Descrição de chapéu The New York Times

Manuscrito de ex-assessor de Trump associa ajuda à Ucrânia a investigação contra Bidens

No Twitter, presidente americano nega ter condicionado uma coisa à outra

Washington | The New York Times

O presidente Donald Trump disse a seu assessor de segurança nacional em agosto de 2019 que queria continuar a congelar um pacote de US$ 391 milhões de assistência à Ucrânia enquanto as autoridades desse país não ajudassem com investigações sobre democratas, incluindo os Biden.

A revelação está em um manuscrito ainda inédito do ex-assessor em questão, John Bolton.

A declaração do presidente, conforme descrita por Bolton, pode enfraquecer um elemento crucial da defesa de Trump contra seu impeachment: a alegação de que a suspensão da ajuda não teve relação com os pedidos de que a Ucrânia anunciasse investigações sobre seus supostos adversários, incluindo o ex-vice-presidente Joe Biden e seu filho Hunter Biden, que trabalhou para uma empresa ucraniana de energia enquanto seu pai foi vice de Barack Obama (2009-2017). 

John Bolton durante evento na Casa Branca em 2018
John Bolton durante evento na Casa Branca em 2018 - Liu Jie-2.ago.18/Xinhua

No Twitter, Trump escreveu que nunca disse a Bolton que a ajuda à Ucrânia estava ligada às investigações contra democratas. "Se John Bolton disse isso, foi só para vender livro", afirmou. Ele voltou a afirmar que a ajuda à Ucrânia foi dada sem nenhuma condição.

A repórteres, do lado de fora da Casa Branca após um encontro com o premiê israelense Binyamin Netanyahu, ele disse não ter visto o manuscrito.

O relato explosivo que Bolton fez da questão no centro do julgamento de impeachment de Trump, o terceiro da história dos Estados Unidos, foi incluído em versões preliminares de um manuscrito que ele circulou nas últimas semanas entre pessoas próximas.

Bolton também enviou um rascunho à Casa Branca para ser submetido à revisão —um procedimento padrão no caso de livros escritos por atuais e antigos funcionários da administração

O livro apresenta um esboço do que o ex-assessor de Segurança Nacional pode dizer em depoimento se for chamado para testemunhar no julgamento do impeachment no Senado, segundo pessoas que tiveram acesso ao conteúdo do texto. 

Há temores de que a Casa Branca possa se aproveitar do processo de revisão pré-publicação, que não tem prazo definido para ser concluída, para adiar, omitir trechos chave ou até mesmo impedir a publicação do livro.

Bolton descreveu ao longo de dezenas de páginas como o caso da Ucrânia foi se desenrolando ao longo de vários meses, até sua saída da Casa Branca, em setembro.

Ele descreveu as observações depreciativas feitas de forma reservada pelo presidente americano sobre o país e trouxe novos detalhes sobre funcionários seniores do gabinete que vêm tentando publicamente evitar serem envolvidos no caso.

O secretário de Estado, Mike Pompeo, por exemplo, admitiu reservadamente que as alegações do advogado do presidente Rudy Giuliani de que a embaixadora americana na Ucrânia era corrupta não tinham fundamento e afirmava acreditar que Giuliani talvez estivesse representando os interesses de outros clientes, escreveu Bolton.

​O ex-assessor disse também que, após o telefonema de Trump ao presidente ucraniano, em julho, ele levantou preocupações em relação a Giuliani com o secretário da Justiça, William Barr, que estava levando adiante uma política ucraniana irregular incentivada pelo presidente, e disse a Barr que o presidente mencionara seu nome no telefonema.

Uma porta-voz de Barr negou que o secretário tenha tomado conhecimento do telefonema graças a Bolton. O Departamento de Justiça disse que Barr só soube do telefonema em meados de agosto.

O chefe interino de gabinete da Casa Branca, Mick Mulvaney, esteve presente durante pelo menos um telefonema em que o presidente e Giuliani discutiram a situação da embaixadora, escreveu Bolton.

Mulvaney disse a pessoas ligadas a ele que sempre se afastava quando o presidente falava com seu advogado, para proteger a privacidade das discussões entre advogado e cliente.

Durante uma reunião em 23 de maio, previamente relatada, em que assessores de alto escalão e o senador Ron Johnson (republicano do Wisconsin) fizeram um relato breve para Trump sobre a viagem deles a Kiev para assistir à posse do presidente Volodimir Zelenski, o líder americano se queixou amargamente da Ucrânia, dizendo que estava tentando prejudicá-lo e mencionou uma teoria conspiratória sobre um servidor democrata hackeado, segundo Bolton.

