Irã convoca embaixador britânico para explicar presença em protesto

Detido no sábado (11) sob alegação de incitar manifestações, diplomata nega acusação

Teerã e Dubai | AFP e Reuters

O Irã convocou o embaixador britânico em Teerã, Rob Macaire, para dar explicações sobre sua participação em um protesto, considerado ilegal pelo governo, realizado na noite de sábado (11). Macaire foi detido pela polícia e, após sua identificação como diplomata, liberado.

Neste domingo (12), Macaire afirmou em uma rede social que participou por cinco minutos de uma vigília em homenagem aos 176 mortos no avião abatido por engano por forças militares iranianas no dia 8 de janeiro.

"Fui a um evento anunciado como uma vigília pelas vítimas da tragédia. É normal querer prestar homenagens —algumas das vítimas eram britânicas. Saí depois de cinco minutos, quando algumas pessoas começaram a cantar palavras de ordem", disse.

Na prática, convocar um embaixador é um ato de reprimenda.

 

O vice-ministro de Relações Exteriores do Irã, Abbas Araghchi, havia confirmado mais cedo a detenção de Macaire. Segundo ele, o diplomata foi liberado em 15 minutos, assim que foi identificado.

O ministro das Relações Exteriores britânico, Dominic Raab, classificou o episódio como "violação flagrante da legislação internacional". Já o chefe da diplomacia da União Europeia, Josep Borrell, se disse muito preocupado: "Total respeito à convenção de Viena é uma obrigação." 

A tensão política tem aumentado na região depois que o Irã assumiu a responsabilidade pela derrubada do Boeing 737-800 da Ukraine International Airlines em Teerã. A aeronave caiu cinco minutos após decolar do aeroporto Imam Khomeini. Todos a bordo morreram após o avião ter sido abatido por um míssil disparado pela Guarda Revolucionária persa.

No sábado, o jornal americano The New York Times e o britânico Guardian relataram protestos em que manifestantes gritavam "Khamenei é assassino" e "Khamenei acabou", assim como pessoas rasgando fotos do general Qassim Suleimani, morto pelos EUA na semana passada.

Mulheres utilizando turbantes e cobrindo os rostos acendem velas em cerimônia fúnebre. Há flores e fotos de pessoas mortas no acidente
Centenas reuniram-se em Teerã, capital do Irã, para uma vigília em homenagem aos 176 mortos no avião abatido por engano - Ahmad Halabisaz/Xinhua

Neste domingo (12), foram registrados novos protestos pedindo a renúncia do aiatolá e de outras lideranças políticas iranianas. A polícia reforçou a segurança ao redor de três universidades, entre elas a Amir Kabir, palco de protestos no sábado (11).

Segundo as agências de notícias, um grupo com cerca de 200 pessoas reuniu-se na frente da embaixada britânica, queimou uma bandeira do Reino Unido e pediu o fechamento do prédio.

A prisão de Macaire rendeu uma condenação de Boris Johnson e Angela Merkel. Segundo um porta-voz do gabinete de Johnson, os chefes de Reino Unido e Alemanha consideraram a ação uma violação das leis internacionais, além de conversarem sobre a intenção de manter o acordo nuclear do Irã.

​O chefe da Guarda Revolucionária, Hossein Salami, compareceu neste domingo (12) ao parlamento iraniano para explicar o novo capítulo da crise no Irã, desencadeado após o incidente com o avião.

O presidente do parlamento, Ali Larijani, instou as comissões parlamentares encarregadas da segurança e da política externa a examinarem esse "incidente grave" e a estudarem meios de impedir novos casos.

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