Descrição de chapéu The New York Times

Rara visita a cidade uigur na China revela população perseguida, mas resiliente

Sob vigilância e pressão de governo, muçulmanos tentam manter tradições

Yarkand (China) | New York Times News Service

As ruas sinuosas e movimentadas de Yarkand, antiga cidade na Rota da Seda, preservam padrões de vida que remontam a séculos.

Em uma manhã recente, a fumaça subia de grelhados de cordeiro e fornos forrados de pão pita. Ruídos brotavam de um ferreiro que moldava tigelas com um martelo. Sons de um dutar, alaúde de duas cordas, flutuavam de uma loja de instrumentos musicais tradicionais. Em uma casa de chá mal iluminada, velhos usando gorro muçulmano conversavam em murmúrios.

Mulher uigur em rua de Yarkand, na região de Xinjiang, China
Mulher uigur em rua de Yarkand, na região de Xinjiang, China - Gilles Sabrié/The New York Times

Situada à beira do deserto de Taklamakan, Yarkand continua sendo um berço cultural para os uigures, minoria majoritariamente muçulmana na região de Xinjiang, no oeste da China. Mas o modo de vida deles está sob intensa pressão.

Os uigures enfrentam, há três anos, uma campanha abrangente para transformá-los em seguidores obedientes do Partido Comunista, enfraquecer seu compromisso com o Islã e transferi-los de fazendas para fábricas.

As aldeias e cidades de Xinjiang estão cercadas por grandes postos de controle da polícia, que usam scanners de reconhecimento facial para registrar as pessoas que vão e vêm.

Um milhão ou mais de uigures foram enviados para campos de doutrinação desde 2017. Yarkand foi dizimada por essas detenções.

Em 2018, esta cidade de aproximadamente 200 mil pessoas foi efetivamente fechada para jornalistas estrangeiros, com postos de controle da polícia bloqueando a entrada de carros. Desde o ano passado, porém, as autoridades de Xinjiang abrandaram um pouco o controle e conseguimos entrar.

Nossa visita revelou uma cidade marcada por revoltas recentes. Escavadeiras estão derrubando casas na cidade velha, condenadas como "cortiços", para dar lugar a novos bairros.

No entanto, os uigures de lá também pareciam resilientes. Eles se apegam aos hábitos arraigados de sua história como agricultores, comerciantes e muçulmanos que vivem na borda dos desertos.

Chegamos a Yarkand em um trem matinal vindo de Hotan, pequena cidade a 280 quilômetros dali. Depois de algumas negociações e telefonemas, um policial e um oficial de propaganda que se apressaram a ir até a estação nos permitiram fazer a visita, desde que concordássemos em pegar um trem naquela noite para Kashgar, a próxima cidade em nossa jornada para ver como a região de Xinjiang estava mudando.

Uma breve viagem de táxi nos levou à antiga Yarkand, quando lojas e restaurantes começavam a se animar. Éramos vigiados constantemente por oficiais à paisana e limitávamos as conversas com os residentes a breves diálogos, temendo lhes causar problemas.

Yarkand ainda oferece vislumbres de seus antigos esplendores. A rua principal da antiga área comercial é pontilhada pelos sobrados de comerciantes, desbotados e rachados. Suas balaustradas de madeira e tetos de gesso são decorados com padrões florais em espiral, lembrando a história da cidade como uma parada em rotas comerciais que cruzam a China, a Ásia Central e além.

O município foi a capital de uma dinastia islâmica, o Canado de Yarkand, que durou dois séculos a partir de 1514. Os uigures creditam ao canado o aprimoramento de um conjunto reverenciado de apresentações musicais, os Doze Muqam. Túmulos dos cãs ("líder tribal", em mongol e em turco) estão em um amplo cemitério aqui.

Na principal rua comercial, grupos de mulheres usando vestidos brilhantes passeavam pelas lojas que vendiam roupas de criança ou debatiam sobre bandejas brilhantes de colares e anéis em bancas de joias. Os portadores de tendas, corpulentos, colocavam pilhas de tâmaras e uvas passas ou sanzi, um lanche de massa frita.

Nesta jornada pelo sul de Xinjiang, os lugares que visitamos nas profundezas da repressão em 2017 e 2018 pareciam mais movimentados e mais lotados agora, sugerindo que as restrições aos moradores haviam diminuído um pouco.

Os postos de controle da polícia nas aldeias e cidades tornaram-se menos rigorosos no último ano, e está mais fácil se movimentar. Nos bazares, mais rostos tinham as feições endurecidas pelo tempo dos agricultores, sugerindo que hoje é mais fácil vir das aldeias.

Homens uigures assistem a um filme em casa de chá de Yarkand
Homens uigures assistem a um filme em casa de chá de Yarkand - Gilles Sabrié/The New York Times

Os motivos dessas mudanças não são claros, e os funcionários não ofereceram explicações. O governo pode ter se sentido mais confiante depois de deter tantas pessoas. Ou pode ter achado que precisava abrandar um pouco o controle porque as restrições estavam sufocando a economia e o turismo locais e provocando condenação internacional.

