Descrição de chapéu The New York Times

Uma mulher de 37 anos concorreria à Presidência dos EUA, como Pete Buttigieg?

Políticas da idade do pré-candidato respondem às mesmas perguntas sobre experiência e identidade

The New York Times

Amy Klobuchar tinha 37 anos quando concorreu ao cargo de procuradora do distrito de Hennepin, em Minnesota.

Seu adversário, em um debate de 1998, rotulou-a de "nada além de uma briguenta de rua" —ao que Klobuchar respondeu: "Obrigada".

Klobuchar, que hoje é senadora democrata por Minnesota e candidata à Presidência dos EUA, adotou a imagem de um concorrente forte.

Ela deu um "soco" num rival em seu ringue moderado durante o debate democrata de novembro, mirando Pete Buttigieg, então prefeito de South Bend, em Indiana.

"Se acho que estaríamos naquele palco se tivéssemos a experiência que ele tem?", disse Klobuchar, falando por suas concorrentes femininas. "Não, não acho. Talvez estejamos presas a um padrão de exigência diferente."

O comentário de Klobuchar provocou conversas sobre se uma versão feminina de Buttigieg —eleito com menos de 10 mil votos e com menos de uma década de experiência— poderia ter avançado tão rapidamente em um campo presidencial lotado.

(A congressista Tulsi Gabbard, 38 anos e quatro mandatos, estava naquele palco em novembro, mas não se qualificou para um debate desde então.)

O ex-prefeito da quarta maior cidade de Indiana hoje está em terceiro lugar nas pesquisas em Iowa, 13 pontos à frente da senadora em terceiro mandato por Minnesota.

Antes do 38º aniversário de Buttigieg, no domingo (19), o New York Times conversou com mulheres da mesma idade que ele para obter informações sobre os planos de carreira e as perspectivas delas em cargos oficiais, fazendo as mesmas perguntas sobre política, experiência e identidade a que Buttigieg respondeu, de certa forma.

(Foram vasculhados bancos de dados de autoridades eleitas para encontrar pessoas exatamente da idade de Buttigieg.)

Algumas mulheres são democratas registradas, outras não são afiliadas a nenhum partido. Muitas delas estão familiarizadas, assim como Buttigieg, com o ceticismo que frequentemente acompanha a ambição política —mas seu gênero acrescenta um fator de confusão.

A pergunta de Klobuchar sobre se uma mulher com a experiência do prefeito de Indiana estaria em um palco de debate presidencial significa duas coisas: se uma mulher com a experiência dele decidiria que estava qualificada para concorrer e se doadores e eleitores a considerariam uma perspectiva viável.

A decisão de uma mulher pode ser distorcida pela falta de autoconfiança, disse Kelly Dittmar, professora assistente de ciência política na Universidade Rutgers. Mas também é influenciada por uma compreensão real dos preconceitos que ela provavelmente enfrentará.

Uma pesquisa recente da Ipsos descobriu que 74% dos independentes e democratas ficariam pessoalmente à vontade com uma presidente mulher, mas apenas 33% disseram que seus vizinhos ficariam.

"Os homens acordam de manhã, se olham no espelho e dizem: 'Eu seria um bom governador'", disse Dittmar. "Não vemos tanto isso nas mulheres."

Pergunta: O que fez você decidir que era qualificado para um cargo público?

Buttigieg, em resposta a uma pergunta de David Remnick no The New Yorker Festival sobre o "salto de imaginação" que o fez concorrer à Presidência em 2020: "Não me passa despercebido que em nenhum outro momento da história da República alguém como eu, fazendo algo parecido com isso, chegaria tão longe. Acredito que valida a ideia de que este é um momento que exige alguém como eu".

Amanda Stuck, deputada democrata no Legislativo de Wisconsin, que anunciou no ano passado que está concorrendo ao Congresso: "Bem, eu não diria que decidi que estava qualificada. Na verdade, eu realmente pensei que não estivesse qualificada, mas minha antecessora, que ocupou a cadeira antes de mim, me perguntou sobre isso quando ela decidiu sair e concorrer ao Senado estadual. Foi realmente por causa dela que decidi concorrer, e, de fato, nas duas primeiras vezes em que ela me perguntou eu disse que não".

Aja Brown, prefeita democrata de Compton, na Califórnia: "Quando tomei a decisão de dar um passo à frente, literalmente estendi a mão para outras pessoas —elas eram todas do sexo masculino, revendo agora. Eu lhes perguntei sobre as qualidades essenciais para a liderança".

