Revelação de ex-assessor de Trump pressiona senadores por novos depoimentos

Republicanos admitem chance de convocar testemunhas em impeachment após manuscrito vir à tona

Washington | Reuters

Aliados de Donald Trump no Senado receberam uma carga extra de pressão nesta segunda (27) após a revelação de que o ex-conselheiro de Segurança Nacional John Bolton escreveu no manuscrito de um livro não publicado que o presidente queria congelar a ajuda financeira à Ucrânia até Kiev abrir investigações contra rivais democratas.

Agora, sob a luz das novas informações, congressistas da oposição voltaram à carga para exigir o depoimento de Bolton e de outras testemunhas no julgamento de impeachment de Trump.

O senador republicano Mitt Romney, um crítico do presidente, disse que há uma probabilidade crescente de que ao menos quatro colegas de partido estejam dispostos a ouvir o ex-assessor da Casa Branca, dando aos democratas os votos necessários para convocá-lo.

O presidente Donald Trump caminha na Casa Branca, em Washington
O presidente Donald Trump caminha na Casa Branca, em Washington - Saul Loeb/AFP

Até o momento, os senadores republicanos se recusam a permitir a convocação de testemunhas ou a apresentação de novas evidências no julgamento que determinará se Trump será afastado do cargo.

Bolton escreveu no manuscrito que o presidente disse a ele querer congelar US$ 391 milhões (R$ 1,6 bilhão) em ajuda à Ucrânia em troca da abertura de investigações contra o ex-vice-presidente Joe Biden e seu filho Hunter Biden, ex-conselheiro da empresa de gás ucraniana Burisma.

Os democratas alegam que Trump usou a liberação da ajuda —aprovada pelo Congresso para auxiliar Kiev a combater separatistas apoiados pela Rússia— como condição para obrigar o país a difamar um rival político doméstico.

Biden é um dos principais candidatos à nomeação democrata para as eleições presidenciais de 3 de novembro.

O relato explosivo de Bolton foi incluído em versões preliminares de um manuscrito que ele circulou nas últimas semanas entre pessoas próximas.

O ex-assessor também enviou o rascunho à Casa Branca para ser submetido à revisão —um procedimento padrão no caso de livros escritos por atuais e antigos funcionários do governo.

O livro apresenta um esboço do que o ex-assessor de Segurança Nacional pode dizer em depoimento caso seja chamado a depor, segundo pessoas que tiveram acesso ao conteúdo do texto. Bolton disse neste mês que testemunhará se for intimado judicialmente.

Há temores de que a Casa Branca possa se aproveitar do processo de revisão pré-publicação, que não tem prazo definido para ser concluída, para adiar, omitir trechos chave ou mesmo impedir a publicação do livro.

Bolton descreveu ao longo de dezenas de páginas como o caso da Ucrânia foi se desenrolando ao longo de vários meses, até sua saída da Casa Branca, em setembro.

Nos últimos dias, funcionários da Casa Branca vêm descrevendo Bolton como um ex-funcionário decepcionado que, quando deixou o governo, levou papéis que deveria ter deixado para trás.

Trump disse a jornalistas na semana passada que não quer que Bolton deponha e que qualquer fala pública do ex-assessor pode prejudicar a segurança nacional.

“A questão com John é que é um problema de segurança nacional”, disse Trump em entrevista coletiva em Davos, na Suíça. “Ele está a par de alguns de meus pensamentos. Ele sabe o que penso de líderes. O que vai acontecer se ele revelar o que penso de determinado líder e não for muito positivo? Isso vai dificultar muito o meu trabalho.”

Nesta segunda (27), no Twitter, Trump escreveu que nunca disse a Bolton que a ajuda à Ucrânia estava ligada às investigações de democratas, incluindo os Biden. "Se John Bolton disse isso, foi só para vender livro", afirmou. Ele voltou a afirmar que a ajuda à Ucrânia foi dada sem nenhuma condição.

A repórteres, do lado de fora da Casa Branca após se encontrar com o premiê israelense, Binyamin Netanyahu, disse que não tinha visto o manuscrito.

John Bolton, 71, presença constante nos círculos conservadores de segurança nacional desde seus tempos na administração Reagan, entrou para a Casa Branca em 2018 depois de ter sido recomendado a Trump por várias pessoas.

Mas a relação com o presidente azedou ao longo de várias crises globais, incluindo a situação iraniana, a postura dos EUA em relação à Rússia e, finalmente, a questão da Ucrânia.

Outra senadora republicana moderada, Susan Collins disse que as repercussões sobre o livro de Bolton "fortalecem a convocação de testemunhas".

O presidente do Comitê Judiciário do Senado, Lindsey Graham, aliado republicano de Trump, disse que apoiaria a emissão de uma intimação para obter o manuscrito do ex-assessor, de acordo com um repórter da CNN.

A Câmara dos Representantes liderada pelos democratas acusou Trump no mês passado de abuso de poder em suas negociações com a Ucrânia e obstrução do Congresso, iniciando o julgamento no Senado liderado pelos republicanos.

Espera-se que Trump seja absolvido, uma vez que os republicanos detêm 53 das 100 cadeiras da Casa —é necessária uma votação de dois terços do Senado para condenar e remover um presidente do cargo.

Com informações do New York Times

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