Descrição de chapéu The New York Times

Acadêmico que observava protesto na Turquia pode pegar prisão perpétua

Especialista em desenvolvimento infantil deverá ter sentença de julgamento anunciada na terça (18)

Carlotta Gall
Istambul | The New York Times

Quando a polícia bateu na sua porta e o levou para interrogatório, em uma madrugada de novembro de 2018, Yigit Aksakoglu pensou que estaria de volta a tempo para fazer sua natação à tarde.

Mas depois de um interrogatório de dez horas ele foi levado a um tribunal e colocado em confinamento solitário por sete meses, acusado do que na Turquia é um dos crimes mais graves: usar violência para tentar derrubar o governo.

Aksakoglu, 43, é o representante no país de uma fundação holandesa especializada em programas para o desenvolvimento social de crianças e não esperava ter problemas com a lei.

Mesmo quando o presidente Recep Tayyip Erdogan começou a efetuar prisões em massa, depois de um golpe fracassado em 2016, prendendo muitos professores, jornalistas e ativistas de direitos humanos inocentes, ele não pensou que também seria apanhado.

"Fui pego por acaso", disse Aksakoglu em uma entrevista em seu escritório no centro de Istambul. "E agora eles não conseguem me largar."

 Aksakoglu é acusado de tentar derrubar o governo, mas ele diz que sua prisão foi um acidente
Aksakoglu é acusado de tentar derrubar o governo, mas ele diz que sua prisão foi um acidente - The New York Times

A sentença de seu julgamento deverá sair nesta terça-feira (18), e ele, junto com outros 15 réus, enfrenta uma possível pena de prisão perpétua sem direito à liberdade condicional. "É como uma loteria, e provavelmente passarei muito tempo preso", disse ele.

O promotor pediu essa pena dura apesar da insistência de Aksakoglu de que as acusações são infundadas, e as provas, frágeis.

Há temores crescentes de que sob o regime cada vez mais autocrático de Erdogan ele e os demais réus sejam punidos para espalhar o medo entre a comunidade já reduzida de organizações e ativistas independentes na Turquia.

"Em 18 de fevereiro será o funeral da sociedade civil na Turquia", disse Aksakoglu. "Ninguém vai querer levantar a voz."

O caso tem origem nos protestos na praça Taksim em 2013, quando estudantes, artistas e ambientalistas se opuseram à construção de um shopping center em um parque no centro de Istambul.

O julgamento está sendo observado de perto por diplomatas ocidentais que querem ver um avanço no histórico de direitos humanos de Erdogan e no estado de direito.

Aksakoglu nasceu na aldeia de Aydin, no oeste da Turquia, e foi criado com sua irmã só pela mãe, uma farmacêutica em um hospital do Estado, depois que seu pai morreu num acidente de carro quando ele tinha 11 anos.

O jovem ganhou uma bolsa de estudos num colégio franco-turco na cidade de Izmir e outra para engenharia civil na Universidade Técnica Yildiz, em Istambul.

Foi lá que se envolveu em atividades pela integração europeia, participação jovem e boa governança em um programa patrocinado pela União Europeia.

Depois ele conseguiu um mestrado — com uma bolsa britânica— na London School of Economics e um segundo mestrado na Universidade de Barcelona, em direito e organizações não governamentais.

De volta à Turquia, começou a trabalhar na Universidade Bilgi, dando aulas e publicando livros sobre direito, administração e como influenciar a política.

   Yigit Aksakoglu, com sua esposa e filhas, caminhando nas ruas de Istambul, na Turquia
Yigit Aksakoglu, com sua esposa e filhas, caminhando nas ruas de Istambul, na Turquia - The New York Times

No início dos anos 2000, Erdogan gozava de alto conceito na opinião ocidental e tentava energicamente ter acesso à União Europeia. Seu governo fazia reformas substanciais nas instituições e nos direitos humanos para cumprir os padrões ocidentais.

Mas depois de uma década conduzindo o governo o zelo inicial de Erdogan pelas reformas diminuiu conforme a corrupção e o clientelismo cresceram.