Jessica Hembree, membro do conselho escolar em Shawnee Mission, em Kansas: "Ninguém ao longo da minha vida realmente me incentivou, sugeriu ou convidou para concorrer a qualquer coisa. Sinto que o mundo está constantemente convidando e incentivando os homens a serem líderes, e não fazendo isso pelas mulheres".

Nichole Frethem, membro do Conselho de Comissários do Condado de Ramsey, em Minnesota: "Sou uma idiota, não sou divertida em festas e falaria até cansar sobre uma estranha nuance de política pública. Provavelmente para me ver longe, eles diriam: você deve concorrer ao cargo".

Jocabed Marquez, membro do Conselho Municipal de San Marcos, no Texas: "Para mim é sobre representação, ter voz, e não apenas um corpo moreno naquele palanque. É sobre a experiência vivida pelas pessoas desta cidade, a contínua opressão e discriminação contra pessoas que se parecem comigo. Sou apenas a segunda latina eleita para a Câmara Municipal da minha cidade. A primeira foi na década de 1980, e eu em 2018".

Jasmine Clark, representante democrata na Câmara da Geórgia: "A resposta curta é que eu não sabia se estava qualificada ou não, mas sabia que era algo que queria fazer e senti que havia uma necessidade de preencher nossa Legislatura estadual, e é por isso que coloquei meu nome na cédula. Vindo de uma formação científica, não é como se eu imediatamente pensasse que seria uma grande legisladora, porque sou cientista e ensino microbiologia como trabalho diário. Eu não sou advogada. Todo o linguajar jurídico pode ser confuso. No final, senti que era algo que eu poderia fazer e sinto que sou uma aprendiz rápida".

Emily Holmes, supervisora do distrito democrático de North Strabane, na Pensilvânia: "Comecei sem ambições políticas. Fui juíza eleitoral. Dei uma olhada ao redor e percebi que podia fazer mais do que apenas facilitar o processo de votação, então fui encorajada por pessoas que eu conhecia em meu município a concorrer, e isso me deu o impulso necessário para colocar meu nome em votação".

Pergunta: Como você tem certeza de que seus eleitores sabem que você respeita a gravidade e a responsabilidade de ocupar um cargo público?

Buttigieg, questionado por Gabriel Debenedetti na New York Magazine sobre a importância do cerimonial na política: "Se você demonstrar vulnerabilidade da maneira errada —isso é algo em que costumo me apoiar muito na construção de relacionamentos ou mesmo na retórica política—, em momentos simbólicos, isso diz mais sobre você e diminui o peso do momento".

Marquez: "Você nunca me verá em público tomando uma bebida com um amigo ou mesmo dançando. Pequenas coisas como essas que as pessoas podem perceber como 'ela está sendo sedutora'. Mesmo em relação à maneira como me visto, me apresento e falo, não sei, quero que meus eleitores saibam que assumo esse cargo com responsabilidade e me mantenho em um nível realmente alto".

Clark: "Eu sempre sinto que tenho que me vestir bem. Até o ponto em que me sinto um pouco constrangida de sair de casa para ir ao supermercado se não estiver bem vestida. Até o ponto em que, se encontrar um eleitor, ele sente que tomou uma boa decisão quando votou em mim, nunca usando pijama para ir comprar leite".

Edwards: "Muitos dos problemas que as pessoas enfrentam são questões de vida ou morte, acesso a seguro-saúde, imigração, violência armada. Quero garantir que as pessoas entendam isso. Meu pai foi diagnosticado com câncer quando eu tinha dez anos e ele morreu quando eu tinha 17. Aprendi como era o acesso ao seguro-saúde perguntando a meu pai se seus tratamentos seriam cobertos ou não. Essa é uma questão real. Para muitos, estou falando por eles quando digo isso".

Brown: "Eu sempre penso em como me comunicar com as pessoas de maneira respeitosa. Às vezes, nossos eleitores podem nos ajudar a enquadrar melhor as questões. É realmente uma via de mão dupla. Depois de identificarmos adequadamente o desafio, podemos encontrar melhores soluções".

Pergunta: Você já foi alvo de discriminação com base em sua identidade? Qual foi a sua resposta?

Buttigieg, que é gay, questionado por Preet Bharara sobre as reações que teve ao se assumir sua preferência sexual em South Bend: "Havia uma mensagem de uma avó desagradável na caixa de entrada [uma vez], alguém falando sobre como, ao visitar a escola e levar uma xícara de café para Chasten, eu colocava coisas na cabeça de crianças que elas não tinham de saber nessa idade, e era como se eu estivesse corrompendo a juventude tentando ser gentil com meu parceiro".

