Descrição de chapéu The Wall Street Journal Eleições EUA 2020

Bloomberg contrata exército para disparar mensagens em redes sociais

Campanha está pagando US$ 2.500 por mês para quem promover pré-candidato em seus contatos

Jeff Horwitz Georgia Wells
The Wall Street Journal

A campanha presidencial de Michael Bloomberg está contratando centenas de trabalhadores na Califórnia para postar regularmente em suas redes sociais material de apoio ao candidato e para enviar mensagens de texto aos amigos sobre ele. 

A iniciativa, que poderá custar milhões de dólares, foi lançada antes das prévias da Califórnia, em 3 de março, e poderá depois ser usada em todo o país, segundo documentos obtidos por The Wall Street Journal e pessoas familiarizadas com o assunto.

É uma das ideias mais heterodoxas adotadas até agora pelo pródigo bilionário e borra a divisão entre a "organização de campanhas" tradicional e a distribuição de conteúdo patrocinado.

Imagem de Michael Bloomberg em monitores no centro de imprensa para o debate democrata em Las Vegas
Imagem de Michael Bloomberg em monitores no centro de imprensa para o debate democrata em Las Vegas - David Becker - 18.fev.2020/Reuters

A maioria das campanhas incentiva seus apoiadores a postar nas redes sociais material sobre os candidatos, mas remunerar nessa escala para que manifestem apoio em suas contas pessoais é incomum, segundo especialistas.

Um membro da campanha de Bloomberg na Califórnia e os documentos vistos pelo jornal descrevem uma iniciativa de vários milhões de dólares por mês para angariar apoio ao pré-candidato, que entrou na disputa do Partido Democrata depois de outros que construíram suas campanhas do zero.

Os documentos também relatam que a campanha adota uma estratégia que também teria sido usada pela campanha de Trump —com ótimos resultados— para tentar influenciar potenciais eleitores por meio de pessoas que eles conhecem e confiam, em vez de desconhecidos.

Para esse fim, Bloomberg está contratando mais de 500 "vice-organizadores digitais" para trabalhar de 20 a 30 horas por semana e receber US$ 2.500 por mês, segundo os documentos.

Em troca, esses funcionários deverão promover Bloomberg semanalmente a todos os seus contatos telefônicos por meio de mensagens de textos e postagens diárias em rede social em seu apoio, mostram os documentos.

"A luta pela igualdade de direitos tem sido uma das grandes lutas da vida de Mike", diz um dos textos sugeridos, citando o antigo histórico de Bloomberg de apoio ao casamento entre pessoas do mesmo sexo.

As fichas de inscrição para esses empregos, disponíveis publicamente, pedem que os interessados forneçam seus apelidos nas redes sociais para revisão e declaram que os funcionários podem ser solicitados a realizar trabalhos mais tradicionais de "organizadores de campo", por exemplo, fazendo pedidos de doação de dinheiro por telefone.

Para organizar esse esforço é usado o aplicativo Outvote, que permite aos usuários enviar textos pré-redigidos, postar materiais eleitorais em redes sociais e enviar dados de volta à campanha.

O app, financiado pela Higher Ground Labs, uma incubadora de tecnologia política democrata, geralmente é usado para pressionar voluntários a enviar conteúdo.

O Outvote também permite que os usuários verifiquem se seus amigos votaram nas últimas eleições, comparando suas listas de contatos com dados públicos.

Uma porta-voz da campanha caracterizou os trabalhadores pagos para promover Bloomberg como o futuro da organização política. "Estamos encontrando eleitores em todo lugar, em qualquer plataforma onde eles consomem notícias", disse.

"Uma das maneiras mais eficazes de alcançar eleitores é ativando seus amigos e redes para incentivá-los a apoiar Mike para presidente."

As políticas do Facebook historicamente abordaram os mundos da propaganda política e do marketing de influenciadores como campos separados. A empresa apenas recentemente começou a lidar com a intersecção dos dois.

