitava exceções: ok consumir álcool em tratamentos médicos e cerimônias religiosas.

Muitos viram aí uma brecha para driblar a Justiça. Com prescrição do doutor, era possível conseguir, per capita, quase dois litros de goró por mês. Naqueles anos, vários membros da mesma família adoeciam do nada. Coincidência, claro.

Já a demanda por vinho sacramental de igrejas e sinagogas disparou.

Com a derrubada da lei em 1933, a bebida voltou às prateleiras. A cruzada das mulheres cristãs não secou. O WCTU está na ativa até hoje.

Estima-se que, nos anos 1830, um americano bebia em média 88 garrafas de uísque por ano, três vezes mais do que seus descendentes do século 21. Mas o número ainda inquieta.

“A temperança está no nosso nome, e ela continua a ser relevante em 2020”, diz Bunny Galladora, diretora de relações públicas da entidade. “A WCTU define temperança como o filósofo grego Xenofonte: ‘Moderação para todas as coisas saudáveis, abstinência total nas prejudiciais.”

Beber, ela diz, “frequentemente contribui para abusos domésticos, estupros e outras atividades ilegais”.

“Cristão” também está na sigla do grupo, lembra Bunny. “Nós continuamos seguindo a Bíblia e orando. Nossa associação começou numa igreja batista em Nova York. Pregadores davam sermões sobre os perigos do álcool diabólico.” Pois continuam.

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