Em 3 décadas, mulheres são menos de 1% dos brasileiros em missões de paz

Número está aquém das metas da ONU; relatos abordam piadas sexistas e desafios cotidianos

São Paulo

A major da Força Aérea Brasileira Luanda Bastos, 38, passou por um longo processo para realizar o sonho de ser enviada para uma missão de paz da ONU. Fez cursos de aperfeiçoamento no Brasil e na China, prestou uma seleção que inclui prova de inglês e testes físicos, ficou um ano e meio se preparando. Em agosto de 2017, foi enviada a Darfur, no Sudão, palco de um grave conflito. Chegando lá, teve que lidar com alguns colegas que achavam que ela deveria servir o café ou limpar o banheiro.

“Eles olhavam para mim e falavam: ‘Luanda, o banheiro está sujo’. No início eu não respondia para não tornar o clima de trabalho ruim. Depois de um tempo comecei a dizer: ‘Negativo. Se o seu banheiro está sujo, você limpa’”, lembra. “Fui para um setor onde nunca haviam trabalhado mulheres. O primeiro que me disseram era que eu deveria pedir para trocar, porque seria muito pesado para mim. Acabei mostrando que dava conta e no final teve gente que veio me pedir desculpas e me parabenizar”, conta.

A brasileira Luanda Bastos durante a missão da qual participou em Darfur, no Sudão
A major da FAB brasileira Luanda Bastos durante a missão da qual participou em Darfur, no Sudão - Arquivo pessoal

Luanda acabou sendo designada, no fim de seu período de um ano em Darfur, para um cargo de prestígio, como responsável por passar informações sobre toda a missão para o comandante-geral da missão (Force Commander). Diz que a experiência transformou sua visão de mundo e sua vida profissional. “Se me perguntassem se eu iria de novo, com certeza eu iria”, diz. 

Um estudo recém-lançado mostra que mulheres como Luanda são exceção nas forças de paz da ONU. Segundo levantamento do Instituto Igarapé, nos últimos 27 anos (de 1992 a 2019), dos 48.163 militares, policiais e civis brasileiros que participaram dessas operações, só 338 eram do sexo feminino (0,7%). Nos 45 anos anteriores —de 1947, quando começou esse tipo de missão, até 1992—, nenhuma mulher brasileira participou.​ Ao todo, elas estiveram em 25 das 51 missões da ONU das quais o Brasil participou.

Um recorte mais recente mostra que em setembro de 2019 havia 61 militares brasileiros designados, dos quais cinco (8%) eram mulheres. Levando em conta todas as nacionalidades desses profissionais, a porcentagem é ainda mais baixa: 5% dos mais de 76 mil "peacekeepers" do mundo todo são mulheres.

Tanto no Brasil quanto no mundo, a proporção está aquém das metas definidas pela ONU para a equidade de gênero nesse tipo de operação. Em 2019, ela foi de 16% para militares em missão individual (não enviados junto com tropas).

Quando se consideram os policiais a participarem dessas operações, a porcentagem aumenta para 15,2% no mundo e 27,5% no Brasil —mas há a ressalva de que entre os brasileiros o número absoluto de participantes dessa categoria é baixo (oito no total, três deles mulheres). A meta da ONU para essa categoria em 2019 era de 21% (também em operações individuais). 

O levantamento mostra que o cenário está melhorando: a participação feminina aumenta seguidamente desde 2009, ainda que a passos lentos (1% ao ano desde 2015), e desde 2017, 27 países que nunca tinham enviado mulheres para as missões o fizeram pela primeira vez. Em 2020, completa-se 20 anos da primeira resolução da ONU sobre Mulheres, Paz e Segurança, que aborda o tema.

“Desde então, já houve outras nove resoluções nesse sentido. É um trabalho que vem sendo feito há muito tempo, mas ganhou força com este secretário-geral, António Guterres”, diz Eduarda Hamann, doutora em relações internacionais e pesquisadora sênior do Instituto Igarapé. "Uma de suas principais bandeiras é alcançar a paridade de gênero também nas funções de liderança, onde há um número muito baixo de mulheres."

