Descrição de chapéu The New York Times

Cidade de trabalhadores agrícolas imigrantes nos EUA rejeita centros de detenção

Cerca de metade dos 15 mil moradores da McFarland, na Califórnia, vive no país ilegalmente

Miriam Jordan
McFarland (Califórnia) | The New York Times

Como imigrante ilegal nos Estados Unidos, Maribel Ramirez não pode opinar oficialmente sobre os assuntos da pequena cidade rural no Vale Central da Califórnia, onde vive há 20 anos.

Mas, tarde da noite de terça-feira (18), ela estava com centenas de trabalhadores agrícolas e outros moradores diante da Câmara Municipal de McFarland, empunhando um megafone. "Sem ICE! Sem GEO! Somos agricultores, não criminosos", entoavam eles em espanhol, liderados por Ramirez, 42.

Estava em jogo a proposta de uma corporação bilionária de transformar dois presídios estaduais programados para fechamento em centros de detenção para imigrantes ilegais, operados sob contrato com a Agência de Imigração e Alfândega (ICE, na sigla em inglês).

Esse plano, segundo líderes locais, poderia dar à cidade pobre um recurso para sobreviver.

Uma nova lei da Califórnia que proíbe prisões privadas custará à cidade US$ 1,5 milhão (R$ 6,5 mi) por ano em impostos e outras taxas pagas pela companhia de presídios, o grupo GEO, a menos que a empresa transforme as duas instalações que operava lá em centros de detenção para imigrantes.

Maribel Ramirez protesta contra a construção de novas instalações de detenção de imigração em McFarland, Califórnia
Maribel Ramirez protesta contra a construção de novas instalações de detenção de imigração em McFarland, Califórnia - Jenna Schoenefeld/The New York Times

​McFarland, que só teve um momento de fama no filme de 2015 de Kevin Costner "McFarland, USA", abriga milhares de pessoas como Ramirez, que trabalham nas plantações de uvas, amêndoas, pistache e cítricos que se estendem em todas as direções.

Cerca da metade dos 15 mil moradores da cidade, segundo estimativas não oficiais, vive no país ilegalmente —o tipo de pessoas que seriam detidas nos prédios que até agora abrigavam criminosos.

 

"Sem a GEO, não há garantia de que poderemos manter serviços de polícia, bombeiros ou qualquer outro", disse o prefeito Manoel Cantu, na quarta (19), um dia depois que a comissão de planejamento da cidade, atendendo ao desejo dominante do público, votou contra a proposta.

Cantu, que anunciou sua renúncia como prefeito no mesmo dia, previu que o encerramento dos presídios, em uma cidade que já enfrenta um déficit orçamentário de US$ 500 mil (R$ 2,1 mi), será "devastador".

Mas ele parecia resignado: "Se os moradores não os querem porque têm medo da ICE ou qualquer outra coisa, a cidade pertence aos moradores", disse ele em entrevista.

A empresa poderá apelar ao Conselho Municipal da decisão da comissão de planejamento, mas os moradores deixaram claro que farão o possível para barrar o plano.

Na reunião da comissão na terça-feira à noite, uma série de cidadãos subiu ao palco para pedir que os dirigentes se lembrem dos que moram na cidade.

"Vocês podem encontrar outras opções, mas não tragam a ICE. Em longo prazo, a comunidade de McFarland sofrerá", disse Estevan Davalos, trabalhador agrícola mexicano sem documentos que vive no município há anos.

Cidades rurais sem fundos em todos os Estados Unidos contam cada vez mais com empresas que cuidam de presídios para ter receitas fiscais, empregos e outros benefícios financeiros para se sustentarem.

Mas essas cadeias privadas foram criticadas por promover o encarceramento e ter fraca supervisão.

A nova lei da Califórnia também proíbe centros privados de detenção de imigrantes, mas o grupo GEO assinou um acordo com a ICE para operar as instalações propostas para McFarland antes que a lei entrasse em vigor —deixando a decisão final nas mãos da comissão de planejamento.

Em Adelanto, na Califórnia, onde o grupo GEO já opera um centro de detenção de imigrantes, a comissão de planejamento aprovou em votação na quarta-feira a transformação de outra prisão estadual, também dirigida pela GEO, para deter imigrantes.

Ramirez, que ajudou a organizar a oposição em McFarland, disse que tinha apenas 22 anos quando cruzou a fronteira do México, encontrou trabalho colhendo uvas em McFarland e formou uma família.

Em todos esses anos na pequena cidade, disse, nem ela nem seu marido, Eusebio Gomez, que também está ilegalmente no país, encontraram autoridades de imigração.

"Nós vivemos aqui em paz. Construímos nossa vida em McFarland, trabalhando para sustentar nossa família sem medo", explicou ela.