Marquez: "Todos os dias, aqui no Texas. Na minha cidade há um grande legado da [Ku Klux] Klan. Na década de 1920, a Klan marchava pelas ruas de San Marcos. Vinte mil membros costumavam se reunir e fazer seus comícios. Mas apenas porque a Klan não existe mais oficialmente [não significa] que essas ideologias ainda não existam e permeiem os pensamentos das pessoas. E porque sou mulher e sou morena, é como um risco duplo. Tudo o que digo é retirado do contexto. Se um homem branco diz exatamente a mesma coisa, todos de repente entendem porque esse homem branco explicou".

Stuck: "Já ouvi pessoas perguntando se eu posso realmente ser mãe e política ao mesmo tempo. Uma das coisas que realmente me surpreenderam e me incomodaram foi que mesmo depois de eu ser eleita as pessoas diziam sempre que 'pensávamos que você queria estar no comitê de educação ou saúde', porque eu era uma mulher. Eu queria estar no comitê de empregos e economia e no comitê de energia e serviços públicos".

Clark: "Eu pareço jovem, então as pessoas pensam que não sou uma legisladora, a menos que eu esteja com meu distintivo. Sou uma jovem negra com cabelos naturais, é provável que eles suponham que sou mais ativista do que um legislador de verdade, ou sou estudante ou sou assessora legislativa de alguém".

Hembree: "Tive apelidos pejorativos que fazem referência à minha feminilidade. Alguém que eu conhecia se referia a mim como 'saias' nas minhas costas. Penso que, como uma jovem mulher que assume um papel de liderança, você precisa ter uma capacidade bastante grande de deixar esse tipo de coisa sair das suas costas".

Edwards: "Ouvi muitos comentários de que não estou no meu lugar por causa da idade, raça, todas essas coisas. Eu meio que lido com isso com muita frequência. Mas você não pode permitir que os pontos de vista limitados de outras pessoas se tornem seus".

Pergunta: O que você diria aos eleitores que têm reservas em votar em uma mulher?

Buttigieg, questionado pela NPR sobre o que ele diria aos eleitores com reservas para votar em alguém gay: "Acho que a pergunta que os eleitores estão fazendo é: como minha vida será diferente se você for presidente? E, para ganhar votos, meu trabalho é ir lá e responder a essa pergunta. E acho que muitas outras coisas desaparecem se, e somente se, você tiver uma boa resposta para essa pergunta".

Clark: "Por quê? Vote na pessoa que fará o trabalho e o fará direito. Vote na plataforma, não na pessoa, e não deve importar se é homem ou mulher".

Marquez: "As pessoas têm essas reservas sobre as mulheres serem muito emocionais. Descobri que meus eleitores gostam de eu ser emotiva, de ser apaixonada quando estou no pódio. Até meus apoiadores republicanos se conectam comigo por causa da preservação dos bairros, porque luto para que esses empreendedores não entrem em nossa cidade".

Frethem: "Você tem duas opções. Você pode dizer adeus, porque se você é do tipo de pessoa que vai dizer 'Não vou votar em uma mulher', não vou fazer você mudar de ideia e provavelmente seria melhor estar conversando com outra pessoa. Mas há a outra alternativa de perguntar 'Por que você diria isso?', e é essa estratégia que as pessoas dizem para você usar quando alguém conta uma piada ofensiva e você diz 'Por que isso é engraçado? Pode me explicar?' É mais difícil ter essa conversa com alguém do tipo 'eu não tenho problema em votar em uma mulher', 'eu simplesmente não gosto da voz dela' ou 'ela me traz uma vibe ruim', ou seja o que for, quando é codificado".

Hembree: "Ouvi com frequência 'você não pode ter idade suficiente para concorrer', o que aprendi que só acontece quando uso meu cabelo preso num rabo de cavalo. Mas as mulheres mais velhas que votam em nossa comunidade dizem 'estou tão feliz por você, eu nem poderia sonhar em fazer o que você está fazendo quando eu era mais jovem', e eu adoro ouvir isso".

Brown: "A maioria dos eleitores é mulher, então trata-se realmente de se conectar e desafiar percepções, combatendo-as com fatos. As mulheres têm sido historicamente líderes eficazes e pragmáticas. Quando as pessoas duvidam da capacidade das mulheres de liderar, eu sempre as desafio porque as mulheres têm uma posição muito predominante em nossas estruturas familiares."

Tradução de Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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