Um advogado de Bolton, Charles J. Cooper, não comentou as informações. A Casa Branca não respondeu a perguntas sobre as declarações do ex-assessor no manuscrito, e representantes de Johnson, Pompeo e Mulvaney não responderam a e-mails e telefonemas na tarde de domingo pedindo comentários.

O envio do livro para revisão pode ter dado aos advogados da Casa Branca uma visão direta do que Bolton pode dizer se for chamado a prestar depoimento no julgamento de impeachment de Trump e intensificou a visão de alguns dos assessores do presidente de que precisam impedi-lo de depor, segundo duas pessoas que estão a par das preocupações dos assessores.

A Casa Branca ordenou ao ex-assessor e outros funcionários chave que têm conhecimento em primeira mão dos atos de Trump que não cooperem com a investigação do impeachment. Bolton disse neste mês que testemunhará se for intimado judicialmente para isso.

Nos últimos dias, alguns funcionários da Casa Branca vêm descrevendo Bolton como um ex-funcionário decepcionado e que, quando deixou o governo, levou papéis que deveria ter deixado para trás.

Trump disse a jornalistas na semana passada que não quer que Bolton preste depoimento e que qualquer fala pública do ex-assessor pode prejudicar a segurança nacional.

“A questão com John é que é um problema de segurança nacional”, disse Trump em entrevista coletiva em Davos, na Suíça. “Ele está a par de alguns de meus pensamentos. Ele sabe o que penso de líderes. O que vai acontecer se ele revelar o que penso de determinado líder e não for muito positivo? Isso vai dificultar muito o meu trabalho”, acrescentou.

John Bolton, 71, presença constante nos círculos conservadores de segurança nacional desde seus tempos na administração Reagan, entrou para a Casa Branca em 2018 depois de ter sido recomendado a Trump por várias pessoas, incluindo o mega doador republicano Sheldon Adelson.

Mas a relação entre com o presidente azedou ao longo de várias crises globais, incluindo a postura de Trump em relação ao Irã e à Rússia e, finalmente, a questão da Ucrânia.

Bolton também teve diferenças com Pompeo e Mulvaney em vários momentos durante seu período no governo.

Um momento chave do relato que Bolton fez sobre a Ucrânia foi uma conversa que ele teve com o presidente durante uma reunião em agosto, depois de Trump voltar de férias em seu clube de golfe em Bedminster, Nova Jersey.

Bolton mencionou os US$ 391 milhões em assistência reservados pelo Congresso à Ucrânia, para a guerra travada no leste do país contra separatistas apoiados pela Rússia. 

Bolton destacou que autoridades haviam congelado a ajuda e que o prazo final para começar seu envio a Kiev estava se aproximando.

Nas semanas anteriores, escreveu Bolton, ele, Pompeo e o secretário de Defesa, Mark T. Esper, haviam pressionado o presidente coletivamente quase uma dúzia de vezes para enviar os valores, depois de funcionários de escalão mais baixo que trabalhavam com questões ligadas à Ucrânia terem começado a apresentar queixas sobre a suspensão.

Trump os rejeitou, apresentando suas mágoas de longa data em relação à Ucrânia, misturando esforços reais de alguns ucranianos para apoiar sua adversária democrata em 2016, Hillary Clinton, com acusações infundadas e teorias conspiratórias sem base sobre o país, um aliado importante dos EUA.

Rudy Giuliani também passara meses alimentando a paranoia do presidente sobre a então embaixadora americana na Ucrânia, Marie Yovanovitch, dizendo que ela era abertamente anti-Trump e precisava ser demitida.

O presidente ordenara o afastamento dela em abril de 2018, durante um jantar reservado com dois associados de Giuliani e outras pessoas, conforme mostrou uma gravação dessa conversa levada a público no sábado (25)

Em uma discussão com Bolton em agosto de 2019, o presidente pareceu estar focando as teorias que Giuliani compartilhara com ele, respondendo a Bolton que preferia não enviar assistência alguma à Ucrânia enquanto as autoridades do país não entregassem todos os materiais de que dispunham sobre a investigação da Rússia relacionadas a Biden e partidários ucranianos de Hillary Clinton.

O presidente frequentemente ataca diversos adversários em suas diatribes, assim como coloca no mesmo saco os funcionários da Justiça que conduziram o inquérito da Rússia, democratas e outros que ele vê como seus inimigos, como ele parece ter feito quando falou com Bolton.

Tradução de Clara Allain

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