Quando manifestantes se reuniram na praça Taksim para bloquear o projeto de construção do parque, Erdogan viu isso como um desafio direto a seu regime e esmagou o protesto com polícia antimotins e gás lacrimogêneo.

Aksakoglu morava ali perto e disse que viu os protestos com o interesse de um acadêmico observando um experimento na vida real. "Eu estudava movimentos sociais", disse ele. "Aquela foi a primeira vez que vi um movimento social, por isso é claro que fui lá, como um observador pacífico."

Na época ele trabalhava para a organização holandesa Fundação Bernard van Leer, que elaborava programas para melhorar o desenvolvimento de crianças em comunidades urbanas carentes. Em 2014 ele se tornou o representante da fundação na Turquia.

Aksakoglu realizou uma oficina com membros da sociedade civil depois dos protestos na praça Taksim para refletir sobre os acontecimentos, mas fora isso voltou ao que havia se tornado sua grande paixão: ajudar a melhorar a vida de crianças de 6 anos ou menos.

   Yigit Aksakoglu com sua esposa e duas filhas, na Turquia
Yigit Aksakoglu com sua esposa e duas filhas, na Turquia - The New York Times

Ele desenvolveu um programa chamado Urban 95, que observava o planejamento urbano e a arquitetura do ponto de vista de 95 centímetros, a altura média de uma criança de 3 anos.

Ele mapeou as áreas de Istambul onde viviam as crianças mais pobres e encontrou bairros sem um único parque, e até uma mãe que não saía de casa havia dois anos.

Aksakoglu dirigiu um programa de visitas para ajudar as mães a melhorar o desenvolvimento cognitivo e social dos filhos por meio de brincadeiras. "Eu tento aumentar a capacidade dos municípios de oferecer serviços a crianças e seus cuidadores", disse.

Depois ele passou a projetar playgrounds para crianças para o recém-eleito prefeito de Istambul.

"Estou trabalhando nesse setor para gerar mudança", disse Aksakoglu. "Mas não sou necessariamente ligado ou contra um partido político. Sou um profissional de desenvolvimento social. O que estive fazendo nos últimos 20 ou 25 anos é muito claro."

Sua detenção surgiu do nada. Cinco anos depois das manifestações na praça Taksim, a promotoria usou investigações antigas e desacreditadas e acusou 16 sindicalistas, artistas e ativistas de tentar derrubar o governo, destruir propriedades e alguns, incluindo Aksakoglu, de disseminar e intensificar os protestos em todo o país.

O interrogatório seria ridículo se não fosse tão sério. As provas consistiam geralmente em transcrições de conversas telefônicas gravadas —as fitas originais nunca foram apresentadas ao tribunal.

Mas o interrogador muitas vezes entendia mal as conversas, disse Aksakoglu. À menção da revolucionária Rosa Luxemburgo, o interrogador perguntou se ele tinha participado de uma reunião em Luxemburgo, o país europeu.

  Mesquita em construção na praça Taksim, Istambul, Turquia
Mesquita em construção na praça Taksim, Istambul, Turquia - The New York Times

Aksakoglu foi posto em solitária no presídio de segurança máxima em Silivri, perto de Istambul. "Foi realmente difícil enfrentar o choque sozinho", disse ele. "Eu não podia conversar com ninguém sobre minha situação."

Depois de sete meses e meio de detenção, ele foi libertado com ordens de se apresentar à polícia uma vez por semana. Aksakoglu voltou calmamente ao trabalho. Com o fim do julgamento, o promotor pediu a mais dura sentença possível —prisão perpétua sem direito a condicional. 

Aksakoglu afirma acreditar pouco na possibilidade de um julgamento justo depois de sete meses de audiências.

O governo trata os réus "como moedas sem valor em seus bolsos", disse ele. "Eles surgiram no meio de nossas vidas e as arruinaram. Meu passado não vale nada agora, e não tenho futuro."

Tradução de Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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