Iranianos sobem pressão e saem às ruas pelo 2º dia contra governo

Donald Trump pede que líderes não impeçam protestos e diz que EUA estão observando

Reuters

Protestos tomaram o Irã pelo segundo dia consecutivo neste domingo (12), aumentando a pressão sobre os líderes do país após forças militares admitirem que derrubaram por engano na quarta (8) um avião comercial ucraniano que levava 176 pessoas.

Vídeos em redes sociais mostram grupos de manifestantes em Teerã bradando frases na linha "nosso inimigo não é a América, nosso inimigo está bem aqui", em locais próximos a universidades na capital e em outras cidades iranianas. 

policiais seguram manifestantes
Forças de segurança iranianas guardam a embaixada britânica diante de protestos na capital, Teerã - Atta Kenare/AFP

O policiamento foi reforçado, e moradores de Teerã relataram que as forças policiais estavam posicionadas em diferentes pontos da capital.

Não havia informações oficiais, até a conclusão desta edição, sobre o tamanho das manifestações ​nem sobre detidos.

A agência de notícias iraniana Ilna estimava em cerca de 3.000 pessoas nos protestos.

Segundo o jornal britânico The Guardian, a polícia usou bombas de gás lacrimogêneo para dispersar manifestantes. Imagens publicadas em redes sociais mostravam ativistas correndo da polícia e dos disparos de gás lacrimogêneo.

No Twitter, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, disse aos líderes do Irã que "não matem seus manifestantes" e que não impeçam a divulgação de informações. "Religuem a internet e deixem os repórteres andarem livremente."

"O mundo está observando. Mais importante, os EUA estão observando", escreveu ele.

Horas mais tarde, o republicano subiu o tom e afirmou que não se importava se os iranianos aceitariam negociar. “Eles é que vão decidir, mas sem armas nucleares.”

O presidente respondia a uma declaração do seu assessor de segurança nacional, Robert O’Brien, que disse que a campanha de “pressão máxima” dos EUA estava sufocando o Irã —que não teria outra chance a não ser negociar.

Trump havia se manifestado no sábado saudando a coragem dos que saíram às ruas para protestar. 

O aiatolá Ali Khamenei, líder supremo do Irã, por sua vez, reiterou que os problemas que o país enfrenta são provocados pelos Estados Unidos. Em seu site oficial, ele pediu por uma maior cooperação entre os países da região.

"A situação na região é inapropriada por causa dos Estados Unidos e seus amigos, e a única forma de lidar com isso é confiar na cooperação dentro da região", disse o líder ao emir do Catar, xeque Tamim bin Hamad al-Thani, que está em visita oficial a Teerã.

Neste domingo, o governo convocou o embaixador britânico no Irã, Rob Macaire, para dar explicações sobre sua participação em um protesto no sábado, considerado ilegal pelo governo.

Ele foi detido brevemente por forças policiais e liberado após se identificar como diplomata. Macaire nega que estivesse em uma manifestação contra o governo. Ele afirmou em uma rede social que participou por cinco minutos de uma vigília em homenagem aos mortos no avião.

O ministro das Relações Exteriores britânico, Dominic Raab, classificou o episódio como "violação flagrante da legislação internacional". Já o chefe da diplomacia da União Europeia, Josep Borrell, se disse muito preocupado: "Total respeito à convenção de Viena é uma obrigação."  ​

No sábado (11), grupos já haviam saído às ruas em protesto contra o governo liderado por Khameinei e em tributo aos mortos na queda do avião, derrubado por um míssil —que, segundo o comandante da seção aeroespacial da Guarda Revolucionária iraniana, foi disparado por um soldado por engano devido a uma interferência nas telecomunicações.

A polícia já havia combatido os manifestantes com gás lacrimogêneo. 

Jornais como New York Times e Guardian relataram manifestações com iranianos gritando "Khamenei é assassino" e "Khamenei acabou", assim como pessoas rasgando fotos do general Qassim Suleimani, morto pelos EUA e estopim da crise entre os dois países.

A tensão política tem aumentado na região depois que o Irã assumiu ter derrubado o Boeing 737-800 da Ukraine International Airlines, que matou 82 iranianos, 63 canadenses e 11 ucranianos.

Com a voz embargada durante uma homenagem aos mortos, o primeiro-ministro do Canadá, Justin Trudeau, prometeu buscar justiça e responsabilização dos culpados. 

“Vocês podem se sentir sozinhos, mas não estão. Seu país inteiro está com vocês hoje, nesta noite, amanhã e em todos os anos que estão por vir”, disse para cerca de 2.300 pessoas reunidas em um ginásio, na cidade de Edmonton, onde viviam 13 das vítimas.

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