Descrição de chapéu The New York Times

Crianças morrem congeladas enquanto ataques provocam maior êxodo da guerra na Síria

Avanço de forças de Assad sobre Idlib agravam crise humanitária

Reyhanli (Turquia) | The New York Times

O bebê não se mexia. Seu corpo havia esquentado e depois esfriado. Seu pai correu com ela até um hospital, seguindo a pé quando não conseguiu encontrar um ônibus, mas foi tarde demais.

Com 18 meses, Iman Leila havia morrido congelada.

No abrigo de concreto semiacabado que tinha sido sua casa desde que fugiram pelo noroeste da Síria, a família Leila passou três semanas suportando temperaturas à noite em torno de -6°C.

"Eu sonho com me aquecer", disse o pai de Iman, Ahmad Yassin Leila, alguns dias depois, por telefone.

"Só quero que meus filhos se sintam aquecidos. Não quero perdê-los para o frio. Não quero nada além de uma casa com janelas que mantenham o frio e o vento lá fora."

A revolta na Síria começou com um lampejo de esperança, quase nove anos atrás. Hoje, em meio a uma das piores emergências humanitárias do conflito, alguns dos que pediam liberdade e dignidade em 2011 só querem evitar o frio do inverno.

O vencedor efetivo da guerra civil no país, o ditador Bashar al-Assad, está mais perto que nunca de retomar o último território em mãos dos rebeldes, a província de Idlib, no noroeste, um marco que vai selar sua vitória enquanto agrava o sofrimento da população.

Nos últimos três meses, suas forças, apoiadas por ataques aéreos russos, intensificaram o avanço na província, empurrando quase 1 milhão de moradores na direção da fronteira com a Turquia.

Muitos estão morando em barracas ou dormindo expostos ao frio congelante. Iman Leila foi apenas uma de nove crianças que morreram congeladas nas últimas semanas.

O êxodo é o maior em uma guerra que desalojou 13 milhões de pessoas e tirou centenas de milhares de vidas, e se classifica entre os maiores na história recente, perdendo apenas para a fuga dos muçulmanos rohingya em Mianmar em 2017.

Com cerca de 3 milhões de moradores presos entre a fronteira turca fechada ao norte e bombas e morteiros explodindo pelo sul e o leste, a crise tem o potencial de piorar muito enquanto o regime luta para recuperar toda a Síria.

"Essas pessoas estão tentando tomar as decisões mais duras de suas vidas em condições que estão fora de seu alcance", disse Max Baldwin, diretor do programa para o norte da Síria do Mercy Corps.

"O nível de intensidade, o fato de você ter os militares turcos aqui, a linha de frente se movendo ali, eles continuam atacando hospitais —isso está criando um nível de medo e incerteza que é um enorme desafio para todos. E pode piorar."

Os sírios em fuga lutam por segurança em acampamentos na área rural perto da fronteira turca ou em cidades que podem ser bombardeadas a qualquer momento.

Os mais felizardos se abrigam em prédios alugados ou abandonados, muitos deles sem portas ou janelas. Os menos sortudos dormem em barracas.

Dezenas de milhares se amontoam nas calçadas ou embaixo de oliveiras com os galhos envoltos em lona plástica, cobertores ou nada.

Os que têm condições compram combustível para aquecedores, quando o encontram. Os que não podem embrulham seus filhos em folhas plásticas e enchem qualquer saco que encontrarem com água quente para aquecer a cama das crianças à noite. Quando ficam sem lenha, queimam roupas e sapatos.

Alguns fugiram carregando pedaços de suas casas —como batentes e esquadrias—, esperando melhorar seus abrigos temporários ou reconstruir um dia. Agora esses também vão para o fogo.

Uma família que tentava manter uma pequena fogueira em sua barraca neste mês acabou queimada enquanto dormia, matando duas crianças.

"Muitas outras pessoas estão morrendo", disse Leila. "Ninguém se importa."

Como centenas de milhares de sírios, os Leila já fugiram de outros locais e acabaram em Idlib como último recurso.

Nove anos atrás, Ahmad Leila aderiu aos protestos pacíficos contra o brutal autoritarismo de Assad, que irromperam em uma rebelião armada e guerra.

Dois anos atrás, quando as forças de Assad recapturaram a cidade onde a família vivia, o subúrbio de Ghouta oriental, em Damasco, eles aceitaram a oferta do regime de salvo-conduto até Idlib em vez de enfrentar a retaliação.

