Descrição de chapéu Brexit

Música cantada após aprovação do brexit marca início de Ano-Novo na Escócia

'Deve um antigo conhecido ser esquecido?', pergunta poema do século 18 entoado por eurodeputados

São Paulo

“Deve um antigo conhecido ser esquecido / E nunca mais ser lembrado? / Deve um antigo conhecido ser esquecido / nos velhos tempos?”

Os melancólicos versos da igualmente melancólica balada escocesa “Auld Lang Syne” (algo como “velhos tempos”) embalaram o começo da despedida do Reino Unido da União Europeia.

Nesta quarta-feira (29), após o Parlamento europeu ratificar o acordo do brexit ao fim de um emotivo debate, no qual diversos parlamentares choraram, os deputados da Casa cruzaram os braços em frente ao corpo e se deram as mãos, enquanto entoavam a música tradicionalmente cantada na Escócia e em países de língua inglesa nos primeiro segundos de um novo ano.

A música veio de um poema escrito no final do século 18 por Robert Burns, um dos mais conhecidos autores escoceses. Filho de um fazendeiro, passou parte de seus 37 anos viajando pelo país e observando cenários e tradições locais, período no qual criou compulsivamente.

Seus “poemas podem ser satíricos mas também cheios de sentimentos; eles lidam com amor e luxúria (Burns sendo versado em ambos), fraquezas e hipocrisias humanas. O que os torna especiais é a maneira com a qual ele escreve sobre esses temas: sua habilidade e o uso da língua”, afirma o site da Biblioteca de Poesia Escocesa, organização sediada em Edimburgo.

A letra se espalhou pelo mundo, entrando na cultura pop e ganhando versões locais em diversos países: foi gravada pela diva americana Mariah Carey e no Brasil virou "adeus, amor, eu vou partir", na voz de Francisco Alves. 

Burns criou o poema em escocês (“scots”), língua de sonoridade similar e vocábulos parecidos com o inglês. Parte do livro “Trainspotting”, de Irvine Welsh, no qual o filme homônimo de 1996 se baseia, foi escrita em scots, para citar um exemplo de uso contemporâneo do idioma. Esta é a razão pela qual muitas pessoas não sabem a letra ou só conhecem os primeiros versos de “Auld Lang Syne”, o que deu à música o apelido de “a canção que ninguém sabe”.

Cantada na virada do ano —e na despedida britânica do bloco europeu—, ela tem o óbvio significado de marcar o fim de um ciclo e o começo de outro. Quando se lê o resto da letra, porém, o que vem à tona são versos sobre velhos amigos que se reencontram, rememoram os velhos tempos e bebem juntos: “E certamente você comprará seu copo de cerveja! / E certamente eu comprarei o meu! / E nós ainda beberemos um copo de bondade”.

Será este o destino do Reino Unido e da União Europeia?

Deputados do Parlamento britânico reagem emocionados após acordo do brexit ser ratificado, em Bruxelas - Francois Lenoir/Reuters

Veja a letra traduzida de ‘Auld Lang Syne’

Velhos tempos

Deve um antigo conhecido ser esquecido
E nunca mais ser lembrado?
Deve um antigo conhecido ser esquecido
nos velhos tempos?

Pelos velhos tempos, meu caro
Pelos velhos tempos
Ainda beberemos um copo de bondade
Pelos velhos tempos

E certamente você comprará seu copo de cerveja!
E certamente eu comprarei o meu! 
Ainda beberemos um copo de bondade

Nós dois já corremos pelas colinas
E colhemos margaridas
Mas já vagamos cansados por muitos lugares
Desde os velhos tempos

Nós dois remamos na corrente
Do sol da manhã até o jantar
Mas os mares entre nós já bravejaram muito
Desde os velhos tempos

E tem uma mão, meu fiel amigo!
E dê a mão ao teu
E tomaremos um bom drinque
Pelos velhos tempos

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