Irã recua e diz que não há planos de enviar caixas-pretas do avião para o exterior

Agências de notícias afirmaram no sábado (18) que o material recolhido do avião acidentalmente derrubado seria levado a Ucrânia

Dubai | Reuters

O Irã disse no domingo (19) que ainda tenta analisar o material das caixas-pretas do avião ucraniano derrubado acidentalmente por seus militares no início do mês. As autoridades negaram que foi tomada a decisão de enviar o material para a Ucrânia.

No dia 8 de janeiro, o Boeing 737-800 da Ukraine International Airlines foi derrubado cinco minutos após decolar do aeroporto Imam Khomeini, em Teerã, deixando 176 pessoas mortas.

A aeronave foi confundida com um míssil de cruzeiro (armamento guiado remotamente para liberar ogivas a longas distâncias) e abatida por um míssil de curto alcance iraniano.

O Canadá, que tinha 57 cidadãos na aeronave, disse hoje que ainda não há planos concretos para obter o material das caixa-pretas. Ottawa e outras capitais pediram que as caixas-pretas fossem enviadas ao exterior.

Uma das caixas-pretas do avião que caiu, exibida por uma emissora de TV iraniana
Uma das caixas-pretas do avião que caiu, exibida por uma emissora de TV iraniana - Irib/Wana/via Reuters

"Estamos tentando ler as caixas-pretas aqui no Irã. Caso não tenhamos êxito, nossas opções são [enviar o material a] Ucrânia e França, mas ainda não foi tomada nenhuma decisão", afirmou Hassan Rezaifar, diretor encarregado de investigações de acidentes do Irã. Organização de Aviação Civil, disse à agência de notícias.

Rezaifar foi citado pela agência semi-oficial de notícias Tasnim, do Irã no sábado (18), dizendo que as caixas-pretas não poderiam ser decodificadas no Irã e seriam enviadas à Ucrânia. A agência de notícias estatal também informou que o funcionário fez comentários semelhantes a eles.

Não ficou claro o que levou Rezaifar a recuar.

Pedidos

O ministro das Relações Exteriores do Canadá, François-Philippe Champagne, disse que escreveu para seu colega iraniano, Mohammad Javad Zarif, pedindo que as caixas sejam enviadas rapidamente para a Ucrânia ou a França.

O Conselho de Segurança no Transporte do Canadá disse que dois de seus investigadores deixaram Teerã hoje após uma visita de seis dias durante em que examinaram os destroços da aeronave.

Os investigadores iranianos foram prestativos, mas disseram que ainda não havia planos concretos sobre como e quando as caixas-pretas seriam analisadas, afirmou o conselho canadense, em comunicado.

A Ucrânia disse anteriormente que esperava que os gravadores contidos nas caixas-pretas fossem entregues, enquanto o primeiro-ministro canadense Justin Trudeau disse que a França era um dos poucos países capazes de acessar as informações contidas no equipamento.

A agência francesa de acidentes aéreos BEA afirmou no sábado (18) que estava aguardando um pedido oficial de assistência.

Os corpos de 11 vítimas ucranianas foram levados para seu país de origem neste domingo, e foram recebidos em uma cerimônia no aeroporto de Kiev. O ministro das Relações Exteriores da Ucrânia, Vadym Prystaiko, disse que "famílias em luto e toda a nação têm uma oportunidade de mostrar seu respeito".

O avião foi derrubado quando os militares estavam em alerta máximo nas horas tensas depois que o Irã lançou mísseis contra alvos dos EUA no Iraque em resposta ao assassinato de um dos principais comandantes iranianos em 3 de janeiro em Bagdá.

O presidente iraniano Hassan Rowhani chamou a tragédia de "erro imperdoável" e prometeu responsabilizar os responsáveis. A Guarda Revolucionária também pediu desculpas, enquanto manifestantes se enfureciam contra a Guarda e o sistema administrativo.

O líder supremo da República Islâmica, o aiatolá Ali Khamenei, disse na sexta-feira (17) que "alguns tentaram usá-lo como desculpa para ofuscar o martírio de nosso grande comandante" Kassem Suleimani, o poderoso general morto no ataque norte-americano.

A morte de Suleimani levou a enormes cerimônias de luto no Irã, seguidas apenas alguns dias depois por protestos furiosos pelo desastre do avião.

A tensão entre Teerã e Washington aumentou desde 2018, quando os Estados Unidos se retiraram do pacto nuclear do Irã com as potências mundiais e reposicionaram as sanções.

Teerã diminuiu seus compromissos com o pacto de 2015, segundo o qual o Irã concordava em reduzir as atividades nucleares de seu paií em troca de suspensão de sanções.

 

CRONOLOGIA DA CRISE NO IRÃ

15.nov Regime anuncia aumento de ao menos 50% no preço da gasolina, e manifestações tomam as ruas; repressão deixa mais de 200 mortos nos dias seguintes

31.dez Manifestantes atacam a embaixada dos EUA em Bagdá, em resposta ao bombardeio dos americanos contra a facção pró-Irã Kataib Hezbollah; ação matou 25 iraquianos

3.jan EUA matam general iraniano Qassim Suleimani em ataque a aeroporto de Bagdá; ele era a segunda pessoa mais importante do país, atrás apenas do líder supremo

5.jan Irã anuncia que vai deixar de cumprir as exigências do acordo nuclear assinado em 2015, colocando um ponto final no pacto e abrindo caminho para produção de armas nucleares

6.jan Centenas de milhares de pessoas vão às ruas de Teerã em cortejo fúnebre de Suleimani

7.jan Confusão durante funeral de Suleimani em sua cidade natal, Kerman, deixa 56 mortos e 213 feridos

8.jan Guarda Revolucionária do Irã ataca com mísseis duas bases americanas no Iraque, sem deixar soldados americanos mortos; horas mais tarde, avião ucraniano com destino a Kiev cai perto ao aeroporto de Teerã, matando as 176 pessoas a bordo

11.jan Irã assume que Exército do país derrubou avião por “erro humano”, e manifestantes contra o governo vão às ruas

14.jan Quarto dia de protestos contra o regime; ativistas acusam a polícia de usar munição letal para dispersar grupos

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