Segundo Hamann, enviar mulheres pode trazer vantagens para o trabalho. “Percebeu-se, por exemplo, que em ações de terreno, patrulhando, elas conseguem acessar as mulheres locais mais facilmente e obter informações que homens às vezes não conseguem. Sudanesas que caminhavam quilômetros para colher lenha, por exemplo, tinham mais confiança em relatar tentativas de estupro e pedágios ilegais para ‘peacekeepers’ mulheres”, diz.

“E há discussões sobre como incorporar mulheres em mesas de negociação de acordos de paz aumenta chance de que essa paz seja sustentável. Elas pensam em questões que uma equipe só de homens pode não pensar”, completa.
 

A brasileira Luanda Bastos (no centro, na segunda fileira) era a única mulher em seu setor
A brasileira Luanda Bastos (no centro, na segunda fileira) era a única mulher em seu setor - Arquivo pessoal

O estudo do Igarapé também fez entrevistas com cerca de 30 brasileiras que integraram forças de paz e elencou sete desafios que influenciam na representatividade delas. Entre eles, a falta de acesso a informações sobre as vagas, a baixa quantidade de mulheres no total geral de militares e policiais e a expectativa sobre o papel familiar da mulher --80% das entrevistadas não tinham filhos quando foram para o terreno, por exemplo.

Algumas relataram também terem que conviver com piadas sexistas e o maior risco de assédio e abuso sexual. Houve ainda relatos sobre questões cotidianas enfrentadas por elas. Um exemplo: uma capitão de corveta que era a única mulher de uma tripulação com 263 homens acordava antes do amanhecer e esperava os colegas irem dormir para usar o banheiro, já que não havia um feminino no navio. ​

Pioneiras

As primeiras mulheres brasileiras a participarem de uma missão de paz, em 1992, foram duas policiais de Minas Gerais: Maria Luiza de Jesus Bernardes e Helâne Pires de Castro Santos, ambas sargentos na época. Elas foram enviadas para atuar durante a guerra civil angolana, com mais oito colegas. As duas eram as únicas mulheres militares na operação. 

Maria Luiza de Jesus Bernardes, uma das duas primeiras brasileiras a participarem de uma missão de paz da ONU; ela atuou em Angola durante a guerra civil
Maria Luiza de Jesus Bernardes, uma das duas primeiras brasileiras a participarem de uma missão de paz da ONU; ela atuou em Angola durante a guerra civil - Luis Evo/Folhapress

“Eu tinha 25 anos, era muito aventureira. Era uma oportunidade única e abracei”, lembra Maria Luiza, que hoje tem 52. Sua mãe ficou “apavorada” com a viagem, conta. Seu pai, também militar, achou “o máximo”. Já o comandante de seu batalhão não foi efusivo. “Ele falou que lá não era lugar para mulher, que não era para eu ir. Não enxergou com bons olhos.”  

Uma vez lá, porém, ela diz que não teve problemas e se sentiu respeitada. Sua função era acompanhar os policiais dos dois grupos rivais locais, garantindo que não cometessem injustiças. “Peguei vários conflitos lá. Ficávamos sitiados por dois, três dias, enquanto eles trocavam tiros o tempo todo”, lembra. Um companheiro delas morreu durante a missão, atingido por estilhaços de granada.

Maria Luiza diz que só depois soube que tinha sido uma das pioneiras nessa área. “Fico orgulhosa, é um privilégio. Mas não saio contando, não ando com a medalha. Só quando alguém pergunta.”

As autoras do estudo elencaram algumas medidas que poderiam ser tomadas pelo governo brasileiro para melhorar a participação feminina nas missões de paz, como aumentar a transparência da divulgação dos processos seletivos, oferecer apoio diplomático a candidatas que concorrem a postos hierárquicos mais altos e dar visibilidade às contribuições das brasileiras que participaram de missões, para incentivar outras que queiram seguir o mesmo caminho.

“Além disso, seria bom criar uma base de dados única sobre esse tema”, acrescenta Hamann. “Tivemos muita dificuldade para obter essas informações. Não adianta a gente fala em aumentar o número de mulheres se nem souber quantas foram.”

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