Mais de 1 milhão de civis de toda a Síria fizeram a mesma coisa, muitos tendo se mudado diversas vezes.

Eles duplicaram a população de Idlib, transformando-a em um caldeirão de dissidentes transplantados com suas famílias e uma série de grupos jihadistas e rebeldes que exploravam o caos para tomar o controle político.

A presença deles —dominados pelo Hayat Tahrir al-Sham, ligado à Al Qaeda— forneceu uma justificativa regime sírio para realizar uma chacina em nome do contraterrorismo.

Com grande parte da região sob fogo, as organizações de ajuda não conseguem chegar aos civis, ou levam horas para entregar suprimentos em acampamentos que estão a poucos quilômetros de distância, porque as estradas estão congestionadas.

Trabalhadores de assistência, voluntários e contratados que fornecem água, cobertores e alimentos estão eles mesmos fugindo de suas casas enquanto tentam ajudar outros, deixando a resposta humanitária mergulhada no caos.

Grupos de ajuda há muito estão sem barracas e não têm fundos para comprar mais.

"As pessoas não fazem exigências sobre a qualidade dos abrigos", disse Fouad Sayed Issa, 25, fundador da Violet, organização beneficente síria sediada do outro lado da fronteira turca.

"Elas só querem um lugar para ficar. Elas nos pedem tendas, e não temos nenhuma para dar."

Isolados de países que antes enviavam ajuda militar aos rebeldes, eles suplicam por um socorro que ninguém está oferecendo.

"Estamos sozinhos, com certeza", disse Issa. "Isto é o fim."

Até o início da ofensiva do governo na última primavera, Idlib havia mantido uma frágil estabilidade sob um cessar-fogo negociado pela Rússia, que apoia Assad, e a Turquia, que apoiava as forças de oposição.

A Turquia protestou contra a violação do acordo e manteve negociações com a Rússia, sem resultado. A Rússia prometeu reinstaurar o cessar-fogo enquanto seus aviões bombardeiam hospitais civis.

A Turquia lançou uma modesta contraofensiva, mas poucos esperam que ela acabe com a chacina.

Os Estados Unidos, que têm 500 soldados no sul e leste da Síria, descartaram se envolver militarmente no noroeste.

O governo Trump se aliou à Turquia, manifestando apoio a seu contra-ataque e à proposta de zona de segurança protegida pela Turquia para civis desalojados na fronteira.

"A Turquia sozinha não pode lidar de repente com 3 milhões de refugiados que atravessam sua fronteira", disse James Jeffrey, principal diplomata americano que supervisiona questões relacionadas à Síria, em entrevista à televisão turca em Istambul neste mês.

"Ela tem todo o direito de garantir que isso não volte a acontecer, e estamos aqui para ver como podemos ajudar os turcos a exercer esse direito."

No lado turco da fronteira, refugiados sírios assistem em agonia enquanto seus telefones tocam com súplicas de seus parentes em Idlib, perguntando aonde eles podem ir.

"Eles não querem que nós vamos embora e sejamos humilhados —ficar na rua, não poder alimentar as crianças, vê-las tremer de frio", disse Abdulhamid Sallat, 31, ativista sírio que escapou para a pequena cidade de Reyhanli, na fronteira turca, em 2014.

Sua família continua em sua aldeia na Síria, Binnish.

"Não consigo dormir", disse seu primo, Turki Sallat, 32, ferreiro em Reyhanli cujos pais e irmãos também estão em Binnish. "Não posso fazer nada."

De alguns campos, os que ficaram na Síria podem ver a Turquia, verde e organizada, além da cerca na fronteira.

No lado turco do cruzamento de Reyhanli, oliveiras crescem em fileiras ordenadas. Nada dorme embaixo delas a não ser um cão sem dono.

Mas a Turquia já abriga mais de 3 milhões de refugiados sírios e se recusa a aceitar mais. Isso não faz Khadija Mohsen Shaker, 34, perder a esperança.

Ela e um de seus quatro filhos cruzaram há vários dias para Reyhanli em busca de ajuda médica —ela sofre de problemas nos rins.

Mas logo eles terão de voltar à sua barraca em Idlib, onde seus pais idosos e duas outras crianças estão ficando.

"Eu gostaria de morar na Síria como as pessoas vivem aqui", disse ela. "Lá existe medo em toda parte. Somos cercados pelo medo."

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