Mesmo assim, Yarkand permanece cingida pela segurança. Grades metálicas de proteção envolviam muitas lojas. Os cutelos dos cozinheiros estavam acorrentados a bancos, como exigem as regras da polícia, para evitar possíveis facadas.

O governo espera que a segurança traga de volta os turistas, e Yarkand transformou um palácio dos cãs, graciosamente reconstruído, em uma atração vistosa, que também serve como cenário de cinema e televisão.

"Cultura chinesa, expressão chinesa", diz uma placa na entrada do edifício. Lá dentro, os visitantes são recebidos por um retrato de Xi Jinping, líder do Partido Comunista, acenando contra um fundo que exibe modernos prédios de apartamentos.

Alguns sinais de mudança em Yarkand desde a repressão são sutis. Em um parque empoeirado, seis barbeiros manipulavam navalhas, raspando os bigodes dos homens, grunhindo ocasionalmente para que o cliente ficasse imóvel ou inclinasse a cabeça.

Há pouco tempo, os barbeiros eram menos procurados. A partir dos anos 1990, o sul de Xinjiang experimentou um ressurgimento islâmico. Homens mais jovens usavam gorros muçulmanos e barbas, enquanto mais mulheres passaram a usar as pesadas toucas e vestidos longos comuns no Oriente Médio para demonstrar piedade islâmica.

O governo culpou esse ressurgimento da religião pela crescente resistência étnica e pela violência, incluindo um confronto em Yarkand em 2014, quando uigures com machados e facas atacaram um escritório do governo e uma delegacia de polícia e mataram 37 pessoas, segundo relatórios oficiais.

Hoje, as manifestações da fé islâmica praticamente desapareceram de Yarkand e de toda Xinjiang, após as detenções em massa e uma onda de proibições. A maioria das mulheres usava lenços de cabeça modestos ou nenhum; apenas alguns homens velhos tinham barbas. As mesquitas pareciam fechadas ou praticamente vazias, mesmo em horas de oração. Observar o Ramadã é oficialmente desencorajado.

Quando paramos do lado de fora da mesquita de Juma, um homem saiu correndo e nos enxotou. "Ame o partido, ame o país", dizia uma faixa acima da entrada. Essa mensagem se repetia na frente de outras mesquitas em Xinjiang.

Nem todas as tradições desapareceram, porém. Em meio aos escombros de uma construção demolida, os moradores compravam carneiros para o Eid al-Adha, o Festival do Sacrifício, chamado de Corban pelos uigures. Eles examinavam atentamente a variedade local do animal, com suas nádegas extravagantemente gordas, e abriam suas mandíbulas para verificar a boca. Os carneiros seriam mortos e compartilhados durante dias de festança.

Os restaurantes da antiga Yarkand eram um burburinho de famílias multigeracionais reunidas em torno de porções de macarrão, samsa --bolinhos de carne moída-- e sopa de carne de carneiro. Placas nas paredes  repetiam o apelo do governo por unidade étnica. "Todos os grupos étnicos devem se unir tão firmemente quanto as sementes de romã", dizia uma placa vista na maioria das lojas.

Em um café no subsolo, mulheres uigures com idade em torno de 20 anos, usando óculos escuros, jeans e saias brilhantes, conversavam tomando refrescos. Uma mulher estava sentada ao lado de um homem baixo e velho, de barba branca, talvez o avô dela, oferecendo-lhe colheradas de sorvete.

Membros da maioria han da China eram uma visão incomum. Yarkand tem mais de 90% de uigures, embora a cultura e o idioma chinês estejam se espalhando. Uma garota passou na garupa de uma bicicleta elétrica, segurando um livro para aprender chinês --o idioma escolar para crianças uigures atualmente.

Enquanto andávamos, perguntamos-nos se os transeuntes poderiam ser ex-detentos de campos ou prisões de doutrinação. Vimos jovens absorvidos em um jogo de sorteio na rua, gritando ou fazendo careta pelos resultados. Só podíamos adivinhar quantos homens mais haveria ali antes da onda de detenções.

Registros governamentais de seis vilarejos nas áreas rurais de Yarkand em 2018 mostraram que quase 16% dos 3.249 adultos listados foram mantidos em campos de doutrinação, prisões ou centros de detenção criminal, segundo Adrian Zenz, pesquisador alemão que estudou Xinjiang em um relatório recente.

Perto da estação de trem, um campo de doutrinação parecia vazio; o cordão habitual de guardas se fora. O governo disse que os campos em Xinjiang estão encolhendo. Mas outros maiores que tentamos visitar no sul do estado ainda estavam sob forte guarda, sugerindo que continuam em operação.

A velha Yarkand talvez não sobreviva por muito mais tempo. "Leve a reforma até o fim", dizia um slogan pintado em casas destruídas, à espera de serem derrubadas.
 

Tradução de Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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