Não está claro se mensagens como as que a campanha de Bloomberg está sugerindo precisariam ser rotuladas de conteúdo patrocinado sob as regras de clareza de informações do Facebook.

Uma porta-voz da companhia disse que postagens de "criadores de conteúdo" externos exigiriam rótulos se uma campanha pagasse por eles, mas que posts de funcionários da campanha não precisariam ser rotulados como anúncios.

A companhia não informou como classificaria publicações de empregados pagos para promover conteúdo em suas redes sociais pessoais.

Uma análise de posts em redes sociais de pessoas que estão sendo pagas pela campanha revelou que os textos não são rotulados como conteúdo patrocinado.

Autoridades da Comissão Federal de Comércio disseram que meramente rotular uma marca ou empresa na rede social é uma forma de apoio que recai sob a atuação da agência —e deveria ser revelada se o público considerasse um endosso de forma diferente ao saber que um influenciador tinha obtido benefício financeiro daquela marca.

A porta-voz de Bloomberg disse que a campanha não acredita que os posts de seus vice-organizadores de campo precisem ser rotulados, descrevendo-os como uma nova forma de organização política, diferente do conteúdo pago a um influenciador.

As campanhas políticas há muito usam uma combinação de voluntários e trabalhadores pagos para atividades como pedir doações por telefone e bater de porta em porta para pedir apoio.

Mas especialistas dizem que a intenção da campanha de Bloomberg de pagar para usar as conexões sociais de seus partidários é novidade.

James Thurber, professor de governança na Universidade Americana, disse que grupos que promovem questões políticas às vezes usam estratégias parecidas com a de pagar a pessoas para manifestar seu apoio online, mas que isso é incomum para um candidato.

"É a tática clássica de mascarar o patrocinador", disse ele. "Quando você tem recursos ilimitados, como Bloomberg parece ter, você pode fazer isso."

A campanha de Trump conta com pessoal dedicado a redes sociais e mídia digital, mas não paga a pessoas para postar em suas páginas pessoais nas redes, disse uma porta-voz.

Pelo menos até recentemente, a campanha de Bloomberg também planejava recrutar mais 2.500 "convidados para organização digital" que receberiam US$ 500 por mês em troca de postar diariamente nas redes sociais e colocar toda a sua lista de contatos no banco de dados da campanha, segundo documentos vistos pelo Wall Street Journal e um vice-organizador que foi instruído a supervisionar cinco desses convidados.

A porta-voz da campanha disse que decidiram não prosseguir com os "convidados". Ela também disse que a campanha tinha mudado o título dos vice-organizadores digitais para "vice-organizadores de campo" para refletir que a função também pode incluir atividades de campanha mais tradicionais.

Os gastos de Bloomberg contribuíram para uma subida nas pesquisas, permitindo que ele se classificasse para o debate democrata de quarta-feira (19).

Embora ele só tenha anunciado sua candidatura no final do ano passado, os gastos de publicidade de Bloomberg superam a soma das despesas do senador Bernie Sanders, da senadora Elizabeth Warren, do ex-vice-presidente Joe Biden, do ex-prefeito Pete Buttigieg e da senadora Amy Klobuchar.

A campanha do bilionário também trabalhou recentemente com uma filial da empresa de mídia e marketing Jerry Media para contratar grandes contas de memes para promover a campanha, segundo relatou o New York Times, o que levou o Facebook na semana passada a esclarecer suas regras sobre essas postagens.

A campanha de Bloomberg vai sugerir conteúdo para compartilhar e exercer certo controle de iniciativas de comunicação em redes sociais, segundo os documentos vistos pelo jornal.

Embora a campanha não tenha acesso direto ou autoridade sobre o material publicado por seus organizadores em redes sociais, uma equipe de controle de qualidade vai verificar se as postagens são apropriadas.

"Ah! Até os republicanos acham que Mike é nossa melhor aposta para derrotar Trump! Vamos provar que eles estão certos", diz uma das mensagens sugeridas, referindo-se a uma reportagem que citou agentes políticos conservadores minimizando as chances de Bloomberg.

Tradução de Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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