Descrição de chapéu The New York Times

General Qassim Suleimani, da linha-dura iraniana, deixa sombra no Oriente Médio

Morto em ação americana no Iraque, militar era uma figura de interesse dentro e fora do país

Tim Arango, Ronen Bergman e Ben Hubbard
The New York Times

Em julho de 2018, depois que o presidente Donald Trump, dos Estados Unidos, alertou o presidente do Irã para que não ameaçasse os EUA, a resposta não veio do líder iraniano, mas de uma figura militar talvez ainda mais poderosa.
 

O general iraniano Qassim Suleimani, morto em um ataque ao aeroporto no Iraque feito pelos EUA
O general iraniano Qassim Suleimani, morto em um ataque ao aeroporto no Iraque feito pelos EUA - Escritório do Líder Supremo Iraniano/New York Times


"Está abaixo da dignidade de nosso presidente responder a você", declarou o major-general Qassim Suleimani em um discurso no oeste do Irã. "Eu, como soldado, lhe respondo."

Na sexta-feira (3), Suleimani foi declarado morto em um ataque aéreo em Bagdá.

O general, uma figura antes sombria que tinha uma posição de celebridade entre os conservadores linha-dura do Irã, era uma figura de grande interesse para pessoas dentro e fora do país.

Não é apenas o fato de ele ser encarregado de coletar informações internas e de operações militares secretas, e considerado uma de suas figuras militares mais experientes e autônomas.

Ele também era considerado muito próximo do líder supremo do país, o aiatolá Ali Khamenei, e um potencial futuro líder do Irã.

O fato de Suleimani estar no Iraque quando foi morto, aos 62 anos, no Aeroporto Internacional de Bagdá, não causou surpresa.

Ele era o comandante da Força Quds da Guarda Revolucionária do Irã, uma unidade de forças especiais que realiza missões em outros países. Foi nomeado para liderá-la no final dos anos 1990.

Nessa função, Suleimani era considerado o principal estrategista por trás dos empreendimentos militares e da influência do Irã na Síria, no Iraque e em outros lugares da região e além. Era considerado o oficial de inteligência militar mais eficaz da região.

Um alto funcionário da inteligência iraquiana disse certa vez às autoridades americanas em Bagdá que Suleimani havia se descrito como "a única autoridade para ações iranianas no Iraque".

Em seu discurso denunciando Trump, ele foi ainda menos discreto, e abertamente irônico.

"Estamos perto de você, onde você nem imagina", disse. "Estamos prontos. Nós somos o homem nesta arena."

Bem antes do discurso, as autoridades americanas haviam se habituado a ver Suleimani como um adversário formidável.

Após a invasão do Iraque liderada pelos EUA em 2003, que derrubou Saddam Hussein, os Estados Unidos acusaram Suleimani de planejar ataques a soldados americanos.

O general trabalhou para expandir a influência do Irã no Iraque, restringindo as ações das forças armadas americanas.

O governo iraniano estava determinado a manter sua influência na região e sentia-se ameaçado pela presença militar dos EUA expandindo-se em seus flancos ocidentais e orientais.

E em 2011 o Departamento do Tesouro colocou Suleimani em uma lista negra de sanções, acusando-o de cumplicidade no que as autoridades americanas chamaram de conspiração para matar o embaixador da Arábia Saudita em Washington.

Mas às vezes o adversário mais parecia um aliado, embora o relacionamento fosse tênue. As autoridades dos EUA cooperaram com o general iraniano no Iraque para reverter os ganhos alcançados pelo Estado Islâmico, um inimigo comum.

No auge da guerra do Iraque, enquanto a Força Quds sob o comando de Suleimani armava e treinava milícias xiitas no Iraque, o general alimentou a violência e depois mediou o conflito, para se tornar indispensável e manter os iraquianos desequilibrados, disseram autoridades americanas.


De acordo com um telegrama de junho de 2008 escrito por Ryan Crocker, então embaixador dos EUA em Bagdá, Suleimani participou da intermediação de um cessar-fogo que permitiu a retirada das milícias xiitas atingidas no bairro de Cidade Sadr, em Bagdá, que o Irã apoiava.

Em 2015, Suleimani estava na cidade de Tikrit, no norte do Iraque, comandando milícias xiitas iraquianas que tentavam recapturá-la dos combatentes do Exército Islâmico. Aviões dos EUA aderiram tardiamente a essa campanha.

Suleimani também capturou a imaginação dos iranianos comuns. Ele ganhou destaque durante a sangrenta guerra de oito anos entre Irã e Iraque. Como comandante da Guarda Revolucionária, ganhou reputação por liderar missões de reconhecimento atrás das linhas iraquianas.

"Para Qassim Suleimani, a guerra Irã-Iraque nunca terminou realmente", disse Crocker em entrevista.

"Nenhum ser humano poderia ter passado por um conflito no estilo da Primeira Guerra Mundial e não ter sido afetado para sempre. Seu objetivo estratégico era uma vitória absoluta sobre o Iraque e, se isso não fosse possível, criar e influenciar um Iraque fraco."

 

Tradução de Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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