Democracia não deve ser confiada a softwares, diz pesquisador

Caucus de Iowa teve resultados atrasados por falha em aplicativo

São Paulo

A decisão de usar para valer, em uma eleição real, um software que não foi testado em larga escala é simplesmente “burra”.

É assim que Duncan Buell, professor de ciência da computação na Universidade da Carolina do Sul, refere-se ao imbróglio envolvendo o aplicativo que atrasou a divulgação dos resultados das primárias do Partido Democrata no estado de Iowa.

Usado pela primeira vez em um caucus, o IowaReporterApp serviria para a transmissão dos resultados de cada local de votação para uma central do partido, mas o programa não funcionou como previsto. 

Os presidentes dos distritos não receberam treinamento específico e não conseguiram fazer login na ferramenta. Muitos não conseguiram nem mesmo baixar o aplicativo.

“Suspeito que quem escolheu fazer isto [usar o app] era de certa forma ingênuo e certamente otimista em excesso, ou prestou muita atenção nos ‘crentes verdadeiros’ que diziam que esse sistema ia funcionar”, afirma o acadêmico, que desde 2004 estuda sistemas eletrônicos de votação.

Contagem de votos do caucus de Iowa em Des Moines, capital do estado - Jim Watson/AFP

​​Buell é um crítico feroz do uso de qualquer tipo de tecnologia em votações —incluídos aí o voto por celular e as urnas eletrônicas.

Seu argumento principal, dividido por outros tantos especialistas em cibersegurança, é o de que programas de computador podem apresentar problemas, e que não vale a pena correr esse risco em nome do jogo democrático. “Não devemos confiar nossa democracia a um processo tão impreciso.”

Sistemas de transmissão de votos por celular usam diversos componentes, sendo que cada um foi desenvolvido por uma empresa diferente, explica o pesquisador. Há o perigo, então, de que, num momento importante como a hora da escolha do candidato, a transmissão de dados de um componente para o outro não seja feita de maneira 100% satisfatória.

A questão da cibersegurança em processos democráticos veio à tona primeiramente nas eleições presidenciais americanas de 2016. Segundo o Comitê de Inteligência do Senado, na corrida que elegeu Donald Trump a Rússia invadiu sistemas eleitorais nos 50 estados dos EUA.

Não há provas de que o exército digital de Vladimir Putin tenha alterado algum voto, ou de que o resultado daquele pleito poderia ter sido diferente, mas o alarme soou. 

“Devemos assumir que tentativas [de hackear sistemas] serão feitas” neste ano pelos russos ou por algum outro país, afirma Buell.

Para ele, embora a administração dos EUA esteja hoje mais ciente dos riscos devido ao episódio de 2016, ainda não se aplicam a tais sistemas “os mesmos padrões de segurança que aplicaríamos se estivéssemos lidando com outros tipos de ‘infraestrutura crítica’, como a rede elétrica”.

Faltam funcionários e os recursos e o conhecimento dos oficiais eleitorais são limitados.

Há, porém, uma eleição por meio de celular sendo feita nos EUA. Os 1,2 milhão de eleitores registrados da grande Seattle estão escolhendo via smartphone diretores para uma agência ambiental estatal que atende a cidade e mais 30 outros municípios ao redor, no que a imprensa americana chama de “um momento histórico para a democracia” no país.

Funciona da seguinte forma: o eleitor insere em um site seu nome e data de nascimento, preenche a cédula com o candidato escolhido, assina com o dedo na tela do celular e clica em enviar. Os dados são transmitidos para escritórios eleitorais, que então imprimem os votos, conferem-nos e os contabilizam.

O que garante a autenticidade é a checagem da assinatura pelos oficiais, explica Bryan Finney, presidente da Democracy Live, a empresa que provê a tecnologia para essa eleição.

“O programa é um piloto que mostra que os eleitores não precisam ir até um local de votação ou imprimir o voto e enviar pelos correios. Queremos lançar as bases do futuro da votação nos EUA.”

O sistema —usado desde 2010 para que pessoas com deficiência, americanos vivendo no exterior e soldados em missões fora do país possam votar— foi desenvolvido em parceria com Microsoft e Amazon, financiado pelo Departamento de Defesa e aprovado pelo Departamento de Segurança Interna.

A assinatura das agências federais garante a segurança do processo, afirma Finney, e a empresa de Jeff Bezos não têm como acessar nem modificar o conteúdo do que está sendo transmitido em sua nuvem.

Além de permitir o voto não presencial, a praticidade do sistema da Live Democracy promete aumentar o número de eleitores que participam de uma eleição. Segundo Finney, há potencial de crescimento entre o público jovem, habituado a usar smartphones.

Apenas 50% dos eleitores entre 18 e 29 anos aptos a votar compareceram às urnas nas eleições presidenciais de 2016, informou um estudo da Tufts University, de Massachusetts, que abriga a mais antiga escola de relações internacionais dos EUA.

Mas o otimismo de Finney é contrabalançado pela racionalidade de Buell. Para o professor, a experiência malsucedida com o software em Iowa, embora não tenha produzido grandes danos, pode servir de lição.

“As eleições são eventos inerentemente caóticos. Do ponto de vista dos ‘sistemas’, isso é um argumento forte para que o processo seja o mais simples possível, e isso significa tirar o máximo de tecnologia possível do processo.”

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