Presos por 11 de Setembro confrontam idealizador de interrogatório da CIA

Psicólogo depõe em audiência em que supostos terroristas dizem ter sido vítimas de tortura

São Paulo

Um dos criadores do programa de “interrogatório aprimorado” usado pela CIA (agência de inteligência americana) após o 11 de Setembro foi, pela primeira vez, confrontado com cinco acusados de participação nesses atentados, que dizem ter sido espancados, afogados e privados de sono em centros de detenção secretos do governo americano.

O psicólogo James E. Mitchell foi chamado a depor nesta terça (21) em uma das sessões que antecedem o julgamento dos suspeitos de planejar o ataque às Torres Gêmeas, em Nova York, em 2001.

 
pessoas com macacões laranja e capuzes pretos andam em fila indiana, com o capitólio ao fundo
Manifestantes vestidos como prisioneiros de Guantánamo protestam em frente ao Capitólio, em Washington, no começo do mês - Brendan Smialowski - 9.jan.20/AFP

A audiência em Guantánamo, Cuba, está sendo acompanhada de perto por ativistas de direitos humanos e deve se estender pelas próximas duas semanas.

Já o julgamento final dos acusados, que se arrasta desde 2012, está marcado para janeiro do ano que vem. Todos eles podem ser condenados à morte.

Vim pelas vítimas e suas famílias, não por você”, disse Mitchell, no início do interrogatório, a um dos advogados de defesa. Doze parentes dos mortos na tragédia podiam ser vistos na sessão, vestindo gravatas estampadas com a estátua da Liberdade, segundo relato do jornal The New York Times.

“Vocês têm dito coisas mentirosas e maliciosas sobre mim por anos”, afirmou, mais tarde. O psicólogo poderia ter dado seu depoimento de Washington, via teleconferência.

Um relatório produzido pelo Senado americano e divulgado em 2014 afirma que o programa de interrogatório incluía técnicas de tortura, como humilhações sexuais, exposição dos detentos a situações extremas de calor ou de frio e confinamento em baús semelhantes a caixões.

Um procedimento comum, segundo o documento, era o uso de alimentação retal e reidratação no caso dos detidos que se recusavam a comer.

O psicólogo James Mitchell, que ajudou a criar o programa de interrogatório da CIA após o 11 de Setembro
O psicólogo James Mitchell, que ajudou a criar o programa de interrogatório da CIA após o 11 de Setembro - Angel Valentin/The New York Times

Um dos acusados, o saudita Mustafa Ahmad al-Hawsawi —suspeito de fornecer dinheiro, cartões de crédito e roupas aos sequestradores dos aviões— ficou com hemorroidas crônicas e uma fissura anal que impedem que ele se sente por longos períodos.

Outro artifício é conhecido como “waterboarding” ou afogamento seco. Nele, posiciona-se uma toalha sobre o rosto da vítima, que é então afogada por meio do derramamento de água sobre sua boca. 

Os torturadores contratados pela CIA submeteram Khalid Shaikh Mohammed ao método 183 vezes, segundo o relatório da CIA.

O documento pôs em dúvida a qualidade das informações obtidas nos interrogatórios forçados.
Os depoimentos de Mitchell e de seu parceiro na criação do programa, o também psicólogo John Bruce Jessen, foram requisitados pelos advogados de defesa de Ammar al-Baluchi, suposto responsável pelo treinamento dos sequestradores do 11 de Setembro. Ele é sobrinho de Khalid Shaikh Mohammed, que teria sido mentor do atentado.

É provável, no entanto, que não só os advogados de Baluchi interroguem os psicólogos, como também as equipes de defesa dos quatro demais acusados. O objetivo deles é retirar dos autos do processo declarações suas obtidas pelo FBI, a polícia federal americana, em 2007.

egundo profissionais ouvidos pelo jornal britânico The Guardian, essas declarações, apesar de obtidas sem violência, foram realizadas poucos meses após a chegada dos acusados a Guantánamo, quando eles ainda estavam traumatizados pela tortura que sofreram em centros de detenção secretos da CIA.

Um deles, localizado na Tailândia, foi inclusive coordenado pela atual diretora da agência, Gina Cheri Haspel.

O governo americano argumenta que os interrogatórios foram conduzidos da maneira correta e, portanto, podem ser usados no tribunal.

Advogada de Baluchi, Alka Pradhan contestou essa interpretação. “Eles sabiam que precisavam de interrogatórios ‘limpos’ para conseguirem processar os acusados.” A advogada qualifica a audiência como uma das mais importantes dos últimos oito anos.

Ela acredita que os depoimentos de Mitchell e Jessen devem ajudar a mostrar que não só a CIA, mas também o FBI, se envolveram em técnicas consideradas degradantes.

Os psicólogos insistem, porém, que não fizeram nada de errado e que as práticas eram consideradas legais pela administração de George W. Bush.

Mitchell e Jensen, que antes trabalhavam na força aérea americana, receberam US$ 1.800 por dia na época de implementação do programa. 

Em 2005, eles iniciaram uma empresa privada para empregar interrogadores e seguranças nos centros de detenção secretos da CIA. A iniciativa recebeu mais de US$ 80 milhões até o término de seu contrato, em 2009.

A dupla respondeu, há três anos, pela tortura de três detentos numa prisão da CIA, no Afeganistão. Um deles morreu no local. Na época, Mitchell afirmou que a situação era lamentável, mas que nem ele nem Jessen eram responsáveis por ela. Eles chegaram a um acordo confidencial com representantes das vítimas.

A controversa prisão na base naval americana de Guantánamo tem atualmente 40 detentos e já foi palco de tortura, segundo admitiram autoridades americanas. 

O governo Obama não conseguiu fechar o centro de detenção, apesar das promessas durante a sua campanha. 

Em janeiro de 2018, o presidente Donald Trump ordenou que o espaço continuasse aberto, e previu que “em muitos casos” mais suspeitos de terrorismo poderiam ser enviados para lá. 

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