Seu filho Jesus é um dos melhores alunos do colégio, o que dá muito orgulho a Ramirez, que é analfabeta.

Eusebio Jr. é um ótimo jogador de futebol e trabalha nos campos durante as férias de verão para ajudar a família.

Sentindo-se assentado e seguro, o casal começou no ano passado a conversar com seu senhorio sobre a possibilidade de comprar a casa de dois quartos que eles alugam há 13 anos.

Mas um dia, em meados de janeiro, enquanto ela podava parreiras, o líder de sua equipe lhe contou sobre o plano de reformar as prisões da cidade para serem instalações da ICE.

"Aquelas duas prisões a três minutos da minha casa nunca me incomodaram", disse Ramirez, sentada na cozinha de sua casa antes de seguir para o centro para a manifestação e a audiência na terça. "Um centro de detenção da ICE traria medo à nossa comunidade. Poderíamos ter de ir embora."

Tanto a GEO como o Departamento de Justiça processaram o Estado sob a lei que proíbe contratos de prisão privativa, novos ou renovados.

Em uma tentativa de contornar a medida, assinada pelo governador Gavin Newsom em outubro e que entrou em vigor em janeiro, a GEO e a ICE firmaram um acordo em dezembro para transformar as prisões estaduais de McFarland em centros de detenção federais para imigrantes, o que eles alegam que ainda seria legal.

Foi quando a comunidade começou a agir.

A organização beneficente Fé no Vale reuniu pessoas na igreja de Santa Elizabeth e organizou grupos para distribuir petições.

Toda tarde depois de terminar seu turno nos vinhedos às 16h, Ramirez e seu filho mais velho se juntaram a dezenas de pessoas para bater em portas, informando à comunidade e pedindo apoio para sua campanha.

Eles pediam que as pessoas escrevessem seu nome, endereço e telefone em um cartão de compromisso que dizia em espanhol: "Não para os centros de detenção de imigrantes em McFarland". Eles explicavam o que estava em jogo a quem quisesse escutar.

"Algumas pessoas bateram a porta em nossas caras", disse Stefani Davalos, 17, filha de Estevan Davalos, que foi de casa em casa com seu pai. "Outras tinham medo de assinar. Mas muita gente, mesmo quem não tinha documentos, concordou em preencher o cartão."

Ao todo, o grupo reuniu mil cartões.

Antero Sanchez, padre da Igreja de Santa Elizabeth, enviou uma carta à comissão de planejamento pedindo que seus membros rejeitassem os centros de detenção. "Para uma comunidade de imigrantes como esta, esse contato perturbador significaria o medo constante da ICE na área", escreveu ele.

Antes da audiência da comissão de planejamento na noite de terça, Ramirez estava chorosa e preocupada. Remexendo nas toalhas bordadas que fez para cobrir as tortilhas sobre a mesa, ela disse: "Se a ICE vier para cá, acho que iremos para o Oregon ou Washington. Lá tem empregos na agricultura".

Quando ela chegou à frente da Câmara, com óculos de sol, estava motivada e liderava o grupo de cerca de 300 pessoas em cantos de protesto.

Do outro lado da rua, 30 empregados da GEO em um centro de detenção de imigrantes em Adelanto seguravam cartazes em um contraprotesto. "Por favor, salvem nossos empregos", dizia um. "A GEO está aqui para ficar", afirmava outro.

Depois da votação por 2 a 2 que, sob as regras da comissão de planejamento, significou o fracasso da moção, executivos da empresa saíram da Câmara e não quiseram comentar.

Na quarta, a companhia sugeriu que pediria à Câmara Municipal para rever a recusa da comissão.

"Pretendemos apresentar à Câmara os benefícios importantes de manter abertas as instalações de Central Valley e Golden State", disse a companhia em um comunicado.

Parecia que Cantu, o prefeito, não estaria lá para analisá-la, em todo caso. Sua renúncia, após nove anos no cargo, seria efetivada na sexta-feira (21).

"A cidade está em uma situação em que podem acontecer muitas coisas boas, ou sua possível morte", disse ele. "Eu fiz tudo o que pude."

Diante da Câmara Municipal na noite de terça, os moradores irromperam em aplauso pela votação da comissão.

"A comunidade fez uma grande diferença", disse Rudy Nuñez, membro da comissão que votou contra o plano.

"Somos uma comunidade unida", disse Ricardo Cano, que também votou contra. Os outros comissários saíram sem comentar.

Lá fora, a multidão entoava "Sim, foi possível". Chorando, Ramirez disse: "Estou feliz pela minha gente".

Ela se afastou e telefonou para seu marido, que estava fora da cidade. "Estou muito orgulhosa porque as pessoas nos apoiaram", disse. "Ganhamos. Eu queria lhe contar isso, meu amor. Boa noite."

Tradução de Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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