Descrição de chapéu Eleições EUA 2020

Caucus em Nevada testa sistema de votação democrata e a força dos moderados

Cúpula do partido afirma que usará aplicativo diferente do que não funcionou em Iowa

Washington

As primárias democratas deste sábado (22), em Nevada, vão colocar à prova o sistema de votação via caucus e servirão de teste para os candidatos moderados mostrarem que ainda podem ampliar suas bases para além do eleitorado branco se quiserem continuar na disputa do partido à Casa Branca.

Após a confusão em Iowa, Nevada vai repetir o modelo do caucus —espécie de assembleia de eleitores na qual o voto se dá por aglomeração—, mas tentará não replicar a caótica divulgação de resultados que marcou o início da corrida que vai decidir o adversário de Donald Trump.

Apoiadores do senador Bernie Sanders levantam os braços para indicar preferência durante caucus em Nevada
Apoiadores do senador Bernie Sanders levantam os braços para indicar preferência durante caucus em Nevada - Patrick Fallon/Reuters

A cúpula democrata no estado afirma que não vai usar o aplicativo que falhou nas prévias do início de fevereiro e que lançará mão de um sistema desenvolvido via Google para contabilizar os números de cada local de votação.

Com 3 milhões de habitantes, Nevada interrompe a demografia predominantemente branca de Iowa e New Hampshire e pode antecipar a temperatura das votações durante a Super Terça, em 3 de março, quando 14 estados —alguns deles mais diversos e populosos— realizam suas primárias ao mesmo tempo.

Com o péssimo desempenho de Michael Bloomberg no debate em Las Vegas na quarta-feira (19), os centristas Pete Buttigieg e Joe Biden tentam mostrar que ainda estão no páreo para disputar a nomeação democrata com o progressista Bernie Sanders, hoje líder em Nevada e na média das pesquisas nacionais.

O ex-prefeito de South Bend, pequena cidade em Indiana, e o ex-vice-presidente durante os governos de Barack Obama avaliam que podem avançar sobre a diversidade de Nevada, que tem 29% de latinos e 10% de negros, para sinalizar aos eleitores que são capazes de formar uma coalizão ampla para derrotar Trump.

Nas últimas semanas, Bloomberg havia disparado nas pesquisas nacionais e chegado ao segundo lugar, atrás de Sanders, após investir milhões de dólares em anúncios na TV e nas redes sociais com a mensagem de que ele era o nome capaz de impedir a reeleição do presidente. 

Com a estratégia de só participar das prévias a partir da Super Terça, o bilionário e ex-prefeito de Nova York estava até então fora da mira de ataque dos adversários e havia conseguido se destacar como opção viável no campo dos moderados. Sua insegurança e má performance no debate desta semana, porém, deram novo ânimo aos concorrentes.

Segundo a média das pesquisas divulgada nesta sexta-feira (21), Sanders lidera em Nevada, com 29,7%, seguido por Buttigieg, com 15,5%, e Biden, com 13,7%. 

Em quarto lugar, está a senadora progressista Elizabeth Warren (11,8%), que recuperou fôlego com a boa atuação no debate de quarta —ela ficou em terceiro e quarto lugar em Iowa e New Hampshire, respectivamente. 

O bilionário Tom Steyer, que vem subindo nas pesquisas nos últimos dias, chega em quinto lugar, com 10,9%.

Na sexta posição em Nevada, aparece a centrista Amy Klobuchar, com 9,3%. Bloomberg, por sua vez, não participa das prévias no estado.

Para esta nova fase da disputa, Biden vai focar nas primárias da Carolina do Sul, em 29 de fevereiro, onde tem base eleitoral forte. Das 5 milhões de pessoas que vivem no estado, quase 30% são negras, eleitorado que o apoia principalmente devido à sua ligação com Obama.

O ex-vice-presidente sabe, porém, que não pode ter um desempenho pífio em Nevada, como o quarto e o quinto lugar que amargou nas duas primeiras prévias de fevereiro, se quiser chegar com alguma tração à Carolina do Sul.

Já Buttigieg dividiu com Sanders a liderança em Iowa e New Hampshire, e esperava um efeito cascata de sua campanha nos próximos estados.

Analistas, no entanto, avaliam que seu caminho para a nomeação pode estar se afunilando à medida em que as regiões vão ficando mais diversas, visto que sua base de eleitores é majoritariamente branca e mais velha.

Biden sabe que o ex-prefeito de South Bend não tem apoio entre os negros, nicho que representou 24% dos eleitores democratas nas primárias de 2016, e aposta suas fichas nesse fator para tentar se consolidar como o nome de centro da sigla a disputar com Sanders.

O eleitorado negro nos EUA costuma votar em candidatos que tenham histórico de luta por suas bandeiras ou aproximação com a comunidade, o que Buttigieg não conseguiu aos 38 anos.

Ele ainda enfrenta episódios contraditórios em sua trajetória política, como a maneira displicente com que conduziu o caso de um policial que matou um homem negro em sua cidade.

O temor de ser superado por Bloomberg e sua fortuna ou por Biden e sua força entre os negros fez com que Buttigieg reforçasse sua presença em Nevada para tentar atrair o voto dos latinos. Durante o debate em Las Vegas e em alguns eventos dos quais participou nesta semana, por exemplo, falou frases em espanhol, além de ter viajado para diversas cidades do estado e colocado cem pessoas de sua equipe na região.

A tática é parecida com a do líder da média das pesquisas nacionais e em Nevada, Sanders, que também investe na conquista do voto dos latinos e tenta fazer com que apoiadores negros do centrista Biden migrem para sua órbita.

Como mostrou a Folha, no pontapé da disputa em Iowa, o senador por Vermont contratou assessores fluentes em espanhol para abordar eleitores. A ordem da campanha era visitar o máximo de pessoas das comunidades —e não só líderes regionais— e falar com os latinos sobre assuntos que vão além de imigração, estratégia que tem sido replicada em Nevada.

Sanders está com 250 pessoas de sua equipe no estado, onde pede votos há pelo menos dez meses com apoio de 11 comitês políticos.

Neste sábado, estão em disputa em Nevada 36 dos 3.979 delegados que vão à convenção nacional do partido, em julho, escolher o candidato da sigla à Presidência. 

O número é pequeno se comparado à Super Terça, quando 1.344 delegados estarão em jogo, por exemplo. Mas em um tabuleiro tão fragmentado, a diversidade e a expressiva presença da classe trabalhadora no estado podem sinalizar quem vai ganhar força para ampliar a base e o discurso de que é capaz de unir o partido e seguir na corrida contra Trump. 

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